sexta-feira, 22 de novembro de 2013

MISSÃO INTEGRAL E O PROBLEMA DA SUPERVALORIZAÇÃO DO POBRE – UMA ANÁLISE BÍBLICA





A história tem demonstrado que toda heresia provém de uma distorção de algo correto ou perfeitamente aceitável na vida cristã. Às vezes, as intenções são perfeitas, começa-se com base nas Escrituras, mas por falta de um estudo mais aprofundado delas, a Igreja entra em uma distorção que pode ser prejudicial à sua vida. Por isso, a igreja precisa de pastores, mestres e doutores cujos dons foram dados por Jesus (Ef 4.7; 11).

Nesses últimos anos, tem-se falado muito em Missão Integral e o abandono da Igreja em influenciar varias áreas na sociedade. Devido a essa ênfase de congressos e livros escritos sobre o tema, muitos têm a tendência de associar Missão Integral com “idéias de esquerda”, “marxismo evangélico”, “Teologia da libertação evangélica”. Talvez, seja por causa de algumas interpretações que beiram às interpretações desses grupos e ideologias supra citados.

A Missão Integral, apesar de aparentar ser uma ideologia nova e recheada de marxismo ou liberalismo teológico, ela demonstra ser completamente bíblica e que suas reivindicações teológicas demonstram que ela, por essência, precisa ser integral, pois caso contrário, não se tem Missão da igreja, mas apenas uma caricatura do que chamam de Missão, pois é incompleta [veja o texto que escrevi sobre isso].

A Convenção Batista Nacional fez a sua “1a Consulta Nacional de Missão integral – daTeologia à prática”. Foram dias de muita reflexão, confrontos e de muita comunhão. Cada preletor demonstrava muita coerência entre a sua pregação e a sua prática. Na verdade, eu me senti como uma criancinha diante de tantos gigantes anônimos da CBN; pastores que se podia perceber Cristo em suas vidas, que viviam Cristo e que estão cumprindo a Missão da Igreja na plena expressão do seu significado.

No entanto, precisa-se pensar que a Missão da Igreja não se baseia somente em projetos Eclesiásticos ou paraeclesiásticos, mas na vivência da vida na sociedade influenciando em todas as áreas, já que a Missão foi dada à Igreja na sua individualidade. Seja na política, na universidade, na família, ou em qualquer área, a mensagem do Evangelho deve vir acompanhada de prática.

A 1a Consulta da CBN foi muito feliz em colocar como tema “da Teologia à prática”. É importante que a nossa prax seja baseada na nossa doxa. Ou seja, precisamos ter ortopraxia com base na nossa ortodoxia. A Teologia precisa ser o alicerce onde construímos a nossa prax. Por isso, precisamos analisar com coerência as Escrituras para que não caiamos nos erros dos liberais e católicos da Teologia da Libertação que fazem, de fato, porém, sem significado nenhum, pois essas obras se tornam um fim em si mesmo, transformando-se todo esforço em fumaça.

Um dos grandes perigos à visão da Missão Integral é a supervalorização dos pobres. Os que defendem essa ideia usam, principalmente, textos dos Evangelhos onde Jesus ensina e fala em advertência aos ricos ou ensinamentos aos pobres.

Pretendo analisar exegeticamente 3 textos, que, se não houver uma hermenêutica correta, ter-se-á a tendência de concluir que Jesus deu preferência aos pobres e que estes tinham um certo privilégio diante de Deus, afirmando, com isso, que a salvação de pessoas ricas e cultas é um grande milagre contingente, mas os pobres não é tanto um milagre, é algo natural que está na essência deles.

No entanto, o que as Escrituras afirmam sobre o pobre e o rico é exatamente isso? Será que Jesus deu preferência mais a pobres do que a ricos? Jesus somente deu “ais” aos ricos? Pretendo responder analisando exegeticamente 3 textos que foram citados na Consulta e analisá-lo de uma forma mais exegética.

1. Análise de Lucas 6.24,25

Lucas 6:24-25  24 Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação.  25 Ai de vós, os que estais agora fartos! Porque vireis a ter fome. Ai de vós, os que agora rides! Porque haveis de lamentar e chorar.

Uma regra Básica de Hermenêutica é analisar cada texto e cada sentença segundo o seu contexto imediato, do livro, de toda a Bíblia, e, muitas vezes, o contexto histórico. Para que se entenda a advertência contundente de Jesus aos ricos, precisa-se entender o contexto que os judeus entendiam essa expressão.

Havia em Israel uma classe social que os judeus chamavam de Am-ha-arez. Essa classe era constituída de pessoas bem pobres e a maioria habitava na região da Galileia, incluindo Cafarnaum, Corazim e Betsaida. A palavra Am-ha-arez quer dizer “o povo da terra”, mas depois de muito tempo significava uma grande variedade de grupos misturados na Palestina. Eram grupos e etnias que passaram a habitar na Palestina no Período do exílio da Babilônia. Esses povos se misturaram com os camponeses pobres. Dentre esses estavam samaritanos, arameus, filisteus e até mesopotâmicos. Os judeus, portanto, tinham grande desprezo por essas pessoas, principalmente por samaritanos.

Por causa disso, os judeus de outros lugares tinham desprezo por essas regiões e por essas pessoas. Havia no Talmude uma expressão do rabino Hillel que dizia: “não têm consciência e podem ser tudo, menos humanos”. Outro rabino chamado Jonathan “esperava que cada um desses miseráveis fossem cortados em dois como um peixe”. Ainda afirmou: “um judeu não deve casar-se com a filha de um Am-ha-erez, pois o livro sagrado de Deuteronômio dizia no capítulo vinte e sete: “maldito aquele que se ajuntar com animal”. [Para ver melhor sobre isso, DANIEL-ROPS, Henri. A vida diária nos tempos de Jesus. São Paulo: Vida Nova, 1988, p. 102.]

Para agravar mais a situação, havia uma má compreensão dos judeus de Dt  28.15-17

Deuteronômio 28:15-17  15 Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do SENHOR, teu Deus, não cuidando em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos que, hoje, te ordeno, então, virão todas estas maldições sobre ti e te alcançarão:  16 Maldito serás tu na cidade e maldito serás no campo.  17 Maldito o teu cesto e a tua amassadeira.

Para um judeu, alguém era pobre por que as maldições de Dt 28 estavam sobre essa pessoa e os ricos eram considerados abençoados, pois as bênçãos de Dt 28 estavam sobre eles.

Deuteronômio 28:3-6  3 Bendito serás tu na cidade e bendito serás no campo.  4 Bendito o fruto do teu ventre, e o fruto da tua terra, e o fruto dos teus animais, e as crias das tuas vacas e das tuas ovelhas.  5 Bendito o teu cesto e a tua amassadeira.  6 Bendito serás ao entrares e bendito, ao saíres.

No entanto, eles entenderam errado o texto, pois o texto queria demonstrar que essas bênçãos eram inatingíveis sem a graça de Deus, pois havia um mandamento que comprometia todos os demais:

Deuteronômio 28:58-59  58 Se não tiveres cuidado de guardar todas as palavras desta lei, escritas neste livro, para temeres este nome glorioso e terrível, o SENHOR, teu Deus,  59 então, o SENHOR fará terríveis as tuas pragas e as pragas de tua descendência, grandes e duradouras pragas, e enfermidades graves e duradouras;

Esse mandamento demonstrava que uma simples transgressão trazia todas as maldições sobre eles e que somente a expiação, Cristo, preparada antes da fundação do mundo poderia satisfazer a justiça de Deus. Nesse caso, todos estavam debaixo das maldições da Lei. Tantos ricos como pobres precisavam da graça, pois o texto não ensina que as riquezas viriam pela obediência, pois todos transgridem a Lei de Deus.

A razão da admiração dos discípulos quando Jesus afirmou que era impossível um rico entrar no Reino dos céus se devia exatamente a isso. Eles não entenderam o que Jesus afirmou que aqueles que poderiam ter a vida eterna, na mentalidade judaica, se colocavam numa situação de total impossibilidade e que somente Deus poderia fazer algo.

Mateus 19:24-26  24 E ainda vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.  25 Ouvindo isto, os discípulos ficaram grandemente maravilhados e disseram: Sendo assim, quem pode ser salvo?  26 Jesus, fitando neles o olhar, disse-lhes: Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível.

Portanto, os judeus acreditavam que os pobres eram malditos e dificilmente poderiam ganhar a vida eterna. Por outro lado, quem fosse rico, já tinha a vida eterna como garantia. Jesus estava exatamente indo contra essa ideia que o levou a falar vários “ais” a eles. A expressão rico, aqui, portanto, demonstrava pelo contexto geral alguém autosuficiente que se achava salvo pelas suas condições e cumpridores da Lei.

Porém, Jesus falou “ais” para pobres também. Talvez, mais contundentes que os que ele falou aos ricos:

Mateus 11:20-24  20 Passou, então, Jesus a increpar as cidades nas quais ele operara numerosos milagres, pelo fato de não se terem arrependido:  21 Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza.  22 E, contudo, vos digo: no Dia do Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras.  23 Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje.  24 Digo-vos, porém, que menos rigor haverá, no Dia do Juízo, para com a terra de Sodoma do que para contigo.

As cidades de Corazim, Betsaida e Cafarnaum eram cidades habitadas pelos Am-ha-erez; pessoas paupérrimas e totalmente desprezadas na sociedade. No entanto, Jesus increpou sobre eles “ais” contundentes demonstrando claramente que ele jamais deu privilégios a pobres. Quando ele falou “ais” aos ricos, ele percebe que a semântica da palavra tinha a ver com autossuficiência diante dos judeus que se consideravam abençoados por Deus e com garantia da salvação. Portanto, jamais se pode interpretar esses “ais” a ricos no sentido de finanças, mas a todos aqueles que se sentem seguros por seus próprios méritos e não são “pobres de espíritos” como afirma Mateus no sermão de Jesus (Mt 5.3).

2. Análise de Lucas 4.18

Lucas 4:18  18 O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos,

Aconteceu algo interessante nessa passagem. Jesus estava lendo o texto de Is 61.1 em hebraico, pois para a leitura da Lei, usava-se o hebraico com um interprete em aramaico ao lado. No entanto, Lucas usa a passagem da LXX (tradução do hebraico para o grego). Isso tem um significado bem interessante. Lucas entendeu que a passagem traduzida da LXX interpretava muito bem o texto em hebraico.

Isso quer dizer que os rabinos, escribas da LXX e Lucas reconheceram que a palavra πτωχος ptöchos – pobre traduziria muito bem o adjetivo hebraico ענו ‘anav que quer dizer “manso”, “humilde”. Dentro da cosmovisão da época, os ricos eram autossuficientes de salvação por se acharem dentro já das bênçãos da Lei mosaica. No entanto, Lucas faz questão de colocar o texto da LXX para demonstrar que Jesus veio buscar pessoas com uma motivação contrária do que eles se achavam – quebrantados e mansos.

Da mesma forma com a palavra τυφλοι “cegos”. Não há essa palavra no texto hebraico, mas os rabinos da LXX e Lucas entenderam que ela queria dizer muito bem para a época quando substituía a expressão שבוים “cativos” (verbo hebraico no particípio), pois eram como cegos espirituais.

Mediante isso, o texto não nos dá autorização para interpretá-lo de forma literal as palavra “pobres” e “cegos”, pois elas vêm substituindo as palavras “quebrantados” e “cativos”. Todas essas têm profundo significado espiritual. No próprio texto dá para se notar que o sentido que Jesus quer demonstrar é espiritual pelas expressões alternadas “libertação aos cativos” e “liberdade aos oprimidos”. Todas essas expressões demonstram ser no sentido espiritual e não literal. William Hendriksen, em análise dessa passagem de Lucas, afirma:

"O orador em Isaías estava pensando nos desamparados, naqueles que tinham consciência dessa condição. Isaías 66.2 fornece um bom comentário: 'o homem para quem olharei é este: o aflito e abatido de espírito e que treme da minha palavra'". [HENDRIKSEN, William. Comentários do Novo Testamento – Lucas Vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p.343.]

Portanto, quando Jesus cita o texto do profeta Isaías, ele quer demonstrar que ele foi ungido para proclamar aos quebrantados, mansos, que os rabinos da LXX chamavam de pobres. Lucas usou a mesma palavra para falar sobre os humildes e quebrantados de coração, pois os pobres esperavam somente na vinda do Messias que viria e restauraria todas as coisas, indo contra a ideologia dos religiosos e judeus da época.

Se esse texto dissesse conforme alguns interpretam, haveria profunda contradição quando os evangelistas enfatizam Jesus evangelizando Nicodemos, Zaqueu, o Jovem Rico, o centurião romano (pois ele tinha escravos). Esses homens eram profundamente ricos para a época. Enfim, Jesus gastou tempo evangelizando tanto ricos como pobres. Portanto, qualquer interpretação que privilegie pobres na evangelização e salvação é digna de que seja revista e que seja abandonada.

3. Análise de Marcos 10.25-27

Mark 10:25-27  25 É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.  26 Eles ficaram sobremodo maravilhados, dizendo entre si: Então, quem pode ser salvo?  27 Jesus, porém, fitando neles o olhar, disse: Para os homens é impossível; contudo, não para Deus, porque para Deus tudo é possível.

Essas palavras estão no contexto do diálogo entre Jesus e um jovem rico que o abordou perguntando o que faria para herdar a vida eterna. Notemos que a pergunta deste jovem era apenas retórica, pois era judeu, cumpridor da lei (aos seus olhos) e rico. Para ele, não faltava absolutamente nada.

Jesus, então, começa a desconstruir, primeiramente o conceito que ele tinha de Deus, depois, de si mesmo e da Lei. Jesus queria demonstrar aos seus discípulos que o homem mais honesto que possa ser e rico precisava de um milagre para ser salvo. Jesus jamais está privilegiando os pobres nesse texto, mas enfatizando diante da cosmovisão errada que tinham acerca dos ricos, que a salvação é um milagre.

O próprio Jesus também demonstrou profunda dificuldade para com judeus pobres que o seguiam, pois ele afirmou a esses judeus que tinham fome e que o seguiam simplesmente por causa da multiplicação dos pães (Jo 6.34):

John 6:42-44  42 E diziam: Não é este Jesus, o filho de José? Acaso, não lhe conhecemos o pai e a mãe? Como, pois, agora diz: Desci do céu?  43 Respondeu-lhes Jesus: Não murmureis entre vós.  44 Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia.

Notemos que eram judeus da Galileia, pois eles afirmam que eles conheciam os pais de Jesus. No entanto, Jesus demonstra profunda impossibilidade na salvação vinda deles mesmos, exceto, se o Pai os trouxesse. João usa um verbo grego muito forte ἑλκύω / helkuö que quer dizer “agarrar, puxar”. O Pai precisa trazer na força de sua soberania para que aqueles que eram pobres fossem salvos. Ou seja, era impossível para eles, mas completamente possível para Deus. Portanto, todos precisam de um milagre de Deus para serem salvos.

4. O cristão e os pobres

Precisamos ver os pobres e suas necessidades como um dos aspectos da obediência do amor ao próximo e não como um fim em si mesmo na Missão da Igreja de Cristo. Por exemplo, a igreja não pode ver somente a necessidade de pessoas pobres nas favelas, mas as necessidades de jovens e professores nas universidades que precisam da luz do Evangelho também, de artistas, políticos e atletas que precisam de um Evangelho contextualizado e inteligente.

Outra distorção e perigo daqueles que aderem à Missão Integral é achar que o estudo e a inteligência são incompatíveis no Reino de Deus. O apóstolo Paulo, dizem, é apenas uma exceção. Será? Novamente, esses que afirmam isso erram por problemas exatamente nos estudos. A maioria dos escritores do NT era erudito e com grande conhecimento do VT, hebraico, grego e do contexto da sua época. Tem-se Lucas, que era médico e um historiador, pois buscou fontes históricas e escreveu com um grego de alta erudição; tem-se Mateus, um publicano com conhecimento profundo do VT e do grego; Marcos; João, apesar de ser um pescador, era um profundo conhecedor do grego, traduzindo termos hebraicos do seu Evangelho para o grego; tem-se Paulo que dispensa qualquer comentário pela sua erudição em várias áreas; o autor aos Hebreus, um profundo conhecedor da Lei de Moisés, do grego e da literatura. Portanto, Deus usou homens com profundo conhecimento e erudição. Paulo não foi uma exceção.

Alguns usam a passagem que Jesus afirma:

Lucas 10:21  21 Naquela hora, exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado.

Quem eram os Sábios e instruídos que Jesus estava falando? Claro que falava dos escribas, fariseus e saduceus que eram instruídos na Lei, mas desprezavam completamente as palavras de Jesus. Jamais Jesus quis falar do conhecimento no sentido geral, da reflexão ou da necessidade de mais estudo.

Se o estudo fosse incompatível ao Reino de Deus, seria um absurdo Jesus dar à Igreja os Mestres. Paulo ensina que o presbítero precisa ser apto para ensinar (1Tm 3.2). A palavra grega διδακτικος / didaktikos significa habilidade ao ensinar e isso só se obtém com estudo e inteligência. Portanto, aos que ensinam que a Missão integral abrange somente os que não são inteligentes e sábios, devem estudar mais.

Os pobres devem ser vistos pela igreja da mesma forma que os universitários, os artistas, os jogadores, músicos etc. Muitos destes, muitas vezes, são ricos que precisarão de um evangelho contextualizado e de projetos que os alcancem. Assim como a Missão é tanto em Jerusalém, Judéia, Samaria até os confins da Terra, devemos pensar em todas as classes para que sejam alcançadas pela igreja.

 O apóstolo Paulo tinha essa visão:

Gálatas 2:9-10  9 e, quando conheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram reputados colunas, me estenderam, a mim e a Barnabé, a destra de comunhão, a fim de que nós fôssemos para os gentios, e eles, para a circuncisão;  10 recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer. [grifo meu]

Esse texto demonstra que a evangelização aos pobres não pode ser um fim em si mesmo ou única na Missão da Igreja. Paulo afirma que ele se esforçou, foi diligente para lembrar dos pobres. O verbo grego σπουδαζω / spoudazö significa “ser diligente”, “procurar fazer algo”. Isso significa que se Paulo se esforçou para fazer é porque ele tinha juntamente outros objetivos que até poderiam fazê-lo esquecer dos pobres.

Portanto, os pobres em si jamais podem ser a prioridade da igreja, mas, sim, todos os que precisam da luz de Cristo, sejam pobres, sejam ricos, sejam sábios, sejam ignorantes como Paulo afirmou:

Romanos 1:14  14 Pois sou devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes;

Paulo se sentia devedor de todas as pessoas e não somente de um grupo. Por isso, precisamos incluir todas as pessoas de todas as classes em suas necessidades. Devemos lembrar que o homem moribundo que o Bom Samaritano ajudou era um judeu, e se ele vinha de Jerusalém e foi roubado era por que ele tinha dinheiro (Lc 10.30). Portanto, não estava na classe dos Am-ha-erez, ou dos pobres.


Portanto, assim como se deve ver o homem no seu todo, precisa-se ver o homem em todas as suas classes, não preterindo nenhuma, pois o Evangelho é integral e a sua Missão também.

3 comentários:

  1. Graça e paz, Mário!

    Parabéns pelo excelente texto. Esta é a mesma visão tenho sobre o assunto.

    Um abraço,

    Edmilson Vila Nova

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  2. Querido Mário, muito obrigado pelo seu texto. Li também li o outro e achei muito interessante. Contudo, perdoe-me a sinceridade, mas tenho sentido uma certa ambiguidade em suas posições quanto à Missão Integral, que tem sido frequentemente atacada pela ala Reformada da wual você faz parte. Sei que recentemente sua denominação discutiu o tema. Qual sua posição à respeito da TMI? Qual sua posição? Aprecearia receber suas considerações.

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  3. Amado pastor Alcimar,

    As minhas considerações são as que destaquei nesse texto. A Missão Integral inclui influenciar todas as áreas e em todas as classes, e isso é perfeitamente bíblico. No meu primeiro texto, deixei claro por que os reformados e Calvino não destacavam tanto o nome "integral". Eles entendiam que a Missão tinha que ser já integral. Os reformados não têm muito problema com a integridade da missão porque conhecem sobre a doutrina da Graça Comum. No caso de algumas denominações, elas não enfatizam ou não falam dessa doutrina. No entanto, as igrejas reformadas influenciaram todo o mundo em todas as áreas.

    Acredito que a Missão Integral é mal vista devido a alguns dos seus proponentes e pregadores, que por falta de uma exegese mais criteriosa, dão a entender o que eu escrevi no meu texto que Jesus veio salvar mais os pobres enfatizando somente as ações sociais. Na minha opinião, esses pregadores devem ser evitados ou, então, ficar claro que Jesus não fez nenhuma preferência de classes como demonstrei no meu texto.

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