sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O EVANGELHO DA MISSÃO INTEGRAL VERSUS O EVANGELHO DA PROSPERIDADE





A grande incógnita em nossos dias é saber qual é exatamente a missão da Igreja. Isso se deve a dois fatores. Primeiro, devido à total crise de identidade que o evangelicalismo sofre em nossos dias em não saber onde está a linha ou o critério para se dizer que uma igreja é genuinamente cristã ou evangélica. Segundo, devido ao recrudescimento da chamada Teologia da Prosperidade que tem desviado a Igreja do verdadeiro significado da sua Missão.
O próprio nome “Missão Integral” demonstra a tentativa da igreja enfatizar um aspecto da Missão que, para esses, fora preterida. Ou seja, a Igreja sentiu a necessidade de que o adjetivo “Integral” fosse acrescentado à palavra “Missão” para que se entendesse que a ideia de “Missão” estava ainda incompleta. No entanto, as palavras “Missão Integral” não passam de uma tautologia, pois não existe “Missão” que não seja “Integral”. Ou se faz a “Missão”, que é Integral, ou não a faz. Portanto, a palavra Missão deveria ter já em sua semântica o significado de integralidade sem nenhum acréscimo de adjetivo.
No século XVI, quando a Reforma Protestante surgiu, os reformadores tinham a missão da igreja de uma forma clara. A Confissão de Fé de Westminster foi o documento que se pode conhecer sobre o que os reformadores pensavam na época sobre Missões. Assim está escrito:

Em seu amor infinito e perfeito – e tendo provido no pacto da graça, pela mediação e sacrifício do Senhor Jesus Cristo, um caminho de vida e salvação suficiente e adaptado a toda raça humana decaída como está – Deus determinou que a todos os homens esta salvação de graça seja anunciada no Evangelho. (Ref. 1Tm 4.10; Mc 16.15) (Confissão de Fé de Westminster, capítulo XXXV, que trata do Amor de Deus e das Missões)

A Confissão demonstra que os reformadores tinham uma mente formada do que seria a Missão da Igreja, pois foi prescrita em uma confissão. Para eles, a missão se baseava em levar “um caminho de vida e salvação... a toda raça humana”. Não que eles estivessem esquecendo os problemas sociais, mas que a salvação de Deus quando atingisse o homem decaído, amenizaria e traria às consciências a justiça social e mudanças em todas as áreas políticas.
João Calvino tinha uma visão semelhante. Ele afirma em suas Institutas:

Nosso Senhor Jesus Cristo foi feito um como nós, e sofreu a morte para que pudesse tornar-se um advogado e mediador entre Deus e nós, e abrir um caminho pelo qual possamos chegar a Deus. Aqueles que não se empenham em trazer seu próximo e descrente ao caminho da salvação, mostram abertamente que não têm em conta a honra de Deus, e que tentam diminuir o imenso poder de seu império e estabelecem limites para que ele não possa governar todo o mundo, de igual modo obscurecem a virtude e morte do nosso Senhor Jesus Cristo e diminuem a dignidade dada a ele pelo Pai.[1]


Nota-se que Calvino tinha a visão de que, pelo Evangelho e conversão, Deus governaria em todas as áreas, ou seja, “todo o mundo”, como ele escreveu. Para Calvino e os reformadores, a Missão começava com a salvação de Cristo que incluía uma postura espiritual de arrependimento diante de Deus. A partir daí, as áreas seriam influenciadas pelo Evangelho, incluindo os pobres, necessitados, justiça social, educação, artes, etc. A demonstração prática disso é que as cidades em que mais desenvolveu o protestantismo no mundo se tornaram as mais desenvolvidas. Entre elas estão: Suíça, Escócia, Inglaterra, África do Sul e USA. Além de ter, como fundadores, as melhores universidades do mundo de onde mais teve prêmio Nobel. Dentre elas, estão Havard, Yale, Princeton, Universidade Livre de Amsterdam, Oxford e Cambridge. Todas elas foram fundadas ou sofreram forte influência de puritanos. Os reformadores e puritanos tinham uma visão holística, entendendo que a salvação alcança o homem no todo na sociedade. Eles não falavam e enfatizavam a ação social e política porque entendiam que já estava inserida na Missão.
Isso demonstra que a igreja e os reformados da época tinham a ideia de Missões como um todo monolítico começando com a salvação em Cristo Jesus atingindo toda a sociedade como Jesus ensinou sobre o sal da terra e luz do mundo (Mt 5.13-16).

 O PERIGO DA POLARIZAÇÃO NA DICOTOMIA ENTRE O PROFANO E O SAGRADO

Toda polarização traz perigos e conseqüências. Mesmo que seja em nome de uma causa nobre e verdadeira, a polarização de um seguimento ou de uma ideologia pode levar a conseqüências gravíssimas.
Houve várias tendências que levaram à polarização da Missão da igreja. Uma delas é a dicotomia que a igreja fez entre o sagrado e o profano (mundano). O conceito de sagrado para a igreja era somente o que tivesse conotação de protestantismo, mesmo que não tivesse aparente base bíblica. Essas igrejas conceituaram “mundanismo” como aquelas tendências que estivessem fora do escopo protestante e, por isso, eram, por si mesmo, pecado e erro. Jogar futebol; participar de teatro, de programas de TV; músicas populares; ir a cinemas, a exposições, ou a outros lugares por muito tempo foram pecado e mundanismo. Essa influência veio de grupos protestantes incautos e que não tinham base, nem fundamentos teológicos ou roformados. Com isso, a igreja achava que cumprir a Missão seria apenas pregar o Evangelho, se possível, com roupa apropriada que os Norte-americanos trouxeram como palitós, gravatas ou outros acessórios convencionados por líderes de igrejas, não importando como a sociedade local estaria. A política, as artes, o esporte ficaram por conta da sociedade “profana e mundana” e aqueles que fossem crentes não deveriam ousar entrar nesses âmbitos. A Missão tinha apenas uma conotação polarizada de pregação e aceitação do evangelho sem levar em conta a influência na sociedade.

Se a política, as artes e as universidades que influenciam toda uma sociedade estavam sem a luz e o sal, como esperar que essa sociedade pudesse influenciar e tratar dos mais pobres, viciados ou daqueles que estão à margem da sociedade? Por isso, a Igreja teve a tendência de polarizar achando que a Missão incluía apenas a pregação sem nenhum compromisso em influenciar a sociedade que lhes cercava.
Hoje, essa polarização tem outra nomenclatura chamada de “Gospel”. Tudo que for “Gospel” é licito, mesmo que seja uma boate, fotos sensuais, quaisquer que sejam a prática, sendo “Gospel” é espiritual. Com isso, os protestantes passam a fazer uma dicotomia como no passado, só que agora vem com uma outra nomenclatura. No passado, era “coisas do mundo”; hoje, “coisas que não são ‘Gospel’”. Por causa disso, deixam de influenciar na sociedade em várias áreas trazendo princípios de Deus ou entendendo que sociedade precisa de luz que são os princípios de Deus em todas as áreas em um país que se faz Missão. Portanto, a ideia de Missões se torna mais forte e desafiadora.

O PERIGO DE ELIMINAR A ESPIRITUALIDADE DA MISSÃO

Dos perigos que rondam a Missão, esse é o pior, pois torna-a completamente uma caricatura. O perigo é exatamente de eliminar a espiritualidade da Missão, tornando simplesmente uma causa social. Essa vertente começou com Teólogos liberais que não criam em milagres e baseavam-se, para interpretar o VT, na teoria das fontes. Isso implicava dizer que a doutrina da queda, da criação foram colocadas como mitos e descartáveis. Por causa disso, para alguns, Jesus Cristo veio apenas trazer um exemplo de como buscar os pobres e, por isso, essa era a salvação que os libertava. A Igreja Católica foi fortemente influenciada por essas idéias chamando essa teologia de Teologia da Libertação. Esse termo foi colocado pelo padre peruano Gustavo Gutiérres. No Brasil, seu principal representante foi o padre Leonardo Boff que escreveu vários livros demonstrando essa ideologia.
Quando se tira a espiritualidade da Missão, canalizando-a somente para a libertação simplesmente sociológica, elimina-se as bases dela, pois a causa do caos social e político é exatamente o afastamento do homem de Deus. Além disso, tira-se a possibilidade das bases éticas para qualquer ação, já que a salvação de Deus inclui a restauração não somente dos corpos, mas de toda a natureza.
Outro aspecto dessa visão é que o Evangelho se reduz apenas a pessoas e lugares pobres, pois ele seria totalmente desnecessário a lugares que quase não existe pobreza. Nesse caso, o Evangelho se tornaria apenas circunstancional e não universal e necessário. O problema do homem é o seu coração, pois é dele que procedem mortes, cobiça, corrupção e toda sorte de coisas ruins para a sociedade (Mc 7.20-23). A razão maior da Missão não é mudar a sociedade começando pela conseqüência, mas buscar, primeiramente, a raiz do problema, pois o que veio primeiro foi o pecado Adâmico. Depois, veio a maldição como conseqüência espiritual e social. Precisa-se pensar que se deve tratar da maldição por causa do pecado que é solucionada em Cristo, buscando concomitantemente ser uma influência na sociedade sofrida por essa conseqüência.
Portanto, essa polarização é terrivelmente prejudicial ao escopo bíblico da Missão.

A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE E MISSÃO

Um dos aspectos que mais influenciou para um outro extremo foi a chamada Teologia da Prosperidade. Segundo essa Teologia, Deus em Cristo nos salva do pecado, da miséria, da pobreza, das doenças e de qualquer problema que foge de nosso domínio. Essa teologia começou nos USA e influenciou o mundo com seus versos tirados do contexto e o seu forte apelo ao prazer egocêntrico dos seus ouvintes.
A Teologia da Prosperidade levou a Igreja a preocupar-se somente com o ter e não com o ser e o servir. Os pobres, mal sucedidos, moradores de favelas são frutos de maldição que têm que livra-se dela “aceitando a Jesus como Senhor e Salvador” e abrindo mão de seus bens em ofertas a igrejas dessa natureza.
Por causa disso, a Igreja perdeu a ideia de Missão, pois ela estava se preocupando apenas com os números de membros, e esses, ricos; preocupando-se se os membros ainda estavam usando bicicletas ou se tinham trocado para carros; ou até se estavam crescendo financeiramente em alguma área ou trocando de bens. A Missão se restringia apenas ao espiritual, sendo comprovado pela obtenção de bens, pois diziam que Jesus levou as dores e a pobreza também.
A conseqüência disso é a total insensibilidade para com os necessitados, os pobres, e o julgamento temerário daqueles que não têm ascensão social como alguns. Outra conseqüência disso é a total insensibilidade para com as exigências da Missão. Muitas vezes, a Missão cristã exige desprendimento de bens, fama, até da vida, pois existem lugares com difícil penetração do Evangelho. A Teologia da Prosperidade anula essa sensibilidade de renúncia, desprendimento e entrega pelo outro por amor a Cristo.
Na verdade, a Missão nessas igrejas é somente local, com apelos materialistas de prosperidade. Por causa disso, outras tendências vieram para enfatizar a ação social como resposta a essa Teologia indo para um outro extremo. No entanto, quando se enfatiza mais a ação social deixando de lado a raiz de toda problemática social, entra-se em outro extremo, pois a razão dos problemas sociais é por que o homem se afastou de Deus e, por isso, houve conseqüências graves em todas as dimensões sociais.
Portanto, a Missão deve começar na salvação a fim de que influencie todas as áreas, buscando mudar a situação sócio-cultural que está deitada nas mãos do diabo, pois “o mundo jaz no maligno” (1Jo 5.19).

A BASE BÍBLICA PARA QUE A VISÃO DA MISSÃO SEJA INTEGRAL

1. Deus fala na Lei de Moisés sobre o cuidado com os pobres

No VT, várias passagens demonstram que a salvação de Deus incluía todas as áreas sócias. Deus não estava interessado em uma religião insólita e cíclica, mas em uma religião que afetasse todas as áreas.

Êxodo 23:10-11  10 Seis anos semearás a tua terra e recolherás os seus frutos;  11 porém, no sétimo ano, a deixarás descansar e não a cultivarás, para que os pobres do teu povo achem o que comer, e do sobejo comam os animais do campo. Assim farás com a tua vinha e com o teu olival.

Deus ordenou que o povo pensasse nos pobres e que deixassem no sétimo ano a terra sem cultivá-la para que os pobres pudessem colher e comer. Da mesma forma ele adverte ainda:

Deuteronômio 15:11-14  11 Pois nunca deixará de haver pobres na terra; por isso, eu te ordeno: livremente, abrirás a mão para o teu irmão, para o necessitado, para o pobre na tua terra.  12 Quando um de teus irmãos, hebreu ou hebréia, te for vendido, seis anos servir-te-á, mas, no sétimo, o despedirás forro.  13 E, quando de ti o despedires forro, não o deixarás ir vazio.  14 Liberalmente, lhe fornecerás do teu rebanho, da tua eira e do teu lagar; daquilo com que o SENHOR, teu Deus, te houver abençoado, lhe darás.

Nesse texto, Deus deixa claro que os pobres sempre estarão na terra e que o povo, por causa disso, teria que abrir a mão para o necessitado e para o pobre na terra. Deus demonstra que a religião deveria vir de uma profunda preocupação com as ações sociais. Quando se fala no pobre, deve-se entender de uma forma metonímica que quer dizer toda conjuntura social que os pode beneficiar como uma boa política, projetos sociais, envolvimentos sociais e uma postura justa na sociedade.

2. Deus adverte nos Salmos e nos profetas sobre as injustiças sociais e sobre o cuidado com as viúvas

Salmos 10:12-18  12 Levanta-te, SENHOR! Ó Deus, ergue a mão! Não te esqueças dos pobres.  13 Por que razão despreza o ímpio a Deus, dizendo no seu íntimo que Deus não se importa?  14 Tu, porém, o tens visto, porque atentas aos trabalhos e à dor, para que os possas tomar em tuas mãos. A ti se entrega o desamparado; tu tens sido o defensor do órfão.  15 Quebranta o braço do perverso e do malvado; esquadrinha-lhes a maldade, até nada mais achares.  16 O SENHOR é rei eterno: da sua terra somem-se as nações.  17 Tens ouvido, SENHOR, o desejo dos humildes; tu lhes fortalecerás o coração e lhes acudirás,  18 para fazeres justiça ao órfão e ao oprimido, a fim de que o homem, que é da terra, já não infunda terror.

Salmos 82:1-4  Salmo de Asafe. Deus assiste na congregação divina; no meio dos deuses, estabelece o seu julgamento.  2 Até quando julgareis injustamente e tomareis partido pela causa dos ímpios?  3 Fazei justiça ao fraco e ao órfão, procedei retamente para com o aflito e o desamparado.  4 Socorrei o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios.

Tanto o Salmos 10 como o 82 demonstram que Deus levou o seu povo a preocupar-se com a justiça social, com os pobres, com os órfãos e com os fracos. No Sl 10 Deus repreende aqueles que falavam que Ele não se importava com os pobres. Os salmistas demonstram, então, que Deus levava seu povo a ter uma visão social abrangente.

Isaías 10:1-2  Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão,  2 para negarem justiça aos pobres, para arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo, a fim de despojarem as viúvas e roubarem os órfãos!

Nesse texto, Deus adverte através do profeta Isaías que povo levasse em conta a justiça social e o cuidado de oprimir os pobres, viúvas e órfãos. Da mesma forma, o profeta Jeremias afirma:

Jeremias 5:27-29  27 Como a gaiola cheia de pássaros, são as suas casas cheias de fraude; por isso, se tornaram poderosos e enriqueceram.  28 Engordam, tornam-se nédios e ultrapassam até os feitos dos malignos; não defendem a causa, a causa dos órfãos, para que prospere; nem julgam o direito dos necessitados.  29 Não castigaria eu estas coisas? -- diz o SENHOR; não me vingaria eu de nação como esta?

Nesse texto do profeta Jeremias, Deus repreende o seu povo por causa das fraudes, por não defenderem a causa dos órfãos e nem a dos necessitados. Isso demonstra que a adoração inclui uma visão global na sociedade, influenciando e buscando a justiça social. Isso demonstra que quando se pensa em Missões, deve-se pensar em justiça social, influência em todas as áreas e a preocupação com os mais necessitados sem deixar de começar pela raiz do problema que é a separação do homem para com o seu Criador.



Por isso, Deus sempre falava através dos profetas que eles deveriam levar em conta a injustiça como se pode ver no profeta Oseias:

Oseias 6:7-8  7 Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim.  8 Gileade é a cidade dos que praticam a injustiça, manchada de sangue.

Nesse texto, Deus adverte seu povo que eles eram como a cidade daqueles que praticam a injustiça. Deus sempre tem uma visão do todo social, pois a injustiça incluía as manifestações na sociedade que o povo não estava atentando nem influenciando para tal. Por isso, Deus fala do seu juízo através do profeta Amos:

Amós 5:11-12  11 Portanto, visto que pisais o pobre e dele exigis tributo de trigo, não habitareis nas casas de pedras lavradas que tendes edificado; nem bebereis do vinho das vides desejáveis que tendes plantado.  12 Porque sei serem muitas as vossas transgressões e graves os vossos pecados; afligis o justo, tomais suborno e rejeitais os necessitados na porta.

Nesse texto, Deus adverte que a causa de seu juízo é exatamente por que o povo desprezava os pobres e afligiam o justo, como também por causa do suborno. Por isso, Deus adverte ao povo por causa da sua total insensibilidade dos problemas sociais.


3. A visão da Missão no Novo Testamento

Jesus ordena os seus discípulos na sua ordenança missiológica que eles ensinassem a guardar o que ele tinha ensinado:

Mateus 28:19, 20  19 Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;  20 ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.

Jesus ordena seus discípulos a fazer discípulos dele e que, como conseqüência disso, eles deveriam ensinar a guardar todas as coisas que ele tinha ordenado.
Os apóstolos eram conscientes dos ensinamentos do Mestre Jesus e Senhor do Evangelho. As pregações de Jesus e as Parábolas demonstravam a preocupação com os pobres e necessitados. Por exemplo, no Sermão do Monte e em seus outros ensinos, Jesus declara:

Mateus 5:42  42 Dá a quem te pede e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes.
Lucas 12:33  33 Vendei os vossos bens e dai esmola; fazei para vós outros bolsas que não desgastem, tesouro inextinguível nos céus, onde não chega o ladrão, nem a traça consome,

Nesses trechos, Jesus ordena a dar esmola, dividir vendendo o que tem. Jesus estava ensinando que o Evangelho incluía uma profunda preocupação com os pobres e a sua justiça (Mt 5.6; 6.33). Portanto, Jesus ensina que a Missão tem que ter uma visão completa com a justiça social. O amor ao próximo incluía uma preocupação com os excluídos da época, incluindo samaritanos e publicanos. Por isso, ele ensinou na Parábola do Bom Samaritano que o próximo daquele judeu que estava à morte e doente era exatamente um samaritano que eles tanto discriminavam (Lc 10.29-37). Jesus demonstra que a religião sem uma praticidade em amor era apenas uma fachada como o levita e o sacerdote que passaram de largo.
Tiago ampliou essa visão do Senhor Jesus quando escreveu:

Tiago 1:27  27 A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo.

Tiago ensina à igreja, composta pela maioria de judeus, que uma fé que não é acompanhada das obras é morta. Depois, ele dá vários exemplos, como deixar de tratar com acepção as pessoas (Tg 2.1-4), o uso adequado da língua (3.1-12), o cuidado de contendas por causa da inveja (Tg 4.1,2) e a visita aos órfãos e às viúvas nas suas tribulações. Tiago demonstra bem claro que a vida cristã precisa ter a visão dos necessitados como resultado da fé cristã. Ele afirma ainda:

Tiago 2:15-17  15 Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano,  16 e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso?  17 Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta.

Portanto, se a fé cristã para Jesus e para os apóstolos incluía a ação social, fica claro que a Missão tem que ter essa visão, pois levaremos é o que ele e os apóstolos ensinaram. Não precisa enfatizar nada a não ser cumprir a Missão de uma forma bíblica.

CONCLUSÃO:

O Evangelho é um só. Fora de qualquer configuração correta do Evangelho, tem-se outro e não o que Jesus ensinou (Gl 1.8,9). Ou se prega o Evangelho, e este completo, ou não é o Evangelho. Da mesma forma a Missão. Ou se tem a Missão, e essa completa levando em conta o todo social, ou tem-se apenas uma caricatura de Missão, ou seja, não é Missão.
Não se precisa de mais adjetivos ou mais designações à palavra Missões, mas, sim, de fazer o que a Escritura ensina: uma visão global, pregando um Evangelho global tentando alcançar o homem de uma forma global.





[1] FORBE, J. The Mystery Godlines and Other Sermons. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans Publish House, 1950, p.199.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

HOMOSSEXUALISMO E INCOMPATIBILIDADE SOCIAL





O Brasil recebeu, com surpresa, a declaração do relacionamento homossexual da cantora Daniela Mercury. Isso se dá exatamente diante de um conflito entre uma parte da sociedade juntamente com os militantes gays e o presidente eleito do CDHM, Marco Feliciano. Diante desse fato, não deixou de haver perplexidade, dúvida, levando, inclusive, alguns meios midiáticos questionarem se não seria a hora do Brasil aprovar oficialmente a união civil homossexual. Afinal de contas, pensam: se a cantora  Daniela Mercury já se declarou, por que a sociedade não aceitaria de vez a união homossexual. A questão ficou tão crucial que muitos cristãos calaram-se ou penderam para uma pequena tolerância à união homossexual, mesmo não concordando com a prática em si. Entre eles está o Pr. Ariovaldo Ramos. Ele afirma em seu artigo por tema “Pelo direito de discordar!”  o seguinte:

Eu respeito o direito das uniões homossexuais terem garantida, pelo Estado, a preservação do patrimônio, por eles construídos, quando da separação ou do falecimento de um dos membros da união. Entretanto, discordo que seja possível transformar uma união voluntária de duas pessoas do mesmo sexo, a partir de opção comum e particular, em casamento, pois isso insinua haver um terceiro gênero na humanidade, o que não se explicita na constituição do ser humano.

Entendo a motivação do Pr. Ariovaldo Ramos de ser justo e humanitário a grupos discriminados. No entanto, ele não percebeu algumas nuanças importantes e até perigosa para quem crê na Bíblia. Na verdade, o que o Pr. Ariovaldo Ramos faz é entrar em uma plena contradição, pois o que seria a união civil, se não o direito de “preservação do patrimônio ou do direito diante falecimento de um dos membros”? Os próprios militantes homossexuais afirmam que não querem nada religioso, mas que o Estado reconheça os direitos dos cônjuges homossexuais. Se o Pr. Ariovaldo Ramos é a favor de direitos a casais homossexuais, ele tem que concordar com a união civil destes ou, então, o que ele defender nesse sentido não deve ser levado a sério devido à grande contradição lógica.

Isso parece ter uma configuração de amor e “busca de cidadania”, mas não é bem assim. Pode-se ser a favor plenamente dos direitos individuais de todo ser humano independente de sua escolha religiosa, sexual e até moral. No entanto, quando duas pessoas de mesmo sexo se unem, já não inclui direito do ser humano individual, mas de um casal, pois seriam casados ou comprometidos de alguma forma. Como ser a favor de direitos e práticas que Deus rejeitou? No VT Deus mandou punir com morte quem tal ato praticasse. Claro, que essa lei foi somente para Israel naquela época por se uma Lei Civil judaica (Levítico 18.29). No entanto, fica a lição que Deus não se agrada e não quer negociação com direitos de CASAIS. Ora se o supremo legislador, Deus, não deu direitos, mas, ao contrário, rejeitou totalmente, como dar direitos a esses casais agora? Além do mais, essa prática é demonstrada pelos apóstolos como sendo o resultado da ira de Deus entregando-os às suas paixões (Romanos 1.24-27). Seria como se alguém dissesse que seria contra o aborto, mas seria plenamente a favor do direito de uma mãe fazer o que quisesse com o seu corpo, inclusive abortar. Claro que isso inclui a vida de uma pessoa única que está no seu ventre e que merece respeito e proteção, pois não está em jogo somente o direito individual da mãe em si. Portanto, isso seria tão contraditório quanto o que o Pr. Ariovaldo Ramos quer defender. Ele é contra o que se entende por casamento civil, mas é a favor dos direitos que os cônjuges deveriam ter, porém, isso somente poderia acontecer se a união civil homossexual fosse aprovada, já que é isso que está sendo pedido e discutido pelos militantes gays nesse ano.

Quando se fala do comportamento homossexual, a situação não é tão simples assim. Precisa-se analisar diante da história como esse comportamento sempre teve uma total incompatibilidade e aversão ao escopo judaico-cristão em todo o tempo e até às culturas de todas as épocas.

Antes, precisa-se, primeiro, justificar o tema supra citado "homossexualISMO", pois, hoje, no Brasil, até a nomenclatura tem sido alvo de crítica por parte dos gays beligerantes e de pessoas incautas. Afirmam que o correto é "homossexualidade", porque homossexualismo denota uma espécie de doença ou algo pejorativo. Porém, precisa-se analisar que a palavra homossexualismo está perfeitamente empregada para o tema.

O sufixo "ismo" vem da influência do grego em nossa língua. Na verdade, vem do sufixo grego μος (mos) que expressa palavras que demonstram "ação". Os gregos usavam esse sufixo para expressar substantivos vindo dos verbos com terminação ιζω (izö). por exemplo, βαπτίζω (baptizö). Daí, vem a palavra βαπτισμός (baptismos / batismo). Logo depois, o latim sofreu uma forte influência e acrescentou o is ficando ismus. Com o tempo, esse prefixo demonstrou ações generalizadas como as palavras catecismo, cristianismo, paganismo, exorcismo. No português, palavras que têm esse sufixo podem demonstrar ideologia e algo pejorativo. No entanto, esse sufixo não significa somente isso, mas demonstra também uma ação generalizada como as palavras batismo e exorcismo. Quando se fala "homossexualismo", entende-se como uma generalização de um ato moral e responsável, da mesma forma que a palavra "hedonismo" demonstra um ato generalizado de busca do prazer. Os dois maiores dicionários (Houaiss e o Aurélio) trazem a palavra "homossexualismo" como a maioria das pessoas fala e que alguns incautos despreparados corrigem afirmando logo a seguir que a palavra correta seria "homossexualidade". De qualquer forma, mesmo que se tenha havido uma intenção pejorativa ao formar essa palavra com esse sufixo, é perfeitamente legítimo dentro da lingüística chamar “homossexualismo”. Portanto, a correção do uso desse prefixo é uma demonstração de total falta de bom senso da língua, da sua linguística histórica e dos dicionários, já que ela está nos dois maiores da nossa língua, o Houaiss e o Aurélio.[1] 

Precisa-se, agora, demonstrar que, embora o homossexualismo sempre tenha existido na história, ele não tem sido uma unanimidade social. Isso se deve por vários fatores. Dentre eles, os fatores biológico-social e religioso. O biológico-social porque para procriar e ter uma família é necessário um homem e uma mulher. Um casal homossexual jamais poderia se enquadrar dentro das necessidades biológico-sociais de procriação e da família. Em todas as épocas, a família heterossexual era muito necessária e levada a muita honra. Isso tem sido demonstrado em vários grupos étnicos que tinham que ter o seu descendente ao trono e, para isso, precisava-se de um relacionamento heterossexual. Somente para dar dois exemplos: os egípcios tinham como sagrado o filho primogênito, pois era dedicado à deusa da fertilidade Bastet (uma divindade de uma mulher com cabeça de gato) e como uma extensão ao deus Amon-Rá. Uma família que não pudesse ter filhos era considerada uma maldição na sociedade egípcia. Os judeus eram outro grupo étnico que a família homossexual não podia existir. Primeiro por que fazia parte da cultura judaica o cumprimento da Lei de Moisés que punia com muito rigor quem fazia tal ato. Além disso, o filho herdeiro primogênito era esperado e tido como honra. Em toda a história das civilizações a união heterossexual era necessária. Sendo que a união homossexual seria ir contra a cultura e aspiração de várias culturas, para não dizer todas, já que a procriação era necessária e vista como importante. [2] 

Na Roma antiga, houve várias tentativas de casamento. O imperador Nero fez uma cerimônia de casamento com um de seus escravos. Outro imperador a fazer isso foi Heliogábalo que se casou com um escravo chamado Hiérocles [3]. No entanto, o chamado conubium Romanus Civis (casamento oficializado) era somente entre um homem e uma mulher), exceto quando era arbitrário como no caso dos imperadores supra citados [4]. A própria palavra matrimonium (de onde vem a nossa palavra “matrimônio”) demonstrava que teria que envolver uma mãe (mater), pois a ideia é que um casamento teria que ter um homem que tomasse uma mulher em casamento para procriar in matrimonium ducere.

É digno de nota que a Roma no primeiro século tinha o homossexualismo como prática bem difundida em orgias ao deus Baco, o deus do vinho. As divindades gregas exigiam pederastas que escolhiam jovens para que fossem amantes em cerimônias religiosas. Mesmo assim, muitos historiadores admitem que a união homossexual como família era completamente obscura e não aceitáveis pela maioria da sociedade [5]. Em 342, os imperadores cristãos Constâncio II e Constante emitiram uma lei chamada “Código de Teodósio” que proibia o casamento homosexual em Roma e quem fizesse seria punido com morte [6]. Note que a incompatibilidade social com a união homossexual não vem desde agora, mas durante toda a história da humanidade. Desde os primeiros séculos, as grandes civilizações como Egito, Grécia e Roma não viam com bons olhos essa união, pois não se aceitava de bom grado, havendo uma total incompatibilidade social.

Quando se vai para o lado religioso, fica mais grave a incompatibilidade com a união civil homossexual. Várias religiões rejeitam esse tipo de união. Todas aquelas que se baseiam de alguma forma na Bíblia entendem que essa união é completamente incompatível com ela. O Judaísmo, o Islamismo, o Cristianismo, incluindo catolicismo e protestantismo. Todas essas rejeitaram durante toda a sua história como a rejeitam no presente momento. Claro que passaram a existir várias igrejas progressistas e liberais que aderiram o casamento homossexual bem como seus líderes. No entanto, isso é apenas uma parte, dividindo-se da maioria do grupo que crê na Bíblia e na sua interpretação histórico-gramatical. Portanto, isso significa que jamais uma sociedade que se tenha liberdade de culto e religiosa aceitará de bom grado a união civil homossexual.

Uma pessoa que merece destaque em rejeitar a oficialização da união homossexual é Jesus Cristo. Em seus ensinos ele demonstrou claramente que Deus criou “macho” e “fêmea” (assim quer dizer as palavras gregas ἄρσεν και θηλυ no texto do NT traduzidas para “homem e mulher”), juntando-os no casamento. Jesus afirmou:

Mateus 19:4-5  4 Então, respondeu ele: Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher  5 e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne?

Jesus estava ensinando sobre o princípio do verdadeiro casamento cuja união está entre um homem (macho) e uma mulher (fêmea) conforme no início da criação, pois ele evocou o livro de Gênesis no episódio da criação do homem (Gn 1.27).

O apóstolo Paulo e os demais apóstolos seguiram nas pisadas do Mestre e dos patriarcas. Eles ensinaram e demonstraram que os que tais coisas praticam estão em juízo diante do Criador.

Romanos 1:26-27   26 Por causa disso, os entregou Deus a paixões infames; porque até as mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro, contrário à natureza;  27 semelhantemente, os homens também, deixando o contacto natural da mulher, se inflamaram mutuamente em sua sensualidade, cometendo torpeza, homens com homens, e recebendo, em si mesmos, a merecida punição do seu erro…

Romanos 1:32  2 Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem.

1 Corinthians 6:9  9 Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas,

Paulo usa as duas palavras gregas conhecidas para homossexuais na época. A primeira que em português traduziu para “efeminados” é a palavra μαλακοι (malakoi) que literalmente quer dizer “macio”, “meigo”. Essa palavra era usada para homossexuais assumidos e efeminados. A segunda é αρσενοκοιται (arsenokoitais) que é uma palavra composta que vem de ανηρ aner (macho) e κοιτος koitos (relação sexual). O seu significado quer dizer alguém que se relaciona com o mesmo sexo mesmo sem admitir ou demonstrar. Paulo deixou claro que o que tais coisas praticam não serão tolerados diante de Deus.

Portanto, o objetivo desse ensaio foi demonstrar que a união civil homossexual nunca foi bem-vinda na sociedade e nem será tolerada por motivos biológico-social e, principalmente religioso. Os ativistas gays devem saber diferenciar entre tolerância e aceitação. A sociedade pode tolerar um ato qualquer, mas não significa que ela aceite ou que se obrigue as pessoas aceitarem. Pode-se tolerar alguém que pensa contra ou faz algo que não se concorda, pois sua liberdade deve ser respeitada. No entanto, posso perfeitamente tolerar sem aceitar suas práticas e concordar com elas, pois se essa liberdade prejudica a minha, isso já não é democracia, mas ditadura.

Dizer que se é contra uma prática não implica incentivar à violência ou incentivar à discriminação. Por exemplo, pode-se ser contra as cotas a negros nas universidades, mas isso não seria incentivo à discriminação nem incentivo à violência contra eles.

Por essa razão, a sociedade e igreja devem se manifestar contra essa prática de união homossexual, pois não estarão sós na história e, principalmente, estando do lado daquele que criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança.

[1] Para uma melhor pesquisa sobre o sufixo "ismo". Vide um artigo da USP http://www.usp.br/gmhp/publ/GiaA1.pdf.
[2] Vide vídeo do filósofo Olavo de Carvalho explicando muito bem isso: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=guf018G8PmU#!
[3] Chris Scarre "Chronicles of the Roman Emperors" (London: Thames and Hudson Ltd, 1995). Page 151.
[4] Corbett, The Roman Law of Marriage (Oxford, 1969), pp. 24–28; Treggiari, Roman Marriage (Oxford, 1991), pp. 43–49.; "Marriages where the partners had conubium were marriages valid in Roman law (iusta matrimonia)" [Treggiari, p. 49]. Compare Ulpian (Tituli Ulpiani 5.3–5: "Conubium is the capacity to marry a wife in Roman law. Roman citizens have conubium with Roman citizens, but with Latins and foreigners only if the privilege was granted. There is no conubium with slaves"; compare also Gaius (Institutionum 1:55–56, 67, 76–80).
[5] Eskridge, William N.. (Oct 1993). "A History of Same-Sex Marriage". Virginia Law Review 79
[6] Kuefler, Mathew. (2007). The Marriage Revolution in Late Antiquity: The Theodosian Code and Later Roman Marriage Law". Journal of Family History 32 (4): 343–370. DOI:10.1177/0363199007304424

segunda-feira, 25 de março de 2013

O VERDADEIRO SENTIDO DA PÁSCOA


                                      



A páscoa é uma festa exclusivamente judaico-cristã. A própria etimologia da palavra vem do verbo hebraico pasah פסה que quer dizer “passar sobre”, “poupar”. Esta palavra vem do Velho Testamento na ocasião do Êxodo quando Deus fala a Moisés: “Mas o sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; vendo eu o sangue, passarei por cima de vós” (Ex 12.13). Desse verbo hebraico vem a palavra hebraica pesah פסה e, dessa palavra, os gregos transliteraram para pascha πάσχα. Deus ordenou os judeus que celebrassem o episódio da saída da terra do Egito através do derramamento do sangue de um cordeiro, pois Deus veria apenas o sangue desse cordeiro nos umbrais das portas como expiação e redenção para não punir com morte os primogênitos (Ex 12.13,14). Os judeus passaram a celebrar no dia 14 do mês de Nisan essa festa que celebra a libertação através do sangue de um cordeiro. A festa começava ao entardecer ou depois do pôr do sol (15 de Nisan). O sacerdote aspergia o sangue dos cordeiros sobre o altar do holocausto e a refeição da Páscoa ocorria na tarde anterior (14 de Nisan). A refeição começava pelo chefe da casa que oferecia uma dedicação de uma taça de vinho e todos bebiam; depois, comiam um prato preliminar antes da refeição oficial. A parte mais importante era quando chegava o haggadah da Páscoa, pois o chefe da casa narrava a história do Êxodo do Egito segundo Dt 26.5-11.

Esses episódios demonstram que a páscoa tinha como objetivo falar de uma forma simbólica da pessoa, vinda e do sofrimento do Messias, pois Jesus Cristo foi chamado por João Batista de “O Cordeiro de Deus que Tira o Pecado do Mundo” (Jo 1.29; 36) e reconhecido pelo apóstolo Paulo como “O Nosso Cordeiro Pascal” (1 Co 5.7). O evangelista Marcos tenta dar essa pista quando descreve a Ceia com seus apóstolos (Mc 14.12) chegando a dizer que era quando se fazia o sacrifício do Cordeiro Pascal. O evangelista João também demonstra que Jesus era um tipo do Cordeiro Pascal do Velho Testamento quando lembra a páscoa no episódio da prisão e sofrimento de Jesus (Jo 18.28; 19.14). Jesus foi identificado como esse cordeiro porque ele seria aquele que, através de seu sangue, poderia fazer Deus passar por cima do seu juízo àqueles que confiassem no sacrifício desse Cristo e no seu sangue puro como aconteceu com os israelitas no Egito pondo o sangue do cordeiro nos umbrais das portas. Ao que parece, Jesus foi morto exatamente quando se matava o cordeiro do sacrifício da Páscoa em Jerusalém, na tarde 14 de Nisan (Mc 14.12; Jo 19.14). Antes, Jesus Cristo fez a refeição da páscoa com seus discípulos e ali ele instituía a Ceia que lembraria o seu sofrimento em prol da humanidade.

Portanto, diante desse background, o que significa o verdadeiro sentido da Páscoa? Como uma festa exclusivamente de origem judaico-cristã pode ter símbolos tão desassociados do seu significado e até não inteligentes como um coelho e um ovo? Quando se coloca um coelho e um ovo como símbolos da Páscoa, mesmo que se tenha uma explicação de um surgimento pagão ou de uma história qualquer, no mínimo esse conceito se torna obtuso. Alguns chegam a dizer que o real sentido da Páscoa é somente a ressurreição de Cristo; porém, pelo que foi supra demonstrado e pela própria Escritura fica incompleto o significado da Páscoa se apenas a ressurreição for enfocada, apesar de que ela é muito importante e sem ela nada tem sentido e não existiria fé, pois é o ápice e a ratificação da Vitória de Cristo na cruz (1 Co 15.14). Não obstante a ressurreição ser muito importante, a ênfase da Páscoa não é a ressurreição, mas a morte sacrificial de Cristo como redenção no lugar daqueles que respondem com as mãos fazias da fé, como dizia o teólogo e pregador Charles Spurgeon. Nós encontramos o real sentido da Páscoa na cruz, no sacrifício de Cristo como um cordeiro indefeso e mudo como profetizou o profeta Isaías: “mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos trás a paz estava sobre ele e pelas suas pisaduras fomos sarados... Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca.” (Is 53.5,7). A páscoa significa que Deus escolheu redimir alguns da humanidade através de um sacrifício universal, eterno e histórico – o sacrifício de Cristo na cruz sendo concluído pela sua ressurreição. A páscoa é a demonstração da misericórdia de Deus e da sua graça em providenciar uma eterna salvação ao homem que tem uma natureza completamente caída, egoísta e uma tendência prazerosa ao pecado e à transgressão, mesmo sabendo que tal prática traz destruição, caos existencial e conseqüências espirituais. O apóstolo Pedro percebeu esse sentido pascal quando escreveu que alguns são resgatados do fútil procedimento que seus pais lhe legam, porque não são por coisas corruptíveis como dinheiro que se pode ser resgatado, mas pelo precioso sangue, como de um Cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo (1 Pe 1.18,19).

A resposta em trocar os símbolos verdadeiros da Páscoa pelos símbolos obtusos de um ovo e de um coelho é pela tendência do homem de fugir daquilo que o incomoda. Um ovo e um coelho não falam nada, não tipificam nada, exceto um compromisso às crianças de comprar em forma de chocolate, ficando melhor para usar comercialmente. Os verdadeiros símbolos da Páscoa incomodam porque falam de nossa pecaminosidade e que esse pecado é universal, ou seja, em todas as épocas e em todos lugares ele acontece. Na verdade, os homens se escondem de Deus e de sua mensagem porque não querem admitir as suas frustrações éticas, psicológicas, existenciais, sociológicas, científicas (porque a ciência não explica tudo, como por exemplo, o início de tudo) e principalmente espirituais, pois o homem quanto mais busca Deus por si mesmo encontra um abismo de contradição e fracasso.

A Páscoa tem uma mensagem universal porque trata de algo universal que é o pecado e fala de um Deus Eterno que foi ofendido e deseja que todos possam usufruir a sua misericórdia através de Cristo na cruz, pois assim todas essas frustrações são eliminadas porque somente em Cristo pode-se realizar existencialmente e espiritualmente, pois a sua morte trata de coisas essenciais como culpa, sentido e amor perfeito. Somente Cristo pode oferecer solução para a culpa humana dando sentido de vida ao homem, que foi criado à sua imagem e semelhança, satisfazendo-o com um amor perfeito, porque “Deus prova o seu próprio amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8).

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A INCOMPATIBILIDADE DE 1Tm 3.1-7 PARA A ORDENAÇÃO FEMININA




A responsabilidade de um estudioso da Palavra de Deus é analisar ou, pelo menos, criar um pensamento crítico diante de algumas tendências que são vistas como perigosas e sérias. Creio que tudo que foge de uma interpretação exegética dentro de uma hermenêutica saudável, traz prejuízos à igreja de Jesus Cristo. Não foi à toa que por causa de uma simples colocação e interpretação de um verbo do novo testamento como justificare em latim trouxesse uma má interpretação à doutrina da justificação pela fé na idade média, trazendo, com isso, várias heresias como o pelagianismo e outras mais.


A Igreja deve estar fundamentada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, que foi revelado na Palavra de Deus. Parece que isso é uma redundância, pois falar que os líderes da Igreja de Cristo devem fundamentar-se na Palavra de Deus poderia ser algo sem nexo, mas o que vemos nas cartas pastorais de Paulo a Timóteo e a Tito, é que eles deveriam atentar para a Palavra de Deus primeiramente (1 Tm 4.12,13; 2 Tm 2.15; 4.1-3; Tt 2.1). É sinal que a tendência de um pragmatismo teológico e litúrgico era uma tentação desde aqueles tempos.

A igreja tem uma grande tentação de optar pelas experiências e deixar de analisar o que a Palavra de Deus diz. Vejo vários motivos para isso: Primeiro por uma falta de preparação teológica adequada para analisar ou fazer uma exegese com erudição ou até mesmo com um estudo minucioso da Palavra de Deus, por isso que Paulo disse a Timóteo 2.15 que manejasse bem a Palavra da Verdade; segundo, porque muitos líderes não têm tempo de debruçar-se diante de um estudo exaustivo da Palavra de Deus. Alguns acham que um pastor ideal é aquele que gasta tempo com visitas e atividades outras na igreja, negligenciando o estudo cauteloso e sistemático das Escrituras. Embora que sejam importantes, deve-se colocar em primeiro lugar a preparação e o estudo das Escrituras; terceiro motivo é porque são pressionados por outros que aderem a ondas e passam a ter como base experiências sem nenhuma base sólida da Palavra de Deus. Por isso que existem igrejas, onde há curas, expulsão de demônios, mas mesmo assim há ovelhas morrendo de fome dentro de seu próprio aprisco; quarto, pela tentação da quantidade em detrimento da qualidade. Pensam alguns: é melhor ter uma igreja com muitas pessoas mesmo com um método ou prática questionada pela Palavra que com poucas pessoas com uma base sólida.
G. K. Chesterton escreveu: “Nosso mal hoje é ter humildade no lugar errado. A modéstia deixou de atuar sobre o órgão da ambição. A modéstia reside agora no órgão da convicção; onde nunca deveria estar. O homem deveria duvidar de si mesmo e ter certeza da verdade. Isso foi completamente invertido”. Vejo que hoje muitos líderes estão duvidando de algumas verdades teológicas para dar lugar aos seus pontos de vista, a experiências e a ondas de avivamento.

Hoje em dia não se diz mais: “vamos ver o que a Bíblia diz”, mas “vamos ver o que aquela igreja grande faz e usa”, ou “vamos fazer porque dá resultado”. Estas frases infelizmente são um reflexo de uma igreja decadente, que se não for cuidada, mais tarde será uma igreja de cristãos nominais, tendo a Bíblia como algo facultativo.
Pensando nisso, quero trazer uma exegese de 1 Timóteo 3.1-7 e a sua total incompatibilidade com a ordenação feminina.

Sabemos que Paulo estava escrevendo uma carta pastoral a seu filho na fé, Timóteo. Portanto, tudo que iria instruir serviria aos demais líderes das igrejas. Paulo começa mostrando que a palavra que iria falar era fiel e verdadeira πιστος ὁ λόγος. Portanto, estava levando Timóteo a levar a sério, talvez porque iria falar de bispos na sua epístola.

A palavra bispo

É necessário, portanto, que o bispo seja…

A palavra bispo επισκοπος episkopos quer dizer supervisor, alguém que observa, dá assistência. Foi usada apenas 5 vezes no Novo Testamento; 4 foram usadas para os líderes homens das igrejas, (At 20.28; Fl 1.1; 1 Tm 3.2; Tt 1.6,7), 1 usada para Cristo (1 Pe 2.25). Vemos, algumas vezes, que os apóstolos usavam a palavra similar presbítero πρεσβυτερος presbyteros como At 20.28. A Septuaginta demonstra que todas as ocorrências dessa palavra eram para líderes, e esses, homens, sendo usada até para o próprio Deus no NT (1Pe 2.5). Paulo, quando chamou os líderes de Éfeso em Atos 20.17, eram todos homens pela expressão μετακαλεσατο τους πρεσβυτερους metekalesato tous presbiterous a declinação do artigo é masculina e não dá espaço a mulheres mesmo que a palavra fosse usada para as duas declinações. Da mesma forma, na oração δει ουν τον επισκοπον dei oun ton episkopon a palavra episkopon está com o artigo masculino (1Tm 3.2). Paulo já define para quem está falando, até porque, não há esta palavra relacionada a mulheres em nenhuma parte da Bíblia, seja no NT, seja no VT (na Septuaginta, que era muito usada no tempo de Jesus). A expressão verbal grega é necessário que seja δει... ειναι dei.. einai demonstra algo que é indispensável e deve ser uma característica visível, pois os líderes deveriam ser analisados. O verbo ειναι einai de ειμι eimi está no infinitivo presente. Tempo verbal que atesta uma ação habitual, demonstrando que essas características devem ser constantes e para todos os tempos, já que se tratava de princípios para a igreja de Jesus. Não se podem fazer exceções ao episcopado, pois essas características seriam necessárias e indispensáveis à liderança de Cristo.

As qualificações

Paulo, então, fala que é necessário… Esta expressão serve para critério daqueles que aspirarem ao episcopado. Isto quer dizer que se alguém dissesse ter algum chamado, teria que passar pelo crivo dessas qualificações. Vejamos algumas, pois me dedicarei somente àquelas que digam respeito ao problema de ordenação de mulheres:

Esposo de uma só mulher

Muitos eruditos admitem que essa expressão é difícil. O problema implica se Paulo está defendendo que o bispo seja casado ou se está evidenciando o sexo. A palavra grega ανηρ anër quer dizer tanto varão como esposo. Εm todo caso, o sexo fica já definido, mas mesmo assim, há uma dúvida se Paulo queria enfatizar o gênero ou ao casamento monogâmico. A expressão μιας γυναικας ανδρα mias gunaikas andra é usada por Paulo, pelo menos três vezes: quando fala outra vez a Diáconos (1 Tm 3.12); quando escreve a Tito (1.6) e quando falava aos bispos nessa passagem. Portanto, essa expressão revelava uma característica importante àqueles que queriam o episcopado e ao diaconato. É interessante que Paulo usou a mesma expressão a diáconos. Se defendemos que o diaconato feminino foi liberado por Paulo (1 Tm 3.11), (creio nisso), então, essa expressão se torna clara como uma admoestação à monogamia que não era um costume entre os gentios. Porém, creio que a expressão grega μιας γυναικας ανδρα diz muito mais que uma admoestação à monogamia, pois havia presbíteros solteiros ou viúvos como o caso de Paulo. No entanto, é perfeitamente legítimo e exegético afirmar, pelo genitivo qualitativo μιας γυναικας mias gynaikas, que o bispo não fosse um homem conquistador ou um defraudador de mulheres. De qualquer forma, Paulo não deixa de tratar de gênero, pois ele fala de homens com mente liberal em relação ao casamento, pois o contexto da época permitia os homens a terem várias mulheres e não o contrario. Em todo caso, podemos aceitar esses dois princípios: seja que tenha uma só esposa, como também alguém que não seja aproveitador, tentado seduzir mulheres autenticando o assunto do gênero.

Pode-se perceber que Paulo mudou os verbos de  (é necessário ser) para apenas um imperativo do verbo ειμι eimi – sejam quando falava a diáconos (1Tm 3.12). Paulo falou os verbos δει... ειναι dei... einai… tanto a Timóteo como a Tito para as escolhas de presbíteros e, nessa escolha, Paulo não abriu espaço a mulheres como abriu ao diaconato quando afirma (1Tm 3.11) γυναικας ὡσαυτως “da mesma sorte, quanto às mulheres...”. No caso dos bispos, Paulo jamais escreveu dessa forma. Mesmo assim, há uma passagem que possivelmente Paulo fala do diaconato de uma mulher em Romanos 16.1. A expressão grega não é um verbo como as traduções ditam, mas um substantivo sendo diaconisa ou serva da igreja. Porém quando se trata de presbíteros ou bispos não há referências a mulheres. Portanto, Paulo quando falou do diaconato usou um verbo ser ειμι eimi  no imperativo, incluindo mulheres também (v.11), mas, com respeito ao episcopado ele usou a forma verbal δει... ειναι dei… einai que significa uma regra sem exceção e sem nenhuma referência a mulheres como fez com os diaconos.

No caso dos diáconos, ele fala na parte que destaca dos homens, separando totalmente das qualificações femininas ao diaconato, deixando mais enfático que ele tinha a intenção de falar somente de homens em 1Tm 3.1-7.

Apto para ensinar

Essa expressão é uma grande dificuldade àqueles que advogam a ordenação de mulheres. O adjetivo torna a discussão mais complicada para aqueles que têm a Bíblia como regra de fé e conduta. Como Paulo, na mesma epístola, admoestou peremptoriamente que não permitia que mulher ensinasse, nem que usasse autoridade sobre o homem (1 Tm 2.12) (A expressão grega diz respeito a um ensino com uma autoridade de homem como diz a expressão exercer autoridade de homem) e incluiria as mulheres ao ensino autorizado logo depois? Na verdade, Paulo estava refutando uma espécie de heresia feminista na igreja de Éfeso, levando à confusão de papeis entre os homens e as mulheres. Não podemos dizer que foi por causa do contexto da época, pois ele se baseou na criação, firmando-se na criação do homem como primeiro formado, sendo logo depois a mulher (1 Tm 2.13,14). É bem verdade que Paulo não estava trazendo uma proibição absoluta de ensino à mulher, mas um ensino com autoridade como se fosse um homem, ou seja, na posição de um presbítero, pois sabemos que ele, falando a Tito, disse que as mulheres mais maduras fossem mestras do bem e instruíssem às mais novas a serem boas donas de casa (Tt 2.3,4). Também, vemos Priscila junto com Áxila explicando o Caminho de Deus a Apolo (At 18.26); mas, mesmo assim, Tanto Paulo como Lucas não usaram o verbo διδασκω didaskö, mas os verbos instruir ao autocontrole σωφρονιζω söphronizö e explicar, expor εκτιθημι ektithëmi. Isto quer dizer que esse ensino é instrutivo, supervisionado e administrado por um επισκοπος episkopos. Então, Como Paulo, que havia acabado de falar que não permitia uma mulher exercer autoridade de homem, agora se referiria a mulheres para ensinar na posição de liderança? Seria não somente uma contradição, mas uma insensatez e contradição aberta de seus ensinos para qualquer que sejam as interpretações da passagem.

E que governe bem a sua própria casa, criando os filhos sob a disciplina, com todo respeito

Esta exigência de Paulo deveria fechar a questão, se não, vejamos: o verbo grego para governar é προιστημι proistëmi  usado sete vezes no NT para lideranças da igreja. Dessas sete, três passagens com particípio são usadas com o verbo no masculino como uma expressão adjetiva e qualitativa (1 Tm 5.17; Rm 12.8; 1 Ts 5.12) e as demais, pelo contexto dá para entender que é a homens. Isso se completa se entendermos que Paulo exige do Bispo e presbítero que governe bem a sua casa. Ele precisa Ter essa qualificação. Diante disso, há um sério problema à ordenação de mulheres, pois como adequar essa exigência que Paulo falou que é necessário a mulheres? Paulo não deixou espaço para uma condição se não for homem. Ele disse que é necessário que o bispo governe bem a sua casa. Como conciliar uma ordenação feminina com esse princípio, já que ele teria que ser analisado explcitamente, tendo o próprio Paulo ensinado que o homem é o lider da mulher desde a criação na própria epístola (1Tm 2.12,13)? Àqueles que aceitam a ordenação feminina, pelo menos, têm que admitir, se forem honestos, que Paulo está falando somente aos homens.

Pois se alguém não sabe governar bem a sua própria casa como governará a igreja de Deus?

Esta expressão é um forte argumento e muito contundente, pois quando ele faz essa pergunta retórica ele coloca todos aqueles que não governam bem e principalmente os que não têm o papel de governo de um lar ou casa como desqualificados para o episcopado. Seria uma falta de consenso dizer o contrário e uma quebra de princípio hermenêutico. Paulo usa uma expressão condicional de certeza e fato para usar uma pergunta retórica ει δε... πως... Paulo aqui usa a ajuda da lógica aristotélica em afirmar algo através de uma pergunta trazendo ao contexto da discussão: COMO ALGUÉM PODE CUIDAR DA IGREJA DE DEUS SE NÃO GOVERNA A SUA CASA? Pois se Paulo excluiu aqueles que não governam bem, seria lógico excluir aqueles que não têm o papel de governar. Mesmo assim se alguém refuta que Paulo está falando somente aos casados, como explicar a questão da autoridade, pois o bispo teria que ter autoridade a ponto de saber governar a sua própria casa. Como se iria observar isso em uma mulher? Realmente qualquer pessoa sensata já se convenceria que esse texto mão dá espaço à ordenação feminina, pois precisaria ter essa qualificação sendo demonstrada, mas como fazer isso em uma mulher? Isto quer dizer que o padrão de cuidado para a igreja é saber cuidar bem de sua casa, que exclui completamente as mulheres pelo contexto geral das Escrituras.

É necessário que ele tenha bom testemunho dos de fora

Essa expressão não faria sentido para esse assunto se não houvesse o pronome pessoal masculino αυτον auton (ele), sendo usado somente para ênfase. No texto Majoritário esse pronome aparece, ou seja na maioria dos manuscritos gregos. Isso demonstra mais claro ainda que a intenção de Paulo ao falar sobre o episcopado era à liderança masculina da igreja.

Conclusão

Minha intenção não foi de mostrar uma superioridade sexual, ou seja, dizer que os homens têm mais capacidade ou que não existam mulheres valorosas, santas e cheias do Espírito; mas de fazer-nos pensar mais sobre os papéis que Deus nos concedeu ao criar-nos e que os homens por causa do preconceito, pecado distorceram esse papel que se completam. Creio que se o objetivo de ambos forem a glória de Deus, então se alegrarão em cumprir a sua Palavra com zelo e dedicação. Buscar “fazer a vontade de Deus” fora da sua Palavra ou mesmo em dúvida desta é farisaísmo e está fora daquilo que Deus colocou como padrão aos seus servos. Entendo a tentativa das mulheres buscarem uma igualdade social e mostrarem seu valor, mas igualdade é diferente de papel. Deus nos fez iguais, mas com papeis diferentes, com características diferentes. Se fôssemos iguais não haveria complemento, mas por que somos diferentes, podemos dizer que precisamos um dos outros; homem e mulher se completando em amor na sua função que Deus lhes deu.

É bem verdade que existem mulheres em campos missionários que abrem igrejas, mas a falta de obreiros não nos dar base de passar por cima de princípios das Escrituras. Pode-se ter plenamente um entendimento de mulheres realizarem a ceia e batismo nesses lugares, mas que seja por falta de obreiros ou debaixo de uma autoridade maior masculina. Jesus deu ordenança a todos na grande comissão, mas não se pode excluir todo um contexto de liderança e advertências apostólicas com respeito a esse assunto, assim como o “fazer discípulos” inclui todo um contexto escriturístico para saber o que se vai ensinar.

Portanto, as pastoras modernas devem explicar exegeticamente esse texto, bem como a total falta de evidências entre os pais da Igreja do primeiro século da ordenação feminina.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A CRÔNICA DOS BICHOS




Aconteceu, numa floresta bem distante, um grande problema no reino animal. O Rei desse reino era um Leão chamado Lelu; seus assistentes eram os lobos, hienas, raposas e macacos, mas a maioria era composta de lobos, hienas e raposas.

Houve uma crise no reino depois que souberam que alguns lobos comeram algumas aves da propriedade da Sra. Tartaruga. O principal acusado foi um perigoso lobo que trabalhava no Reino do Leão Lelu. Esse lobo foi visto por um macaco pegando as aves da propriedade da Sra. Tartaruga e então esse lobo contou tudo que sabia aos papagaios, responsáveis pelas notícias na floresta. Com isso, por causa da grande repercussão na Floresta, foi sugerido abrir uma comissão de sindicância no parlamento do Reino do Leão Lelu. O Rei Lelu, junto com os outros bichos começaram a agir para que não tivesse essa comissão. Começou-se a ver benefícios a alguns bichos para que votassem contra, porém, por causa da grande repercussão dos papagaios, até os lobos, hienas e as raposas aceitaram.

Foi aberta a CPF (Comissão Parlamentar da Floresta). O problema era que no parlamento do Reino do Leão Lelu havia macacos, alces, renas; mas os lobos, que eram a maioria, queriam dirigir a própria CPF. Alguns macacos, que eram da oposição, diziam: “como pode isso?” Os lobos julgarem os próprios lobos? Isso não deu resultado. Escolheram para presidir a CPF lobos e como relatores, raposas. Os poucos macacos choravam de ver tanta disparidade e mediocridade, mas os lobos passavam a língua nos focinhos e as hienas riam do restante da bicharada. Foi aí que um lobo disse tudo que sabia, inclusive envolvendo o Rei Lelu. Enquanto isso, o rei Leão Lelu viajava pelo Reino, rindo para os burros e cavalos que não podiam pensar muito. Os burros e jumentos faziam passeata protegendo o Leão Lelu e a sua popularidade estava ainda alta.

O problema disso foi que, para surpresa de alguns bichos, o Leão Lelu não era bem um Leão, mas um lobo também vestido de Leão, pois as denuncias deram a entender que o Leão Lelu, pelo menos aceitou os outros lobos comerem as aves da Sra. Tartaruga.

Bem, o Reino ficou um caos de moralidade. Os papagaios falavam todo dia sobre a CPF que os lobos presidiam e, enquanto isso, os burros e jumentos, que eram muitos, prometiam votar ainda no Leão Lelu. O problema é que, antigamente, o reino era governado por uma Raposa e ela quase acabou com as árvores do Reino e então, a bicharada escolheu um Leão, mas no fundo era um lobo.
O Resultado é que a CPF, como se espera, foi um fiasco. Os lobos acusados fazem chantagem aos outros lobos e raposas buscando sair da punição do STF (Supremo Tribunal da Floresta), composto de Corujas, mas existiam também Urubus, pois estavam dando Habeas Corpus àqueles que eram acusados para falarem o que quiserem na CPF.

Diante desse desespero, o Leão Lelu pediu ajuda a Tigre Dente de Sabre e a um famoso Mamute, os animais mais antigos e ferozes os quais tentaram defender o Rei Leão Lelu.
Afinal, a bicharada não espera nada dessa CPF, mas pelo menos que os burros e cavalos saibam votar, pois o Leão Lelu diz que vai se candidatar a Rei novamente junto com alguns lobos, crocodilos ou até mesmo entre uma leoa.