sábado, 21 de março de 2015

EXISTE ERRO, SIM, DE PORTUGUÊS! UMA ANÁLISE SOCIOLINGUÍSTICA DA IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DA GRAMÁTICA



MAGALHÃES, Francisco Mário Lima

RESUMO

Alguns afirmam que não existem erros de Português, mas apenas há um preconceito linguístico. Por causa disso, muitos têm receios de falar essa palavra quando se trata de Língua Portuguesa. Isso acontece porque há algumas discrepâncias entre a linguagem formal usando a Gramática Normativa com mais rigor e a linguagem informal que a usa de uma forma intuitiva e natural. Esse artigo tem como finalidade demonstrar que a Gramática Normativa é importante e que o erro de Português existe, pois a linguagem está em desenvolvimento. Se ela assim está, não se deve afirmar que a aprendizagem da Gramática é obsoleta ou desnecessária. Portanto, o que se pode notar é que a Gramática Normativa sempre estará inserida no cotidiano das pessoas, pois ninguém fala desassociado totalmente das construções sintáticas e morfológicas da língua por ser necessário entender a sua organização. 

Palavras-chave: Gramática. Linguagem. preconceito linguístico

1 INTRODUÇÃO

A tarefa de um estudante ou pesquisador é analisar se de fato as teorias ou as várias vertentes teóricas são, de fato, coerentes, procurando falseá-las dentro do escopo argumentativo que elas deixam expostas como contradições, incoerências e vácuo de argumentos.

A expressão “erro” no estudo da gramática tem sido um tabu e alvo de muita polêmica. Por causa disso, muitos professores de Língua Portuguesa têm evitado de, pelos menos, falar a expressão erro e a trocam por “linguagem incoerente”, “não contextualizada”, “não apropriada”. Esse preconceito curioso tem vindo exatamente por influência de alguns linguistas por entenderem que a língua, por ser dinâmica e compreensível aos seus falantes, é suficiente, e o ensino da gramática normativa engessa e prejudica o seu entendimento formando o chamado “preconceito linguístico”.

O objetivo desse artigo é exatamente demonstrar que, apesar de reconhecer que a língua é dinâmica e sujeita a várias modificações durante o tempo, existem, sim, erros de Português. Por isso, precisa-se de um estudo sistemático da Gramática Normativa para que se possa ter uma compreensão completa da língua, já que esta não somente inclui a fala, mas a escrita e as várias vertentes que a língua em todos os tempos passa.

Por isso, a relevância desse artigo está em sanar a dúvida de vários estudantes de Língua Portuguesa se a Gramática Normativa é relevante, e trazer um equilíbrio à ideia sociolinguística do estudo da Gramática Normativa, pois na ânsia de defender a liberdade da fala e da gramática interna, vai-se para outro extremo do preconceito fazendo um discurso questionável.

Pretende-se, neste artigo, analisar alguns outros temas de linguistas, gramáticos e o livro considerado best-seller de Marcos Bagno, “Preconceito Lingüístico”, fazendo algumas considerações, e buscando analisar, de uma forma científica e lógica, que a Gramática Normativa é ainda importante.

2 EXISTE ERRO EM LÍNGUA PORTUGUESA?

Há um grande preconceito com a palavra “erro” quando se trata de Língua Portuguesa. Os professores dessa área vivem um dilema e até escolhem expressar-se com as palavras “linguagem incoerente”, “não contextualizada”, “não apropriada”. Esse dilema começa na universidade nos cursos de Letras quando os alunos começam a estudar Linguística e leem livros que ensinam que a Gramática Normativa é apenas um artifício de uma classe dominante e opressora. Se a base para percepção do erro é a Gramática Normativa, logo se perceberá que a expressão “erro” será questionada. É isso que Marcos Bagno quer demonstrar quando questiona o que ele chamou de “Gramática Escolar”. Ele afirma: “A gramática escolar, no entanto, desconhece essa transformação porque a língua está passando e insiste em considerar “erradas” construções como ‘Eu conheço ele’, ‘Você viu ela chegar’ etc” (2007, p. 25).

Marcos Bagno, ao falar sobre alguns mitos que trazem o que ele chama de “preconceito lingüístico”, admite que a palavra “errado” é mal empregada devido à grande incidência das expressões “Eu conheço ele” e “Você viu ela chegar”.

Marcos Bagno, ainda, faz um difícil trabalho de convencer que erro não existe porque a Língua se difere da ortografia oficial. Ele afirma em seu mesmo livro no tema “O que é erro?”:

Como vimos na primeira parte do livro, o Mito 6 expressa a prática milenar de confundir língua em geral com escrita e, mais reduzidamente ainda, com ortografia oficial. A tal ponto que uma elevada porcentagem do que se rotula de “erro de português” é, na verdade, mero desvio da ortografia oficial. (2007, p. 122).


Para Marcos Bagno, a ortografia não é Língua Portuguesa e o seu argumento se baseia que ela vem apenas por um decreto e gesto político. Ele afirma ainda: “A ortografia oficial é fruto de um gesto político, é determinada por decreto, é resultado de negociações e pressões de toda ordem (geopolíticas, econômicas, ideológicas)” (2007, p.123). Para ele, o simples fato de algo ser resultado de um gesto político e determinado por decreto desqualifica-o fazer parte da Língua Portuguesa propriamente dita.

No entanto, não é difícil perceber incoerência e falácias nesses argumentos. Primeiro, porque o autor faz uso, no seu livro, de uma ortografia impecável. Se ele fez uso da ortografia no seu mais alto rigor, ele admite a sua importância de comunicar devidamente a um determinado público. Não obstante, precisa-se entender que a ortografia é uma representação de signos que são completamente convencionais. Por isso que existem letras gregas, orientais, hebraicas, árabes. Fica claro que todas essas letras passam a fazer parte das respectivas línguas. Por exemplo: eu nunca conheci pessoalmente esse autor e nunca o ouvi pessoalmente, mas o que sei do que ele pensa é através dos signos representados que são as letras e palavras na Língua Portuguesa. O simples fato de ser um decreto oficializado não tira a sua importância na Língua Portuguesa e nem a deixa de demonstrar que faz parte da língua, tornando-se uma falácia não inteligente porque todas palavras e letras são naturalmente convencionadas pelo povo que assume determinada língua.

Outro exemplo importante é que até o sétimo século a língua hebraica não era representada por vogais por ser uma língua composta somente por consoantes. Os chamados “massoretas” passaram a dar representação das vogais às letras hebraicas para que os seus sons fossem preservados. Hoje, quando se estuda a língua hebraica, faz-se necessário usar esses símbolos para que se saiba a sua real pronúncia e significado, já que as pronúncias e consoantes têm sons tênues e parecidos. Se alguém afirmar que esses símbolos massoréticos não fazem parte da gramática ou da língua hebraica para qualquer judeu será um absurdo. Outro exemplo são os manuscritos em grego e em latim. O que temos da língua é apenas a representação das palavras e ortografia da época. Hoje, o grego moderno tem palavras com ortografia diferente do grego koinê e clássico. Todas elas foram convencionadas, mas não implicou que deixaram de fazer parte da língua.

Na Língua Portuguesa, a ortografia inclui significados e referenciais que, se trocados, podem dificultar a significação. Por isso, a ortografia se torna mais exigente. Imaginemos que tenha em uma placa luminosa em um ambiente com a seguinte frase: “Concerto a noite”. O leitor não vai saber se aquele ambiente é uma oficina, pois há “conserto à noite”, ou se tem toda noite um “concerto de música”, ou se é uma poesia que alguém quis dizer que “consertava a noite”. A simples dúvida leva a prejudicar a comunicação que os linguistas tanto valorizam demonstrando que a ortografia faz parte da Língua Portuguesa.

Vigotsky tinha uma consciência que a Gramática estava intrinsecamente relacionada com as palavras na língua. A Dra. Elisabeth Ramos da Silva analisa isso no seu ensaio sobre o ensino de Gramática à luz das concepções de Vigotsky:

Cabe lembrar que, ainda segundo Vigotsky, a escrita exige uma ação analítica intencional, o que não ocorre na fala. De fato, para escrever um texto é preciso consciência fonológica, capacidade de ordenar sequências de palavras e orações, obediência deliberada aos princípios gramaticais da língua, bem como a certas regras, quando se deseja utilizar a língua padrão. (SILVA, 2004, p. 72)

Segundo Vigotsky, seria difícil desvincular a gramática das palavras, pois as funções como a sintaxe depende delas e essas precisam ser representadas de uma forma que seja oficializada pelos falantes ou pela etnia. Porém, pode-se entender por que o lingüista Marcos Bagno teve o cuidado de explicar sobre a ortografia, pois ela é uma evidência indubitável que existe erro de português como foi demonstrado na frase ambígua “concerto a noite”.

Um dos conceitos de “erro” no moderno dicionário Houaiss é: “desvio do caminho considerado correto, bom, apropriado; desregramento” (HOUAISS, 2009). Segundo Houaiss, o erro inclui em fazer ou agir de uma forma não apropriada, em total desregramento. Negar isso é anular os padrões da língua que se estabelecem nos dicionários. Fica óbvio que alguém que não usa uma linguagem apropriada com a gramática em um lugar que a maioria das pessoas tem como base as regras de regência verbal, uso correto dos pronomes pessoais e concordância nominal pratica uma inadequação na língua. Se for defendido que essas pessoas não têm compromisso com os que levam o uso da gramática em conta, comete o mais terrível do preconceito linguístico, pois o preconceito não tem mão única, mas mão dupla que abrange a todos. Tanto aqueles que não levam em conta a Gramática como aqueles que a levam.

Dr. Helênio de Oliveira, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro em seu artigo “Como e quando interferir no comportamento lingüístico do aluno” escreve:

O outro extremo (atitude laissez-faire) baseia-se no mito romântico da espontaneidade da linguagem, segundo o qual não se deveria interferir no comportamento lingüístico do estudante, nem lhe ensinando técnicas narrativas, argumentativas, poéticas etc., corrigindo sua linguagem. Boissinot (1994:11) critica a “ideologia neo-romântica da espontaneidade do sujeito falante, da liberação da palavra, incompatível com abordagem técnica e metódica da arte do discurso” (2000, p. 1).

Segundo o professor, quando não se interfere na linguagem do aluno ensinando-lhe uma linguagem correta e adequada à situação, entra-se em outro extremo e passa a viver um mito romântico, entrando-se também em uma contradição palpável do tipo que critica o rigor da linguagem sugerindo a quebrar mitos e barreiras, mas, ao mesmo tempo, escreve-se com uma perfeição gramatical impecável como o autor do livro “Preconceito Lingüístico”. Ou seja, “faça o que eu digo, mas não faça da forma que eu faço”. O professor ainda escreve em seu artigo sobre “Tipologia dos erros de comunicação”:

Em qualquer país, o aprendizado da variedade formal culta do idioma se dá gradualmente na fase de aquisição dessa variedade: o aluno comete erros. Num país como o Brasil existe ainda a agravante de que a distância entre formal e informal é,  como vimos, bastante acentuada. Se o erro de linguagem existe, é pedagogicamente desejável que seja corrigido, isto é, que se tome um conjunto de providências didáticas destinadas a levar o aluno a adquirir as habilidades cuja não aquisição o leva a errar, o que não se deve confundir com uma atitude prescritiva grosseira. Tal “correção” pode consistir inclusive em atividades que desenvolvam prazerosamente o hábito da leitura, pondo o aluno em contato com a linguagem padrão. (2000, p. 4)


Segundo ainda o Dr. Helênio, a ideia de erradicar qualquer erro vem da Semana de Arte Moderna, onde seus autores procuraram enfatizar uma linguagem solta de regras e trazer os vícios de linguagem popular. Ele demonstra que os erros devem ser corrigidos na sala de aula para que o aluno possa conhecer as várias habilidades da linguagem. Ele se baseia que em qualquer país o “erro” é uma realidade na língua e que a escola treina os alunos a estarem preparados para todas as linguagens.
O “erro” de Português é algo tão óbvio e claro que o próprio Marcos Bagno admite em seu livro que ele existe, embora que afirme, logo depois, que é impossível alguém cometer tais erros. Ele afirma:

Assim, podemos até dizer que existem “erros de português”, só
que nenhum falante nativo da língua os comete! Por exemplo, seriam “errados” os enunciados abaixo (o asterisco indica construção agramatical):
 (1) *Aquela garoto me xingou
 (2) *Eu nos vimos ontem na escola
 (3) *Júlia chegou semana que vem
 (4) *Não duvido que ele não queira não vir aqui
 (5) *Que o livro que a moça que Luís que trabalha comigo me apresentou escreveu é bom não nego. (2007, p.125)


Não precisa ser muito inteligente para perceber a total contradição de Marcos Bagno. A primeira contradição é que ele afirma que existe, de alguma forma, erros de Português. No entanto, Marcos Bagno usa a falácia da “autoridade”, isto é, o argumento dele que esses erros não existem está baseado apenas na sua palavra e nada mais. No entanto, pergunta-se: ele se baseou em pesquisa para afirmar isso? Ele teve a chance de conversar com crianças (que mais erram dessa maneira) de todo o Brasil e dos demais países que falam a nossa língua? E se houver um nativo da língua que cometa um desses erros, Marcos Bagno admitiria a importância da Gramática? Na verdade, esse argumento destruiu tudo o que ele tinha construído que erro de Português é apenas uma ideia preconceituosa.

A frase (1) que fala “aquela garoto me xingou” é quase imperceptível se alguém cometer esse erro, como existem várias crianças que costumam fazer quando estão aprendendo a falar. Mesmo assim, existem momentos da informalidade que cometemos erros por falar mais rápido ocorrendo esses tipos de erros. No entanto, mesmo levando em conta o que Marcos Bagno escreveu que não ocorre, coisa que não pode ser provada, jamais a mensagem dessa frase perderia o seu teor de comunicação, pois a pessoa que ouvir vai saber que foi um garoto que o xingou, embora que comece com um pronome demonstrativo feminino. Ele afirma: “Ao recebermos um texto escrito por alguém (ou ao ouvir alguém falar), vamos procurar ver, antes de tudo, o que ele/ela está querendo comunicar” (2009, p.138). Afinal de contas, quem não saberia o que se está dizendo com essa expressão? Portanto, o que Marcos Bagno afirma que é erro está dentro dos critérios que ele mesmo defende para não ser, pois a pessoa entenderia muito bem ao falar ou ao escrever essa frase.

A frase (5) é um erro muito freqüente entre alunos de primeiro ano do ensino Médio. Eu mesmo já presenciei vários textos que têm erros semelhantes de coesão. Não obstante a tudo isso, mais uma vez se vê a carência do bom uso da Gramática na escrita, pois os erros da frase (5) implicam em coesão textual com um bom uso de conjunções, conectivos e pontuação que incluem alto conhecimento da Gramática.

Embora que Marcos Bagno não considere que esses erros específicos sejam possíveis, ele tem que admitir que a essência deles é uma realidade – uma total incompatibilidade gramatical de regência e inadequação da linguagem, mesmo que haja compreensão. Para se notar a incoerência e a falácia do argumento de Marcos Bagno, imagine que eu diga que não exista erro de Matemática, mas poderia até ter, como o exemplo de 2 + 2 = 5. Logo depois, eu afirmasse, sem nenhuma falseabilidade, que esse erro ninguém cometeria. No entanto, a essência do erro existe da mesma forma que alguém resolvesse de uma forma errada a conta 2+2x4=16, pois o erro tem exatamente a mesma essência de 2+2=5, ou seja, é o que Houaiss conceituou, que os dois têm o desregramento ou um desvio que se convencionou correto, pois os números são completamente convencionais. Por isso que os números, tanto em latim como em grego, eram representados por letras.

Portanto, erro de Português existe, confirmado pelo próprio Marcos Bagno, pois a essência do erro é a mesma, mesmo que não tenha a mesma estrutura frasal no período.

3 REFERENCIAL LINGUÍSTICO E A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DA GRAMÁTICA NORMATIVA

A Gramática Normativa tem sido minimizada por muitos lingüistas e, consequentemente, o seu uso nas escolas e universidades. Alguns professores de universidade passam uma ideia que a Gramática Normativa é facultativa e que ela é somente para uso acadêmico específico, não sendo necessário aprofundar-se. Por isso, não é raro perceber, em muitos estudantes do curso de Letras, erros primários de Português como “seje”, separando sujeito e predicado com vírgulas em textos, errando em regência verbal, sem falar nos graves erros de coesão textual.

Precisa-se admitir que alguns aspectos da Gramática de uma língua correm o risco de se tornar obsoletos, mas jamais toda ela. Por exemplo: Quando uma pessoa fala: “Nos faça um favor: ouça o que temos para falar e nós vamos entrar num acordo”. O que se pode notar é que o uso da próclise aconteceu no começo de uma expressão quebrando a regra da Gramática Normativa. No entanto, foram usadas as regras em todo o restante da oração. Isso significa que a Gramática não é totalmente descartável nem se pode afirmar que ela é dispensável, pois isso acontece em toda língua. Além do mais que a linguagem formal ou culta ainda é usada na escrita e em ocasiões formais.

Percebe-se, no entanto, a importância da Gramática quando se nota que sempre falamos com base em referencial lingüístico da língua que é a sua Gramática, seja consciente ou não. Quando não se fala dentro desse referencial que se adota, constitui-se uma inadequação da linguagem que os dicionários chamam de erro; seja verbal ou escrito. O “erro”, pois, precisa de um referencial como base, pois ele é sua distorção ou a sua inadequação. Esse referencial está na pessoa que o adota, ou seja, o erro sempre dependerá do referencial da pessoa. Por exemplo: se alguém estiver em um ambiente que todas as pessoas somente falam em uma linguagem informal, eles não têm como referencial as normas, signos e sintaxe conscientes, embora que as use. No entanto, se houver uma pessoa que tem como referencial linguístico as regras da Gramática normativa em alguns aspectos, mesmo que em outros não, aquela pessoa vai analisar a linguagem dos demais com o referencial de normas, signos e sintaxe de uma forma consciente, podendo haver um bloqueio na empatia de comunicação.

Portanto, aqueles que não estiverem adequados à Gramática errarão na concepção daquela pessoa, como para os demais não há erros. Por isso, o erro sempre dependerá do referencial que se adota. A professora Elisabeth Ramos em seu artigo com o nome de “O ensino da gramática à luz das concepções de Vygotsky” afirma: “A gramática teórica permite ao falante entender sua língua como um sistema organizado, lógico e coerente, tornando-lhe possível a reflexão sobre as regras e os princípios da língua”. Para a professora, a Gramática permite ao falante ter um referencial, pois a língua é um sistema organizado, lógico e coerente. Ela, ainda, afirma o que Vygotsky pensava sobre o ensino da Gramática:

Já se chegou mesmo a dizer que o ensino de gramática na escola poderia ser abolido. Podemos replicar que a nossa análise mostrou claramente que o estudo de gramática é de grande importância para o desenvolvimento mental da criança. [...] Ela pode não adquirir novas formas gramaticais ou sintáticas na escola, mas, graças ao aprendizado da gramática e da escrita, a criança realmente torna-se consciente do que está fazendo e aprende a usar as habilidades conscientemente. [...] A gramática e a escrita ajudam a criança a passar para um nível mais elevado do desenvolvimento da fala (SILVA, 2004, p. 72).

Para Vygotsky, o estudo da Gramática é essencial porque é importante para o desenvolvimento mental da criança. A Gramática a torna consciente na escola ensinando-a a usar as habilidades conscientemente. Isto quer dizer que, segundo Vygotsky, o que a criança sabe, através da aprendizagem natural e dos hábitos, ela desenvolve através do estudo da gramática na escola conscientemente e, com isso, passa a criança a desenvolver-se para um nível mais elevado da fala. Para isso, é necessário ter um referencial gramatical, mesmo de uma forma inconsciente, pois quando se usa um pronome na primeira pessoa do plural para falar de muitas pessoas incluindo-se, mesmo errando a conjugação do verbo, não se deixa de ter um referencial gramatical. No entanto, quando a criança aprende na escola algumas normas da Gramática, ela passa a tê-las como referencial em sua linguagem.

Varias vezes, como professor, percebi alunos criticando seus colegas por alguns descuidos gramaticais na sala de aula. Isso demonstra que alguns têm a Gramática, mesmo sem dominá-la, como referencial nas suas falas no ambiente escolar. Foi exatamente isso que Chomsky demonstrou em seu livro “Aspectos da Teoria da Sintaxe”. Ele fala sobre a importância da Gramática como também sobre os referenciais intrínsecos que ela nos forma. Ele afirmou:

Se uma frase como “flying planes can be dangerous” for apresentada num contexto construído apropriadamente, o ouvinte interpretá-la-á imediatamente de um modo único, e não conseguirá detectar a ambiguidade. Na realidade, ele pode rejeitar a segunda interpretação, quando esta lhe é indicada, como sendo forçada ou pouco natural (independentemente da interpretação que ele escolheu originalmente sob a pressão do contexto). No entanto, o seu conhecimento intuitivo da língua é tal que ambas as interpretações (correspondendo a “flying planes are dangerous” e “flying planes is dangerous” são atribuídas à frase pela gramática que ele, de uma determinada forma, interiorizou. No caso agora mencionado, a ambiguidade pode ser bastante transparente. (CHOMSKY, 1975, P. 103)

Para Chomsky, a Gramática é interiorizada e ela passa a ser exatamente como um referencial linguístico, pois o significado da frase depende de como a concebemos. Chomsky dá outro exemplo para demonstrar a importância da Gramática, tendo-a como referencial lingüístico. Segundo ele, a frase “João, Luís e Maria saíram” precisa-se ter um referencial da gramática para tirar a ambigüidade. Se usar o verbo no singular “saiu”, dará a entender que somente Maria saiu, sendo apenas citados o João e Maria. No entanto, o verbo no plural demonstra que as três pessoas saíram. Chomsky, com esse exemplo, demonstra que a Gramática é importante como também ela precisa ser conscientemente usada dependendo do contexto que a oração for empregada. Por exemplo, se essa frase vier como resposta de uma pergunta: “quem saiu?”, a resposta será compreendida mesmo falando: “João, Luís e Maria saiu”. No entanto, se essa frase vier como uma afirmação inicial, pode haver um problema de comunicação na fala e muito mais se for na escrita.

4 A TRANSIÇÃO DA LINGUAGEM E DA GRAMÁTICA

Um aspecto que se deve levar em conta é que, em toda linguagem, existe transição porque ela é dinâmica. Essa transição se manifesta nas variações linguísticas até chegarem em dialetos ou em outra língua.

Em todas as épocas, a linguagem teve esse processo de transição. As línguas gregas e latinas são exemplos disso. Havia uma variação grega que chamaram de koinê como do latim que chamaram de vulgar. Todas essas variações vieram por que havia a linguagem formal e a informal. Na Língua Portuguesa do Brasil, apesar de terem muitas peculiaridades, ainda se preserva as formalidades da linguagem bem como o uso adequado de pronomes e regência de verbos por que a língua está em plena transição. Quando se exclui a importância de falar dentro de critérios da gramática normativa, está-se negando ou ignorando a transição que acontece em toda língua. Por exemplo, pessoas que não têm escolaridade costumam empregar os pronomes oblíquos errados em expressões como “nós se decepcionamos”, em vez de “nós nos decepcionamos”. No entanto, quem os emprega, mesmo de uma forma errada, não deixou de usar corretamente o verbo conjugado conforme o pronome-sujeito, combinando o número da primeira pessoa do plural. Isso demonstra que não foi abandonado totalmente a estrutura gramatical normativa, pois a língua está em transição e isso pode ter acontecido pela falta de conhecimento de uso dos pronomes devidos.
John Lyons, em seu livro “As Idéias de Chomsky”, afirma:

Chomsky e seus colaboradores chegaram à conclusão de que o significado das sentenças poderia e deveria ser submetido à mesma espécie de análise precisa e formal a que são submetidas suas estruturas sintáticas e que a semântica deveria ver-se incluída como parte integrante da análise gramatical das línguas. (1970, p.79)

Para Chomsky, a semântica está incluída na análise gramatical da língua, pois, mesmo que a pessoa não domine algumas regras da gramática normativa, ela vai procurar ajustar-se com o conhecimento intrínseco gramatical que ela tem da prática e da fala.

Portanto, ao excluir a importância da gramática normativa, afirma-se, com isso, que não existe transição, mas uma língua formada, e isso não condiz com a realidade, já que em alguns casos as pessoas levam em conta a linguagem formal e culta. Seja para escrever, seja para falar. Chega-se, pois, à conclusão que a língua é composta sempre de uma linguagem em transição, juntando a língua culta com a língua informal aprendida no dia a dia.

Roberto Gomes Camacho, em seu ensaio sobre Norma Culta e Variedades Lingüísticas, escreve sobre a necessidade de ter consciência que a língua não está associada com a homogeneidade. Ele afirma que, ao contrário do que muitos pensam, ela tem necessidade de variação, pois é uma característica inerente. Assim ele escreveu:

Por que é possível fazer essas adivinhações com grau considerável de acerto? A resposta mais natural é porque, por um lado, toda língua varia, isto é, não existe comunidade linguística alguma em que todos falem do mesmo modo e porque, por outro lado, a variação é o reflexo de diferenças sociais, como origem geográfica e classe social, e de circunstâncias da comunicação. Com efeito, um dos princípios mais evidentes desenvolvidos pela linguística é que a organização estrutural de uma língua (os sons, a gramática, o léxico) não está rigorosamente associada com homogeneidade; pelo contrário, a variação é uma característica inerente das línguas naturais. (CAMACHO, 2012, p. 35)

A linguagem necessita de uma abordagem heterogênea porque ela é viva e está sempre em transição. Se ela é assim, por que tratar uma em detrimento da outra ou por que não levar em conta a Gramática Normativa que é base para um tipo de linguagem? Precisa-se sempre lembrar que nunca se está totalmente desassociado da Gramática, pois sempre se buscará regras que sejam compatíveis com a linguagem. Nenhuma pessoa, mesmo a mais analfabeta, jamais diria: “Mim quer comer!”ou “Mim quero comer”. Ele, com certeza, irá usar o pronome pessoal correto ou, se usá-lo de uma forma Elíptica, colocará o verbo no tempo e conjugação corretos. Isso não se dá somente pela prática, mas também pela necessidade gramatical aprendida pela fala.

Portanto, pela necessidade da transição da linguagem que sempre relacionará o uso informal com os conhecimentos adquiridos da Gramática Normativa é que o estudo da Gramática Normativa se torna importante.

5 A IMPORTÂNCIA DE ESTUDAR A GRAMÁTICA NORMATIVA PARA SE ENTENDER ASPECTOS DA LINGUAGEM

O estudo da Gramática é essencial para que se entenda o funcionamento da língua. Todas as línguas têm semelhanças sintáticas, embora que elas tenham diferenças dos signos ou significando. Por exemplo, toda língua tem um sujeito, um verbo, objetos e adjuntos adverbiais, nominais e prepositivos. Quando se estuda a Gramática, tem-se uma visão mais ampla da estrutura da linguagem de qualquer outra língua. O sujeito sempre vai ter a função do agente do verbo, ou aquele que vai sofrer a ação, ou até fazer as duas. Uma língua pode ter gramáticas bem diferentes como as línguas orientais, hebraicas, árabe ou grega, mas todas elas apresentarão estruturas semelhantes de sujeito-verbo-objeto.

Quando se estuda a Gramática da Língua Portuguesa, está-se estudando a estrutura da língua e levando o aluno a entendê-la de uma forma mais lógica e profunda. Percebe-se que os alunos que mais têm dificuldade de aprender outra língua ou entender a sua estrutura são aqueles que não conhecem aspectos da gramática do vernáculo, pois existem coisas comuns a todas as línguas.

Vygostsky entendia que a Gramática era muito útil para o desenvolvimento mental da criança e que ela a leva entender a sua língua como um sistema organizado, lógico e coerente, tornando-lhe possível a reflexão sobre as regras e os princípios da sua própria língua. Ele afirma:

Já se chegou mesmo a dizer que o ensino de gramática na escola poderia ser abolido. Podemos replicar que a nossa análise mostrou claramente que o estudo de gramática é de grande importância para o desenvolvimento mental da criança. [...] Ela pode não adquirir novas formas gramaticais ou sintáticas na escola, mas, graças ao aprendizado da gramática e da escrita, realmente torna-se consciente do que está fazendo e aprende a usar as habilidades conscientemente. [...] A gramática e a escrita ajudam a criança a passar para um nível mais elevado do desenvolvimento da fala. (SILVA, 2004, P. 72)

Segundo Vygotsky, a Gramática levará a criança ou o estudante a racionalizar as regras linguísticas da fala desenvolvendo-as quando a estuda. Para ele, a Gramática é de grande importância, pois ela amplia o raciocínio cognitivo da estrutura linguística. Por exemplo, quando uma criança chama sua mãe, ela coloca o sujeito antes do verbo. No entanto, ela não racionaliza que o sujeito age em torno do verbo. Somente com o estudo da Gramática, a criança entenderá que a estrutura frasal está formada de uma forma lógica segundo a sua língua e seus signos. Ela verá ao estudar, portanto, que todas as línguas terão um emissor formado de um sujeito em torno do verbo. Por isso, Vygotsky entende a Gramática como um meio de habilidade consciente para o desenvolvimento da fala. Segundo Silva (2004, p.72), Vygotsky ainda tem a ideia que a escrita necessita de uma ação analítica intencional, o que não ocorre na fala. Isso significa que ao escrever temos que agir com mais análise que a fala. Para isso, a Gramática será indispensável. Na fala, a ação é intuitiva e automática; já na escrita, ela é analítica e envolve estrutura mais consciente da Gramática.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O erro de Português é uma realidade, pois existem várias linguagens e, dentre elas, a língua culta ou formal que ainda é usada em todos os tempos. Os professores precisam perder o medo de corrigir seus alunos na sala de aula explicando-lhes que precisam conhecer não somente a estrutura da língua, mas como também as várias linguagens e, dentre elas, a linguagem culta e formal que é muito usada nos meios acadêmicos e trabalhistas, sem falar que a gramática não é abandonada totalmente mesmo na linguagem informal.

O aluno precisa entender que as demais pessoas se chegarão a ele com um referencial lingüístico que julgará a sua linguagem mediante isso e que, caso ele não esteja dentro desse referencial, será criticado e corrigido, dependendo da ocasião. Não é suprimindo o erro que ameniza a falta de aceitação de pessoas que não falam conforme o nosso referencial, mas é levando-os a entender que existem pessoas que devem ser aceitas, embora não falem dentro de nossos referenciais ou que não tenham tido oportunidade de estudar melhor a língua culta. Da mesma forma, esses devem entender que aqueles que estudaram são mais exigentes e que eles irão sempre esperar que se fale dentro dos padrões mínimos gramaticais em um discurso. Esses precisam perceber que a linguagem está em profunda transição e que jamais houve uma língua que eliminasse de vez a língua culta ou a importância da sua gramática.

A estrutura da linguagem é mais organizada, sistematizada e melhor entendida quando se estuda a Gramática Normativa como Vygotsky percebeu muito bem. Negar isso a estudantes da língua é negar a capacidade de percepção além de sua própria linguagem; é deixar de levar a transcender a sua própria linguagem entendendo a sua universalidade.

Portanto, os professores como os alunos devem perceber a importância da Gramática, bem como também da linguagem culta para a sociedade. Precisa-se ter todo o cuidado de que, na busca de evitar o chamado “preconceito lingüístico”, não se faça outro mais cruel – o preconceito de estudar e entender a estrutura de sua própria língua.

P.S: Caso queira o artigo em PDF, vá para esse endereço aqui.

REFERÊNCIAS

BAGNO, Marcos. Preconceito Linguístico. São Paulo: Loyola, 2007.

CHOMSKY, Noam. Aspectos da Teoria da Sintaxe. Coimbra: The MIT press, 1975.

CAMACHO, Roberto Gomes. Norma Culta e variedades lingüísticas. São José do Rio Preto: UNESP, 2012.

HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss. São Paulo: Objetiva LTDA, 2009.

LYONS, John. As ideias de Chomsky. São Paulo: Cultrix, 1970.

OLIVEIRA, Helênio Fonseca de. Como e quando interferir no comportamento linguístico do aluno. UFRJ: Rio de Janeiro, 2000.

SILVA, Elisabeth Ramos da Silva. O Ensino de gramática à luz das concepções de Vygotsky. Janus Lorena, ano 1, n. 1, 2o semestre, 200

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