quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O SIGNIFICADO DE “OBRAS MAIORES” DE JOÃO 14.12





Comentar um verso polêmico não é fácil. Principalmente quando estaremos discordando de vários eruditos, ou de uma grande maioria, mas quando se tem as regras, não se deve temer, apenas analisar racionalmente se de fato uma interpretação está correta ou não. A Hermenêutica é uma ciência e como tal é observável. Qualquer estudioso pode analisar se de fato uma interpretação está coerente ou não. Basta usar as regras. O problema da Hermenêutica bíblica é que, muitas vezes, os pressupostos são mais decisivos que as regras observáveis de interpretação. De certa forma, todos interpretam com um pressuposto, mas as regras hermenêuticas devem ser decisivas na interpretação, mesmo que lamentemos que tal interpretação seja assim.

O texto de Jo 14.12 é polêmico por vários motivos. Primeiro, por ele desafiar a tradição de alguns eruditos que têm pressupostos cessacionistas e não aceitam que milagres aconteçam nos dias de hoje. Segundo, por ele trazer uma promessa audaciosa do Senhor e Mestre amado Jesus. Na verdade, é um texto, no mínimo, impressionante. F. F. Bruce percebeu isso ao escrever em seu comentário: “isso deve ter causado [aos apóstolos] uma grande surpresa”(1). Saber que Jesus dá uma promessa de fazer obras iguais a que ele fez já é uma promessa audaciosa, quanto mais que ele afirma que os seus discípulos fariam “outras maiores” do que estas. Quaisquer que sejam essas obras, isso nos deixa espantados da graça e da grandeza dessa promessa. Terceiro motivo é devido aos exageros e distorções no meio neopentecostal. Essas distorções, práticas bizarras e absurdas no meio neopentecostal têm colocado muitos eruditos a pender para uma interpretação, mesmo que alguns problemas hermenêuticos sejam esquecidos ou não levados em conta.

Meu objetivo nesse texto é fazer uma análise exegética desse verso e demonstrar que algumas nuanças exegéticas são desprezadas ou despercebidas por alguns eruditos. Pretendo demonstrar que a intenção de Jesus era dizer que a expressão “obras maiores” inclui não somente o avanço do evangelho, mas principalmente milagres e maravilhas, e que retirar esse significado fere a hermenêutica bíblica. Pretendo também analisar essa interpretação à luz das coisas bizarras no meio neopentecostal dando uma palavra de alerta à igreja.

1. Análise Exegética de Alguns comentaristas de Jo 14.12

A maioria dos comentaristas, ao que parece, segue a mesma linha de raciocínio exegético. A diferença entre eles é que alguns interpretam o verso todo apenas para a extensão de conversão. Ou seja, eles interpretam que tanto as obras que Jesus fazia como as “obras maiores” dizem respeito à extensão e alcance do Evangelho. O outro grupo de eruditos interpreta que somente a expressão “as obras que eu faço” é relacionada aos milagres; quanto à expressão “obras maiores” diz respeito ao alcance do Evangelho. F. F. Bruce escreve em seu comentário desse verso o seguinte:
E o que eles [os discípulos] devem ter pensado quando ele continuou dizendo que, já que estava indo para junto do Pai, eles fariam coisas até maiores do que as que o viram fazer? Sua promessa acabou se concretizando: Nos primeiros meses depois da sua morte e ressurreição, mais pessoas tornaram-se suas seguidoras, através do testemunho deles sobre o que ocorrera durante o seu ministério pessoal na Galileia e na Judeia. Os discípulos sabiam muito bem que em si eles eram completamente incapazes de realizar algo desse feitio, mas ele passou a lhes falar da vinda do Parácleto, que os capacitaria e tornaria seu testemunho eficaz.(2)

Note que F. F. Bruce interpreta todo o verso como um alcance maior de pessoas para o Evangelho pelos apóstolos do que Jesus teve. Ele não toca em nenhum lugar do seu comentário em milagres e nem faz nenhuma análise exegética, exceto citando alguns versos sem influenciar em nada sua interpretação por causa deles.

Já William Hendriksen interpreta um pouco diferente. Ele escreve o seguinte em seu comentário:

Como isso pode ser verdade é explicado em 14.16ss. Como resultado de sua partida, os discípulos realizarão não só as obras que Jesus estava realizando durante todo o tempo (milagres no reino físico), mas outras (obras) maiores que essas, ou seja, milagres no reino espiritual. Ver sobre 5.20, 21, 24. As obras de Cristo consistiram em grande parte de milagres no reino físico, realizados principalmente entre os judeus. Quando agora fala de obras maiores, ele está com toda probabilidade pensando naquelas obras em conexão com a conversão dos gentios. Essas obras eram de caráter mais elevado e maiores em escala.(3)
Podemos ver claramente que a interpretação de Hendriksen é diferente de F. F. Bruce. Ele faz diferença e interpreta que a promessa que inclui os milagres é somente para a expressão “obras que eu faço”. Já a expressão “obras maiores”, Hendriksen interpreta como a conversão em grande escala dos gentios. De qualquer forma, Hendriksen já deixa aberto para que milagres estejam na promessa do verso, mesmo que ele não entre em detalhes se eles podem ser realizados até os nossos dias.

Calvino interpreta dessa maneira também. Ele escreve em seu comentário ao evangelho de João:
Muitos estão perplexos com a afirmação de Cristo, que os apóstolos fariam obras maiores do que ele tinha feito. Eu tenho passado por várias outras respostas que foram normalmente dadas com respeito a isso, e satisfaço-me com esta simples resposta. Primeiro, precisamos entender o que Cristo pretende dizer, ou seja, que o poder pelo qual ele prova ser o Filho de Deus, está tão longe de ser confinado à sua presença física, que deve ser claramente demonstrado por muitos e impressionantes provas, quando ele está ausente. Agora, a ascensão de Cristo foi logo depois, seguida de uma maravilhosa conversão mundial, no qual a divindade de Cristo foi mais poderosamente demonstrada que enquanto ele residia entre os homens. Portanto, nós vemos que a prova de sua divindade não foi confinada à pessoa de Cristo, mas foi difundida através de todo o corpo da igreja.(4)

Notemos que apesar de que Calvino não tenha sido mais explícito que Hendriksen, eles possuem a mesma conclusão. Para Calvino, a divindade de Jesus Cristo não estaria confinada à sua presença física, mas seria demonstrada através do que chamou de “impressionantes provas”, mesmo diante de sua ausência. No entanto, Calvino passa a destacar que a divindade de Cristo foi “mais poderosamente demonstrada” pela “maravilhosa conversão mundial” depois da sua ascensão. Aqui, Calvino relaciona as mesmas obras de Jesus Cristo ao que ele chamou de “impressionantes provas”. No entanto, à expressão “obras maiores” ele relaciona à grande conversão depois da ascensão de Cristo, começando no pentecostes.

Outro erudito a comentar de uma forma mais equilibrada, em minha opinião, é Werner de Boor. Ele afirma assim em seu comentário:

De acordo com At 5.16; 9.36-43; 19.11ss; Tg 5.14 os apóstolos também realizam as obras que Jesus realizou, e ainda o fazem em proporção maior do que ele, individalmente, podia fazê-las. Contudo, a verdadeira “obra” de Jesus reside em seu envio como Salvador do mundo. Como era pequeno o sucesso visível destinado à atuação de Jesus! Justamente agora, por ocasião da despedida de Jesus, isso pode ser visto com clareza assustadora. E como isso muda completamente no dia do Pentecostes! Nele Pedro pode realizar uma obra que com os três mil salvos transcende em grandeza a tudo que Jesus fez durante sua permanência na terra.(5)
Boor demonstra em seu comentário que os apóstolos fizeram os mesmos sinais que Cristo fez e ainda maiores e dá as referências, inclusive de At 19.11 no episódio que pegam lenços e aventais de Paulo. No seu comentário ele interpreta que as duas expressões falam dos sinais e maravilhas, mesmo que admita que o maior sinal seja o da conversão da pregação de Pedro no Pentecostes e o alcance dos gentios ao Evangelho.

O que nos chama atenção é que nenhum dos comentaristas citados faz uma análise exegética detalhada para chegar às suas conclusões. Mesmo que se leve em conta que quando se faz um comentário, não se tem a intenção de se deter em um verso apenas, exceto se esse for considerado bem polêmico pelo seu autor e exija mais atenção na sua interpretação. Em minha opinião, isso seria muito importante para esse verso diante de uma promessa tão excelente.

2. Promessa, não ordenança

Antes de entrar na análise exegética propriamente dita do verso, precisamos entender que Jesus não está dando uma ordenança, mas fazendo uma promessa geral. A diferença é que a promessa depende de Deus realizar, a ordenança, somos nós que temos que realizar. A promessa pode ser para alguns ou para um tempo determinado, exceto, se for especificado que é para todos ou demonstrar que é para todas as épocas; a ordenança é para todos em todas as épocas. Quando se trata de um ensinamento de Jesus aos seus apóstolos e discípulos, diz respeito à sua Igreja, pois os apóstolos ensinaram e demonstraram isso. Notemos que no sermão da Montanha Jesus tem por objetivo de ensinar, a priori, seus discípulos (Mt 5.1,2). É um erro grotesco de interpretação se alguém afirma que os ditos de Jesus foram somente para eles sem uma base para tal afirmação. Por exemplo, ninguém precisa ir hoje em dia a algum cenáculo e pegar o primeiro jumentinho que achar porque o contexto deixou claro que aquela ordenança era para aqueles discípulos somente (Mc 11.1,2). Porém, não podemos dizer isso para o Sermão da Montanha e nem para as palavras de Jesus em geral. Principalmente, do capítulo 14 de João. Portanto, todos os ensinamentos de Jesus são preciosos e cheios de autoridade, merecendo a nossa atenção máxima.

No caso do verso de Jo 14.12 trata-se de uma promessa porque Jesus não está usando o verbo grego no imperativo, mas no futuro do indicativo do verbo ποιεω / ποιησει / “fará”. Como promessa e tratando-se de milagres, implica em uma total direção divina para que assim aconteça. Sabemos que essa promessa não se manifestou a todos os apóstolos, mesmo para quaisquer que sejam a interpretação de “obras maiores”. Assim como a promessa de Marcos 16.20 que o verbo está no futuro e que não significa que acontecerá com todos. Nessa expressão, seria como se Jesus dissesse que haveria algumas maravilhas feitas pelos seus apóstolos e sua igreja que ultrapassariam as suas. Jesus reconhece a continuação dos milagres e maravilhas pela sua igreja, mesmo entre aqueles que não eram de fato convertidos quando afirma:

Mateus 7:22 22 Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres?

Jesus como o Eterno Filho de Deus falou algo profético que os sinais e milagres ainda iriam continuar na sua igreja. Mateus usou a expressão ου... τω σω ονοματι δυναμεις εποιησαμεν traduzida na RA para “em teu nome não fizemos muitos milagres?” e na RC “em teu nome, não fizemos muitas maravilhas?”. O verso está direcionado pelo advérbio de negação ου demonstrando que eles de fato fizeram isso. A palavra usada por Mateus δυναμεις traduzida para “poderes, maravilhas” é mesma palavra usada para os milagres de Jesus e dos apóstolos (Mt 11.20, 21; 13.54; 14.12; Mc 5.30; At 6.8; 19.11).

Tanto Calvino como Hendriksen admitem que os milagres somente dizem respeito à expressão que Jesus usou “obras que eu faço”, mas isso não deixa de trazer uma dificuldade. Fazer as mesmas obras de Jesus é, no mínimo, algo fantástico. Por isso que Jesus começa esse verso com o famoso αμην αμην / “em verdade, em verdade”. Mesmo assim, esse fazer as obras de Jesus não significa fazer todos os mesmos milagres de Cristo, pois nenhum apóstolo andou sobre as águas e nem transformou água em vinho. Àqueles que interpretam que é apenas a extensão do Evangelho e conversão, precisam admitir que os apóstolos não fizeram todas as coisas que Cristo fez nessa área. É difícil dizer que alguém pregou o evangelho como Cristo (Jo 7.45,46) ou que trouxesse quase uma cidade toda para ouvi-lo sem marketing ou propaganda de qualquer tipo, mas somente pelas suas Palavras (Jo 4.28-30).

Portanto, quando Jesus profere essas palavras, ele quer demonstrar que os apóstolos e a sua igreja farão coisas semelhantes a que ele fez, mesmo que isso não signifique que teriam que fazer todas as mesmas coisas.

3. O que significa a expressão “obras maiores”

3.1. O contexto imediato

A expressão “outras maiores fará” vem da tradução και μειζονα τουτων ποιησει. Na verdade, o adjetivo comparativo μειζονα está na mesma declinação, gênero e número do substantivo τα εργα / “as obras” demonstrando que se refere diretamente a ele. Portanto, esse “maiores” é uma qualificação de obras que foi citada anteriormente. Não há base para afirmar que a qualificação μειζονα, traduzida para “outras maiores” corresponda a outro sentido como Hendriksen afirma claramente em seu comentário. A dificuldade de pensar assim é exatamente porque o adjetivo de comparação corresponde a τα εργα “as obras”. Isso dá a entender que corresponde ao mesmo tipo de obras citadas por Jesus que ele fazia, só que maiores. Para ilustrar, imaginemos uma paráfrase de outra forma: “João fará as coisas que eu faço no meu serviço e maiores que eu ele fará”. Isso implica dizer que João fará maiores dentro do entendimento qualificativo da idéia de coisas no meu serviço que foi dito. Portanto, interpretar separadamente as expressões é esquecer essa nuança exegética simples, diga-se de passagem.

Uma das regras básicas de Hermenêutica é analisar o contexto imediato de um texto. O contexto dessa expressão deixa-nos concluir que Jesus se referia principalmente a obras miraculosas. Notemos que vem de um diálogo entre Filipe e Jesus. Filipe pede a Jesus para mostrar para ele o Pai e isso bastaria (Jo 14.8). Jesus responde que quem o vê, vê também o Pai e evoca que ele faz as mesmas obras do Pai (Jo 14.11). Aqui Jesus está falando de obras miraculosas, pois fica difícil relacionar somente a extensão de evangelização para o Pai. Jesus está falando dos sinais miraculosos e de milagres, principalmente. Essas “mesmas obras” no verso 11 demonstram obras de maravilhas. Isso é afirmado, inclusive por Hendriksen analisando esse verso: “Mas se isso lhes fosse difícil, que então cressem ao menos por causa das próprias obras. Essas obras têm valor comprobatório. Sobre isso, ver [Jo] 9.31-33; 10.37, 38; 11.39-44; 20.30, 31; cf. Atos 2.22; 4.31; 2 Coríntios 12.12”.(6)

Note que as referências de Hendriksen incluem demonstração de maravilhas e milagres. Se as obras do verso 11 são interpretadas como obras miraculosas, fica difícil interpretar o verso 12 diferente, pois existe o artigo definido τα εργα, que demonstra que essas obras já foram faladas anteriormente no verso 11. E se essas obras com o artigo definido correspondem ao verso 11 como milagres, conclui-se, então, que o adjetivo μειζονα / “maiores” corresponde a milagres também. Isso traz um silogismo exegético dessa maneira:

Τα εργα (v.11) => Τα εργα (v.12) => μειζονα (7)

Portanto, o contexto imediato dá-nos base para interpretar que na expressão “obras maiores” estejam incluídas, principalmente os milagres e maravilhas.

3.2. O sentido de εργα / “obras” no evangelho de João

É necessário analisar também que João usa em muitas passagens de seu evangelho a palavra “obras” relacionada no contexto de curas miraculosas, incluindo em algumas passagens, a conversão. Nós podemos ver isso nas seguintes passagens (Jo 5.20; 5.36; 6.20; 7.3; 9.3; 9.4; 10.25; 10.32; 10.37; 14.11; 15.24).

Notemos que em Jo 9.3, 4 o evangelista usa a palavra τα εργα / “as obras” tanto para milagres (v.3) como para no sentido de evangelização (v.4). As obras de Deus que Jesus falou incluíam, principalmente, a cura do cego de nascença, pois logo em seguida Jesus o curou. Mesmo assim teve uma significação de alcance do Evangelho porque Jesus o salvou e demonstrou isso quando ensinou os discípulos nessa ocasião (Jo 9.35-41).

Pela análise das palavras no restante do Evangelho também se pode perceber que Jesus tinha a intenção de falar sobre milagres e maravilhas.

3.3. O sentido de μειζονα / “maiores”

João 5:20 20 Porque o Pai ama ao Filho, e lhe mostra tudo o que faz, e maiores obras do que estas lhe mostrará, para que vos maravilheis.

João usa a expressão grega nessa passagem com uma semelhança de chamar atenção com esse mesmo adjetivo, com as mesmas classificações sintáticas e morfológicas que usou em Jo 12.14, inclusive qualificando a mesma palavra εργα.

Ο γαρ πατηρ φιλει τον υιον, και παντα δεικνυσιν αυτω α αυτος ποιει, και μειζονα τουτων δειξει αυτω εργα, ινα υμεις θαυμαζητε

Notemos que o contexto é da cura do paralítico do tanque de Bestesda e que Jesus está falando de obras no sentido de maravilhas e curas e não de extensão do Evangelho. Por isso que ele fala que eles iriam se maravilhar com as μειζονα τουτων “maiores que estas” que ele iria fazer. O sentido de μειζονα / “maiores” aqui não é de extensão, mas obras mais extraordinárias, por isso que os discípulos iriam se maravilhar. O verso seguinte também explica que Jesus quer falar é de obras miraculosas, pois fala do Filho do Homem ressuscitar a quem quer (Jo 5.21). Se o sentido em João 5.20 é de maiores em essência de milagres, por que interpretar Jo 14.12 somente como extensão de conversão dos discípulos?

Hendriksen, fazendo uma paráfrase desse verso, escreve:

A operação de milagres – como o da cura do homem no tanque de Betesda – é parte desse plano eterno; e maiores obras do que essas curas de pessoas enfermas ele (o Pai) lhe (o Filho) mostrará – ou seja, ressuscitará pessoas mortas e julgará todas as coisas -, para que vocês, já admirados por causa do milagre do tanque, realmente fiquem maravilhados. Pois assim como o Pai ressuscita os mortos e lhes comunica vida (ou seja, os que estão espiritualmente mortos, e, também, no dia do julgamento, os mortos físicos), assim também o Filho (que é igualmente soberano) comunica vida a quem quer.(8)
Hendriksen reconhece que Jesus estava falando de milagres maiores e relaciona isso também ao verso posterior. Na verdade, aqueles que advogam essa interpretação não fazem de uma análise exegética, mas por que eles imaginam que é muito difícil alguém fazer algo maior que Jesus fez. Porém, não analisam que fazer qualquer coisa semelhante a Jesus Cristo é uma grande dificuldade e exige fé, mesmo na evangelização, como demonstrei anteriormente. Precisamos entender também que quando acontece esses milagres é o próprio Jesus que está fazendo, como bem escreveu Calvino em seu comentário: “no qual a divindade de Cristo foi mais poderosamente demonstrada que enquanto ele residia entre os homens”(9). Então, não devemos temer.

Portanto, esse texto de Jo 5.20 é muito esclarecedor, em minha opinião. O adjetivo grego μειζονα / “maiores” é usado na mesma forma que é usado em Jo 14.12 e significa maiores em sinais extraordinários e não em extensão de evangelização. Exegeticamente é decisivo e legítimo interpretar esse adjetivo como obras no sentido de maravilhas, principalmente, devido ao contexto imediato e quando se relaciona ao substantivo εργα no todo do livro.

4. O testemunho prático desse verso nos atos dos apóstolos

É importante visualizarmos, agora, se aconteceu de fato o cumprimento dessa promessa nos atos dos apóstolos. Isso é muito importante, pois se não aconteceu com os apóstolos, ficaria difícil entender que poderia acontecer com a igreja depois.

Quanto aos mesmos milagres de Jesus, temos muitos exemplos (At 2.43; 5.16; 6.8; 8.6,13; 14.3; 15.12,19), mas podemos perceber algumas maravilhas e milagres que os apóstolos fizeram que poderíamos dizer que ultrapassou o que Jesus fez:

4.1. O lugar tremeu (At 4.29-31)

Esse episódio é muito interessante. Não há uma única descrição apostólica que algum lugar tremeu depois da oração de Jesus. Houve um terremoto fantástico e todos foram cheios do Espírito Santo. Esse fato, ao meu ver, está acima do que Jesus fez no sentido de oração.

4.2. A sentença da morte de Ananias e Safira (At 5.1-12)

Realmente esse episódio é maravilhoso e cheio de autoridade que Jesus não teve oportunidade de usar na sua humilhação enquanto aqui na terra. Pedro com muita autoridade deu a sentença a Ananias e Safira de morte. Acredito que não houve uma demonstração tão poderosa como essa entre os apóstolos. Por isso trouxe muito temor.

4.3. A cura pela sombra de Pedro (At 5.12-16)

Esse milagre realmente é, no mínimo, novo em toda a Bíblia. As pessoas se colocavam onde Pedro passava e a sua sombra os curava. Isso nunca acontece no ministério de Jesus e realmente é fantástico isso.

4.4. Anjos abrem as portas da prisão (At 5.17-20; 12.6-12)

A operação dos anjos com os apóstolos foi algo fantástico que não aconteceu com Jesus, pois embora que o ministério de Jesus tenha sido bem monitorado por anjos, mas a forma dos anjos agiram com os apóstolos, em minha opinião, foi maior, pois abriram as prisões, falaram claramente e até os guiaram para fora (v.19).

4.5. O arrebatamento de Filipe (At 8.38-40)

Esse episódio é maravilhoso e com certeza deve nos fazer pensar que esse sinal Jesus nunca fez. Filipe foi arrebatado para outro lugar de uma forma milagrosa. Esse episódio é fantástico e muito maior do Cristo fez.

4.6. A cegueira de Elimas, o mágico (At 13.5-13)

Outro sinal fantástico foi exatamente a autoridade de Paulo ao falar a Elimas, o mágico que ele ficasse cego. Essa maravilha foi maior do que Jesus fez, pois isso não aconteceu com Jesus. Sinais, assim, viam-se somente no VT (2Rs 6.17,18). Por isso que o texto afirma que o procônsul ficou maravilhado.

4.7. Os lenços e aventais de Paulo (At 19.11,12)

O próprio texto afirma que Paulo fazia milagres extraordinários. A ênfase no texto grego é grande no verso 11 δυναμεις τε ου τας τυχουσας / “maravilhas jamais encontradas”. O verbo grego τυγχανω traduzido na RA para “extraordinários” está no particípio aoristo. Isso quer dizer que jamais foi encontrado, numa ação que não se repetiu. Eram milagres tão extraordinários que o autor usou uma redundância, pois a própria palavra δυναμεις quer dizer algo extraordinário, mas Lucas ainda colocou que foi jamais visto. O próprio texto afirma que o que estava acontecendo com Paulo era algo que Jesus não fez, pois foram maravilhas jamais encontradas e suplantou o que o Mestre fez.

4.8. Paulo escapou da víbora (At 28.3-6)

Nessa passagem Paulo foi picado por uma víbora. Ao que parece, os habitantes conheciam que Paulo iria morrer em poucas horas, pois esperavam por isso. No entanto, Paulo simplesmente jogou a víbora no fogo. Esse sinal, além de ser maravilhoso e não ter acontecido com Jesus demonstra algo fantástico, pois os habitantes da ilha achavam que ele era um deus.

5. As coisas bizarras das igrejas neopentecostais em relação a esse verso

Temos que admitir que esse verso, como toda promessa de Deus pode ser mal interpretado. Hoje, nós temos vários exemplos de igrejas que encenam coisas estranhas e bizarras. É unção para todo gosto. Unção do Leão, dos quatro seres viventes, do pião, etc. Precisamos admitir que todas as maravilhas que os apóstolos fizeram foram extraordinárias, com uma diferença: Não foram forjadas pelos apóstolos. Nos exemplos das maravilhas, sinais e curas dos apóstolos não há exemplo de que partiu dos apóstolos, mas de Deus. Ou seja, claramente as pessoas se maravilhavam porque viam que foi Deus que tinha feito e não tinha espaço para pensarmos que seria o homem e suas ricas criatividades e influências do seu coração caído (Jr 17.9).

Os exemplos feitos na Bíblia de cenáculo ter um terremoto, pessoas morrerem, Elimas ficar cego, Filipe ser arrebatado de um lugar para o outro não dão espaço em nenhuma hipótese para que pensemos que tenha sido um homem. No entanto, se alguém imitar os animais que os profetas viram como uma visão simbólica, a chamada “unção dos quatro seres viventes” podemos com toda razão duvidar se essas pessoas estão sendo usadas por Deus; ou até mesmo imitar um animal como o leão que foi colocado na Bíblia como um símbolo de Cristo e de Satanás (Ap 5.5; 1Pe 5.8). Essas imitações são completamente duvidosas e dignas de nossa dúvida, já que não vemos uma ação maravilhosa, mas infantil e humana.

Não obstante a isso, precisamos ter todo cuidado em não desprezar as coisas fantásticas que vêm de Deus em nome de uma má análise das imaturidades feitas pela Igreja. Paulo, quando escreveu à igreja de Corinto, ele encontrou uma igreja criança e cheia de divisão por causa dos dons, mas Paulo não negou os dons. Ele escreveu ensinando a Igreja usar esses dons para a glória de Deus.

Vemos nas histórias dos avivamentos coisas extraordinárias que nunca aconteceram como nos avivamentos nas ilhas Fiji e entre os Zulus. Coisas que não se tem como dizer que tenha sido um homem fazer isso. A mesma coisa quando pessoas caíram agarrando-se em colunas pedindo misericórdia a Deus para não irem ao inferno como aconteceu na pregação de Jonathan Edward. Essa ação só pode vir de Deus, pois, pelas Escrituras somente o Espírito Santo pode convencer o homem do pecado. No entanto, se várias pessoas começam a rir num culto e dizem que é uma operação de Deus como chamam “unção do riso”, devemos, com toda razão, duvidar, já que o riso é completamente influenciável e quando estamos diante da presença de Deus, somos convencidos de nossos pecados e insuficiência (Is 6.5).

Portanto, as coisas bizarras não devem nos deixar incrédulos para a promessa de Jesus em Jo 14.12.

CONCLUSÃO:

Meu objetivo foi analisar de uma forma mais profunda o verso de Jo 14.12, pois muitos eruditos interpretam esse verso sem levar em conta alguns princípios hermenêuticos.

Sabemos da grande piedade e zelo de alguns em ter cuidado com respeito aos milagres e sinais; porém, precisamos pensar que se somos mensageiros da Palavra de Deus não devemos procurar agradar a homens, mas a Deus que nos chamou com santa vocação.

Entendemos que a solução para os abusos da igreja não é fugir ao que a Escritura nos diz, mas, ao contrário, devemos buscar uma interpretação correta e ensinar aos líderes cristãos da igreja a sua verdadeira interpretação.

Sola Deo Gloria.

(1) BRUCE, F. F. Introdução e Comentário: João. São Paulo: Vida Nova, 2004, p. 258.
(2) Ibid.
(3) HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento: João. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 660.
(4) CALVINO, John. Commentary on John - Volume 2. Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 1999, p. 50-51.
(5) BOOR, Werner. Evangelho de João II – Comentário Esperança. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2002, p. 88.
(6) HENDRIKSEN, Op. cit., p. 659.
(7) Por causa das limitações de formato de fonte na internet, infelizmente, eu preferi colocar dessa maneira. O ideal seria se colocasse em diagrama exegético.
(8) Ibid., p. 263.
(9) CALVINO, op., cit.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

LENÇOS, AVENTAIS E COPOS D’ÁGUA



Facilmente o povo de Deus interpreta mal as suas maravilhas e os seus feitos extraordinários caindo em idolatria. No VT o povo idolatrou a serpente de bronze que Deus tinha mandado Moisés fazer para que o povo fosse salvo das picadas das serpentes (Nm 21.7-9). O povo não entendeu que Deus queria passar apenas uma mensagem de expiação: eles teriam que ter um substituto que se tornaria pecado no lugar do povo (Jo 3.14,15; 2Co 5.21). A serpente já trazia uma imagem de tentação e pecado demonstrado por Moisés em Gênesis e alguém deveria ser punido substituindo aqueles que olhassem para a cruz com fé à semelhança da serpente de bronze.

Segundo o texto de 2Rs 18.4, os israelitas passaram a adorá-la dando-lhe até um nome de Neustã. Além deles não entenderem a mensagem de Deus, adoraram a própria mensagem, pois apesar de que Deus tenha mandado fazer a serpente de bronze para ser um meio de cura das picadas das serpentes, isso não os deu base para fazerem da própria serpente um meio de cura, nem para lhe darem um nome adorando-a, pois aconteceu isso num episódio especial.

Algumas igrejas nos nossos dias têm caído na mesma confusão, só que dessa vez é uma má interpretação de um episódio que aconteceu numa única vez com Paulo em Atos:

Atos 19:11-12  11 E Deus, pelas mãos de Paulo, fazia milagres extraordinários,  12 a ponto de levarem aos enfermos lenços e aventais do seu uso pessoal, diante dos quais as enfermidades fugiam das suas vítimas, e os espíritos malignos se retiravam.

Com base nesse texto, pastores, bispos e apóstolos distribuem toalhas e lenços nos cultos, mandam colocar copos de água encima da TV para que sejam curados, ungem celulares e até lubrificantes íntimos (por incrível que pareça). Afirmam que, assim como aconteceu com Paulo, as pessoas deveriam esperar a mesma coisa dos objetos que forem abençoados por esses obreiros. Já vi depoimentos de pessoas na TV que andam com a sua toalhinha para qualquer imprevisto, fazendo desta um tipo de talismã. Já fui pessoalmente a uma principal igreja que oferece toalhas e lenços. Fiquei impressionado que essas toalhas são vendidas e aquelas que são distribuídas são para aqueles que ofertam uma quantia limite. Dizem eles que não é uma venda, mas uma gratificação àqueles que ofertam a quantia que falam. Isso apenas tem servido para que igrejas aumentem suas finanças em nome desses “lenços sagrados” tendo um objetivo financeiro e desviando a glória de Cristo para esses objetos.

Precisamos interpretar esse texto com muita cautela, percebendo qual a intenção de Lucas ao escrever essa passagem. Concordamos perfeitamente que Lucas tinha intenção doutrinária, mas o livro de Atos é escrito na forma de uma narrativa e precisamos ter todo cuidado ao interpretá-lo. Por exemplo, diante de uma narrativa precisamos ver vários aspectos importantes, respondendo algumas perguntas do texto:

1. O que o contexto e a análise textual poderiam nos dizer sobre essa passagem?


O contexto é de que Deus operava maravilhas através das mãos de Paulo jamais vistas e demonstradas. A expressão que a Bíblia RA traduziu como “extraordinários” é uma expressão que literalmente quer dizer “[milagres] jamais encontrados” “ou tas tychousas” (no particípio aoristo - passado completo). Essa expressão dirige a qualificação da palavra “milagres” dynameis, sendo uma característica de Lucas, pois além dele ser o que mais usa esse verbo, ele é o único que o usa no particípio.

A ênfase de Lucas desse episódio como algo extraordinário foi muito grande. Além de escrever a palavra “dynameis” (poderes, milagres), ele os qualificou “jamais encontrados”. A própria palavra em si dynameis já demonstra algo sobrenatural e maravilhoso. Mesmo assim, ele enfatizou ainda que esses milagres eram “jamais encontrados”. Isso quer dizer que Lucas queria enfatizar uma ação extraordinária de Deus. Sendo uma ação extraordinária e específica de Deus, não é base para repetir como uma liturgia na igreja. Da mesma forma que o pedido de Pedro para que o coxo olhasse para ele não é base para que alguém seja curado olhando para os nossos olhos nem que façamos o “culto da sombra” para curas, já que a sombra de Pedro também fazia maravilhas (At 5.15). Da mesma forma também devemos ver a unção de Jesus com lodo nos olhos do cego de nascença. Ela não é base para nós fazermos a mesma coisa, programando o culto da unção com lama, da sombra ou do “olhar de Pedro”. Essas ações foram extraordinárias e o todo da Bíblia não dá base para usarmos como liturgia.

2. Lucas e Paulo tiveram a intenção de fazer desse texto uma liturgia de cura para a igreja?

Precisamos notar que algumas passagens de Atos são apenas descritivas por não haver base no contexto do próprio livro de Atos ou em outras passagens da Bíblia, já que uma regra básica de Hermenêutica é que a Bíblia explica a própria Bíblia. Por exemplo: a escolha de Matias usando sorteio (um tipo de bingo da época) (At 1.23-26) não demonstrou que fosse uma forma que a Igreja deveria ter para escolha de presbíteros ou líderes. Lucas demonstrou que foi somente naquela ocasião, pois em outras passagens ele afirma que Paulo fazia eleição de presbíteros (At 14.23) e ensinou a Timóteo que houvesse critérios objetivos sem ao menos falar em sorteios (1Tm 3.1-7). Por isso, essa passagem não demonstra que a igreja deva fazer a mesma coisa.

Outra observação importante é que tanto no caso de Paulo como no de Pedro nenhum dos dois teve a iniciativa de fazer isso, mas foram as pessoas que tiveram a iniciativa de pegar os lenços da cabeça de Paulo ou o seu avental de fazer tendas, ou de ficarem na sombra de Pedro. Isso significa que não foi uma ação planejada, forjada, preparada pelos apóstolos Pedro e Paulo. No entanto, isso é totalmente diferente que os obreiros de algumas igrejas fazem hoje em dia.

 3. A Bíblia traz alguma outra passagem que demonstre que a igreja deva usar essa prática?

Precisamos observar que em nenhuma outra passagem da Bíblia ensina ou insinua que os apóstolos ou cristãos faziam isso como uma forma de Deus agir para curar ou fazer outra coisa.

De uma forma diferente, a unção dos enfermos com óleo que Marcos registrou nos evangelhos: “expeliam muitos demônios e curavam numerosos enfermos, ungindo-os com óleo” (Mc 6.13) pode ser confirmada como uma prática na igreja porque Tiago ensinou que se devia usar: “Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor (Tg 5.14). O texto de Tiago dá base hermenêutica para que a igreja use em oração por enfermos, mas mesmo assim não dá base para se vender vidrinhos de azeite como sagrados. O texto afirma que é na igreja diante dos presbíteros.

4. Por que Paulo não ensinou isso às igrejas, principalmente, quando falou dos dons?

Outro fator importante é se essa prática fosse para ser usado na igreja, Paulo teria falado dela quando ensinou sobre os dons de cura ou maravilhas. Porém, Paulo entendia que o que aconteceu foi uma maravilha extraordinária (assim quer dizer o original) e que não era um princípio para que a igreja fizesse novamente.

Na verdade, por trás dessas unções de lenços, toalhas e copos d’água está um profundo espírito de avareza e aproveitamento da fé dos incautos. Fazem isso como uma forma de chamar pessoas à igreja e receberem ofertas, pois a toalha ou o lenço somente são dados àqueles que ofertam. Deus pela sua misericórdia tem demonstrado seu poder mesmo assim, mas isso demonstra uma baixa espiritualidade, tanto daqueles que promovem como daqueles que usufruem deixando cada vez mais as pessoas ao engano dos seus corações.

Outro problema é que quando isso acontece como uma prática litúrgica na igreja o desvio da fé em Cristo é desviado para o objeto como a serpente de bronze. A pessoa não confia que será Deus que fará o milagre, mas a toalha ungida, o copo d’água que foi abençoado. Com isso, Deus é apenas um detalhe. O centro é o apóstolo, bispo, pastor que ungiram ou oraram ou o próprio objeto. Daí as pessoas não precisam ter o compromisso de arrepender-se de seus pecados, buscar a presença de Deus porque eles já têm a toalhinha abençoada, o lenço ou um copo d’água que o espera encima da TV abençoados pelos obreiros.

Mas alguém pode argumentar que podemos ter isso também para o óleo quando Tiago afirma que os presbíteros devem ungir os enfermos. O óleo como um símbolo da unção do Espírito Santo traz uma obediência demonstrando que a cura é uma ação divina na igreja ordenada por ele. O centro é o Espírito Santo e foi ele que inspirou a sua Palavra. Todavia, Tiago não falou em abençoar o óleo como sendo um talismã, mas teriam que chamar os presbíteros para que orassem ungindo os enfermos. Diferente do copo d’água ou qualquer outra coisa que Deus não ordenou, ficando o peso sobre aqueles que oram.

Portanto, quero terminar dizendo que não há base para essa onda de superstição de lenços, toalhas e aventais ungidos. Precisamos ter cuidado com aquilo que a Bíblia não ensina e não promete para que não haja frustração. Depois, cuidado com o copo d’água, pois ele pode cair e danificar a sua TV.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

ESTÁ CERTO DIZER: “O DIABO ESTÁ DEBAIXO DOS NOSSOS PÉS”?





            É muito comum ouvir essa expressão: “o diabo já está debaixo dos nossos pés”. Geralmente, quando se canta algum tema sobre batalha espiritual, ouve-se exatamente isso.
            Essa expressão implica numa vitória final e absoluta sobre o inimigo. Era uma prática dos reis vencedores colocarem os seus inimigos como tapete e pisá-los para humilhá-los. Eu gostaria de analisar essa expressão à luz das Escrituras, tentando levar-nos a pensar de uma forma crítica e levando em conta a Hermenêutica e a Exegese. Isso é importante porque se interpretarmos as Escrituras erroneamente poderemos ter conseqüências sérias porque Deus tem compromisso é com a sua Palavra e não com as suas distorções.
            Portanto, o meu objetivo nesse texto é analisar essa expressão e as conseqüências de sua distorção. Pretendo analisar a posição de Satanás diante de nós na batalha espiritual, depois fazer uma análise exégetica de Ef 1.20-23 e Lc 10.19 onde muitos se baseiam para essa expressão e, no final, o que consiste a nossa vitória sobre Satanás.

1.      A posição de Satanás diante de nós

A Bíblia nos alerta que estamos diante de uma luta espiritual e ela não demonstra que esse adversário está debaixo de nossos pés, no momento presente, mas como se estivéssemos numa luta corporal frente a frente. O apóstolo Paulo ensina aos efésios:

porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes (Ef 6.12).

      Paulo usa o substantivo grego palë para luta na expressão “porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne”. Segundo Thayer´s Greek Lexicon esta palavra era usada para uma espécie de luta corporal que um dos adversários venceria quando derrubasse o outro. O que chamamos de uma luta livre. Torna-se óbvio que a posição de Satanás não é debaixo de nossos pés, mas numa posição de uma luta que precisamos estar alertas e em vigilância.

Calvino comenta essa palavra em seu comentário de efésios demonstrando exatamente isso numa nota de rodapé:

Plutarco nos fala, (Symp. 1. 2., Page 638,) que a luta livre era a mais hábil e sutil de todos os jogos antigos e que o nome dela palë era derivado de uma palavra que significa derrubar um homem no chão por um golpe armado e habilidade. Está claro que pessoas que praticam esse esporte precisam usar de muitas investidas, voltas e mudanças de postura, os quais eles fazem uso para vencer e derrubar seus adversários. E é com grande justiça que um estado de opressão é comparado com isso; desde que são muitas as artes, levantamento de terrores do mal mundano, o amor natural que os homens têm para vida, liberdade, fartura e os prazeres da vida por um lado; por outro lado, que o diabo faz uso de enganos e armadilhas.[1]

      Para Calvino, o texto demonstra que o diabo está em plena atividade tentando nos derrubar em suas armadilhas e investidas numa luta livre, pois é isso que o texto quer dizer. Isso demonstra que o diabo não está debaixo de nossos pés. Essa expressão demonstra um término de uma batalha em vitória. Ao contrário disso, o diabo está numa posição de luta livre conosco palë. Cara a cara. Não estamos numa posição de conforto contra o diabo. Se fosse assim, Paulo não aconselharia a usarmos a armadura de Deus (Ef 6.13) e que deveríamos embraçar o escudo da fé contra as setas inflamadas do Maligno (Ef 6.16).
      O apóstolo Pedro demonstra que o diabo não está debaixo dos nossos pés, mas numa posição contínua de ataque ao nosso redor como um leão:

8 Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar;  9 resisti-lhe firmes na fé, certos de que sofrimentos iguais aos vossos estão-se cumprindo na vossa irmandade espalhada pelo mundo. (1Pe 5.8,9)

      Pedro, primeiramente adverte que devemos ser sóbrios e vigilantes Nëpsate gregorësate. Ele fala o motivo por que deveríamos estar assim: o diabo, que é o nosso adversário, anda em volta como um leão. O verbo grego peripateö é usado para um andar em volta. A idéia é de um animal que fica em círculos procurando uma oportunidade para o ataque. Isso quer dizer que o apóstolo Pedro afirma que estamos sendo observados por um inimigo feroz e astuto procurando uma oportunidade para o ataque. Por isso, não estamos numa posição confortável, mas precisamos resisti-lhe firmes na fé. O verbo grego anthistëmi, traduzido para “resistir, opor-se” quer dizer novamente uma resistência em uma disputa perigosa, pois é contra alguém que ele identificou como um leão. A mesma palavra que Tiago usou para “resistir ao diabo”:

Sujeitai-vos, portanto, a Deus; mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós. (Tg 4.7)
           
            Howard, em seu comentário exegético desse texto faz uma relação com alguns textos da LXX e afirma:

A comparação de inimigo de almas a um leão é sugerido por várias passagens nos Salmos (Sl 7.2; 10.9; 22.13). A última destas é provavelmente a referência na mente do escritor, hös leön ho harpazön kai öryomenos. In peripateö nós temos uma reminiscência da descrição de Satan em Jó 1.7; 2.2.[2]

O professor Howard demonstra que a descrição de Pedro sobre Satanás é uma relação direta aos Salmos que descrevem esses inimigos em plena atividade, assim como o diabo que está contra nós. Portanto, podemos notar pelo texto de Pedro que o diabo está em plena luta conosco como os inimigos estavam contra Davi.
            Outro texto que precisamos levar em conta é que Paulo ensina que o diabo será pisado por nós no futuro. Ele escreve aos romanos:

E o Deus da paz, em breve, esmagará debaixo dos vossos pés a Satanás. A graça de nosso Senhor Jesus seja convosco. (Rm 16.20)

      Paulo demonstra que isso acontecerá no futuro. Tanto o adjunto adverbial en tachei (em breve) como o verbo Suntripsei (esmagará) no futuro demonstram que Satanás não está, no momento, debaixo de nossos pés, mas isso acontecerá no futuro. A ênfase está no verbo e não na preposição hypo. A preposição lidera o sentido adverbial que é regido pelo verbo. Portanto, Paulo afirma que isso acontecerá na vinda de Cristo e não agora.

2.      Análise de Efésios 1.20-23

20 o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais,  21 acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro.  22 E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja,  23 a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas. (Ef 1.20-23)

Mas o que dizer desse texto de Paulo aos efésios? Esse texto é usado para demonstrar, por essas pessoas, que Satanás está debaixo de nossos pés nesta era. Afirmam por inferência dessa interpretação: se todas as coisas estão debaixo dos pés de Cristo como os demônios, potestades e anjos, pois a expressão demonstra que são tanto seres angelicais como todo ser existente; então, estão debaixo de nossos pés também, já que somos o corpo de Cristo e ele foi dado à Igreja como foi escrito no v.22,23. A lógica é a seguinte: se Cristo é a cabeça de todas as coisas e todas as coisas foram colocadas por Deus debaixo dos pés de Cristo e se somos o seu corpo, então, os demônios estão debaixo de nossos pés.
Pesa ainda nessa interpretação que estamos sentados com Cristo nas regiões celestiais conforme Paulo escreveu:

6 e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; (Ef 2.6)

            Se nós estamos sentados com Cristo nas regiões celestiais, fica óbvio que os demônios estão debaixo de nossos pés, concluem alguns.

            Essa interpretação tem um problema hermenêutico que, se não tivermos cuidado, poderemos entrar numa distorção séria. Por exemplo, precisamos analisar que o texto afirma que todas as coisas estão debaixo dos pés de Cristo, pois ele assumiu toda a autoridade (Mt 28.18). O texto não afirma, em hipótese alguma, que Jesus está pisando Satanás definitivamente, embora que o venceu na cruz. Porém, o texto não afirma isso. O texto afirma que Cristo tem o domínio absoluto e autoridade sobre todas as potestades. Mesmo assim, essa vitória completa de Cristo sobre Satanás ainda não se manifestou, embora que ele o tenha vencido uma vez por todas na cruz (Cl 2.14,15). Por isso o apóstolo aos Hebreus escreveu:

7 Fizeste-o, por um pouco, menor que os anjos, de glória e de honra o coroaste e o constituíste sobre as obras das tuas mãos.  8 Todas as coisas sujeitaste debaixo dos seus pés. Ora, desde que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou fora do seu domínio. Agora, porém, ainda não vemos todas as coisas a ele sujeitas; (Hb 2.7,8)

Esse texto explica o texto de Efésios 1.22,23. Ainda não vemos todas as coisas a ele sujeitas porque será no futuro, na sua vinda.

            O apóstolo Paulo ensinou exatamente que será no futuro:

E o Deus da paz, em breve, esmagará debaixo dos vossos pés a Satanás. A graça de nosso Senhor Jesus seja convosco. (Rm 16.20)

24 E, então, virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder.  25 Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés. (1Co 15.24,25)

            Paulo ensina aos coríntios que isso acontecerá quando todo principado e toda potestade forem destruídos. No episódio da sua vinda, pois então se cumprirá o Salmos 110.1.

O apóstolo aos Hebreus ensinou a mesma coisa:

2 Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus,  13 aguardando, daí em diante, até que os seus inimigos sejam postos por estrado dos seus pés. (Hb 10.12,13)

            Outro perigo hermenêutico que precisamos ter muito cuidado é com essa inferência de corpo de Cristo. Quando Paulo afirma que Deus colocou todas as coisas debaixo dos pés de Cristo, não implica que todas essas coisas estejam da mesma forma diante da igreja, pois isso implica em total soberania e domínio. Claro que isso é um atributo somente divino. Jamais a igreja terá o domínio absoluto igual ao de Deus. Temos o privilégio de estar assentados com ele nas Regiões Celestiais, mas esse assentar-se não nos dá o atributo de soberanos.
Da mesma forma, não podemos fazer uma inferência da afirmação de Cristo: “toda autoridade me foi dada nos céus e na terra” (Mt 28.18) para afirmar que temos essa autoridade porque somos o corpo de Cristo. Com base nessa inferência, alguém poderia dizer: ora, se Cristo recebeu toda autoridade e a igreja é o corpo de Cristo, então a igreja tem toda a autoridade nos céus e na terra também. A falácia desse silogismo está em que o corpo de Cristo é relacionado à comunhão da igreja, da identificação dos sofrimentos de Cristo e da honra na vitória de Cristo (confira: 1Co 10.16,17; 1Co 12.26,27; Ef 4.12; Cl 1.24; 2.17; 3.15) e não nos seus atributos que só pertencem a Deus. Nenhuma passagem das Escrituras é colocada para o corpo de Cristo no sentido de usarmos os mesmos atributos de Deus.
Paulo tinha a intenção de dizer que Cristo tem o domínio e Deus deu esse Cristo à igreja. Claro que Paulo usa um pronome relativo indefinido hëtis para afirmar que de qualquer forma essa igreja é o corpo de Cristo. Na verdade a estrutura gramatical grega não faz uma relação Cristo como cabeça da igreja diretamente, embora que se possa inferir. Paulo usa o substantivo kephalë como um aposto do objeto auton, que é Cristo e afirma que Deus o deu à igreja. O objeto indireto é a igreja të ekklësia. A ênfase é que Cristo é a cabeça de todas as coisas e Deus deu esse Cristo-cabeça à igreja, que é o seu corpo.
William Hendriksen em seu comentário desse texto escreve:

Nas epístolas gêmeas – Colossenses e Efésios –, a figura cabeça-corpo surge pela primeira vez nas epístolas de Paulo, para indicar a relação entre Cristo e sua Igreja. É verdade, sem dúvida, que aqui em Ef 1.22, 23 não se diz que Cristo de fato é a cabeça da igreja, senão antes que Ele é a “cabeça, sobre todas as coisas, à igreja... seu corpo”. Porém, esta maneira de expressar-se simplesmente realça a beleza do simbolismo. A significação, pois, é esta: já que a igreja é o corpo de Cristo, com a qual Ele está organicamente unido, seu amor por ela é tão grande que faz uso de seu poder infinito para que o universo inteiro, com tudo que nele existe, coopere em benefício dela, seja de bom grado ou não.[3]


Hendriksen demonstra exatamente que a ênfase de Paulo não é trazer uma relação direta Cabeça-corpo da igreja, mas demonstrar que o Cristo como cabeça de tudo foi dado à sua igreja. Essa igreja é o seu corpo onde ele preenche e dá sentido, cuidando e agindo em amor para com ela.
Portanto, não podemos fazer essa inferência para a igreja em Ef 1.20-23, pois o verso 23 demonstra o porquê que Paulo escreve sobre o corpo, pois Cristo o preenche e completa-o. Isso quer dizer que se Cristo é soberano e Senhor de principados e potestades, a sua igreja estará segura, mesmo que no momento ainda esses principados não estejam debaixo de seus pés totalmente. Somente no porvir (Rm 16.20; 1Co 15.24,25; Hb 10.12,13)

  1. Análise de Lucas 10.19

Eis aí vos dei autoridade para pisardes serpentes e escorpiões e sobre todo o poder do inimigo, e nada, absolutamente, vos causará dano.

            Precisamos admitir que esse texto pode levar alguém facilmente a aderir que Satanás esteja debaixo de nossos pés. Primeiro, por causa dos tempos verbais gregos “dar” e “pisar” que estão no presente didömi / patein que demonstra um tempo continuo. Esse tempo usado por Jesus nos evangelhos demonstra uma certa autoridade nas palavras. Depois, as expressões serpentes e escorpiões demonstram que se referem aos demônios, pois na segunda parte do verso Jesus afirma sobre todo o poder do inimigo. Portanto, temos que admitir que Jesus está dando uma promessa à sua igreja através dos seus discípulos, pois os evangelistas tinham uma intenção doutrinária ao escrever os seus evangelhos. Se alguém não aceita esse texto para igreja, fica difícil aceitar os da grande comissão, pois todos foram dirigidos aos apóstolos especificamente também.
            O que precisamos notar é que esse pisar em serpentes e escorpiões não são a mesma coisa de afirmar que Satanás está debaixo dos nossos pés, pois isso acontecerá somente depois (Rm 16.20). Esse pisar significa que Jesus nos deu autoridade sobre o poder das trevas e, por isso, podemos resisti-los sem nos causar danos (Tg 4.7; 1Pe 5.9).
Essa expressão de Jesus precisa ser interpretada segundo o Salmo 91.11-13, onde afirma:

11 Porque aos seus anjos dará ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos.  12 Eles te sustentarão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra.  13 Pisarás o leão e a áspide, calcarás aos pés o leãozinho e a serpente.

            Os próprios discípulos foram abatidos diante de um demônio em um jovem, mesmo recebendo a autoridade de expulsá-los:

Tendo Jesus convocado os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para efetuarem curas. (Lc 9.1)

39 um espírito se apodera dele, e, de repente, o menino grita, e o espírito o atira por terra, convulsiona-o até espumar; e dificilmente o deixa, depois de o ter quebrantado.  40 Roguei aos teus discípulos que o expelissem, mas eles não puderam. (Lc 9.39,40)

            Jesus ainda disse que certas castas somente saem com oração e Jejum (Mt 17.21). Isso demonstra que a batalha não é tão simples como pensamos, mas apesar de termos poder e autoridade para pisar nas investidas do maligno, precisamos entender que ele ainda está em plena batalha contra nós como um adversário num ringue e como um leão (Ef 6.12; 1Pe 5.8).
            Esse pisar não é a mesma coisa do que Cristo fará. As imagens são diferentes. Uma diz respeito a resistir os adversários e seu poder sob o poder de Deus, a outra, diz respeito a pisar o inimigo em uma batalha definitiva. Uma é temporária e que até podemos ser abatidos, a outra é definitiva e decisiva. A segunda ainda não aconteceu. Anthony Hoekema, falando dessa passagem em seu livro A Bíblia e o Futuro, escreve: “Resta dizer que essa vitória sobre Satanás, embora decisiva, ainda não é final, uma vez que Satanás continua ativo durante o ministério subseqüente de Jesus (Mc 8.33; Lc 22.3 e 3.1)”[4].

  1. Em que consiste a nossa vitória sobre Satanás

Vem uma pergunta imediata diante do fato que Satanás ainda esteja em plena guerra conosco, frente a frente e rugindo como um leão: afinal de contas, em que consiste a nossa vitória em Cristo?
O apóstolo João afirmou por duas vezes no mesmo contexto que temos vencido o Maligno:

13 Pais, eu vos escrevo, porque conheceis aquele que existe desde o princípio. Jovens, eu vos escrevo, porque tendes vencido o Maligno.  14 Filhinhos, eu vos escrevi, porque conheceis o Pai. Pais, eu vos escrevi, porque conheceis aquele que existe desde o princípio. Jovens, eu vos escrevi, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno. (1Jo 2.13,14)

            Precisamos responder essa pergunta observando nas Escrituras em que consiste a nossa vitória sobre Satanás, já que o tempo verbal para vencer nikaö usado por João é o perfeito. Portanto, tem o sentido extensivo de resultado. Isso demonstra uma vitória que aconteceu no passado e estende-se até agora. Na verdade, a nossa vitória sobre Satanás aconteceu na cruz, mas ainda não se manifestou totalmente, pois ainda temos que lutar contra o poder de Satanás. Então em que consiste a nossa vitória sobre Satanás no momento?

4.1.Não somos mais manipulados ou possuídos por ele

O apóstolo Paulo ensinou bem claro que a manipulação extensiva e a possessão são daqueles que ainda não foram redimidos.

nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; (Ef 2.2)

            Paulo afirma que “outrora, antes” andastes pote periepatësate – aoristo indicativo demonstrando que aconteceu uma vez por todas. Antes, tínhamos as nossas vidas segundo os demônios. Os espíritos operavam em nós que éramos chamados de “filhos da desobediência”. Eles nos dominavam, seja de uma forma direta ou indireta, mas em Cristo, fomos livres dessa ação demoníaca. Embora que se tenha que admitir que Satanás possa usar ainda um crente (Mc 8.33; 2Tm 2.25,26), mas isso não é contínuo ou que chegue à possessão, pois Paulo ensina que fomos selados pelo Espírito Santo da Promessa e que ele habita em nós (Ef 1.13; 4.30; 1Co 6.19).
            Muitos usam o texto de Ef 4.27 para comprovar a possessão de crentes, mas o substantivo grego topos quer dizer não somente lugar, mas oportunidade (At 25.16 [no original topon te apologias laboi Peri tou enklëmatos “que receba oportunidade de defesa da acusação”]; Rm 12.19; 15.23; Hb 12.17). Paulo está deixando claro que podemos dar oportunidade para que o diabo nos ataque nas áreas exortadas e sejamos abatidos na batalha, desmoralizados, desanimados ou anulados no avanço do Evangelho, pois no verso 30 Paulo afirma que fomos selados uma vez por todas esphragisthëte (aoristo passivo). Portanto, não é base para a possessão de demônios na vida de um crente.
            Precisamos notar que podemos ser abatidos num determinado combate por Satanás, seja por oportunidade ao diabo que damos, seja porque estamos diante de uma situação que exigirá mais oração, jejum e perseverança.
            Paulo não negou que podemos ser abatidos. Ele afirma:

perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos; (2Co 4.9)

            Paulo usou o verbo kataballö usado na LXX para batalha entre inimigos e povos rivais. Paulo admite que podemos ser abatidos, mas não destruídos. Notem que Paulo foi impedido de ir a determinado lugar por Satanás:

Por isso, quisemos ir até vós (pelo menos eu, Paulo, não somente uma vez, mas duas); contudo, Satanás nos barrou o caminho. (1Ts 2.18)

            O verbo para barrar é enkoptö era usado para impedir estradas e o caminho de alguém. Paulo afirma que ele foi impedido mais de uma vez de ir a Tessalônica por Satanás. Não sabemos os detalhes e nem por que ele foi impedido, mas ele teve o discernimento e registrou isso inspirado pelo Espírito Santo. Se Satanás estivesse debaixo dos pés de Paulo, seria difícil pensar que Paulo fora abatido por Satanás e impedido por ele, principalmente que era para pregar o Evangelho.
            Outro exemplo é a carta que Jesus mandou à igreja de Esmirna:

Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida. (Ap 2.10)
           
            Quem está escrevendo é o próprio Jesus que venceu e tinha sido louvado pela sua vitória como o Cordeiro que tomou o livro e abriu os seus selos. Porém, aqui Jesus escreve que terão alguns que Satanás prenderá para serem provados e teriam uma tribulação de 10 dias.

A mesma coisa na igreja de Pérgamo:

3 Conheço o lugar em que habitas, onde está o trono de Satanás, e que conservas o meu nome e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita. (Ap 2.13)

Antipas, apesar de ser uma fiel testemunha, por habitar no que Jesus chamou de trono de Satanás, foi morto e abatido, mas não destruído porque Jesus o recebeu depois.
Portanto, podemos ser abatidos como numa batalha, pois Satanás ainda não está destruído totalmente porque o Senhor não o pisou definitivamente. Isso acontecerá somente na sua vinda em glória e poder (1Co 15.24,25; Hb 10.12,13; 2Ts 2.8; Ap 20.10).

4.2.Suas acusações não têm mais valor por causa da redenção de Cristo

A Bíblia afirma que Satanás é o nosso acusador (Ap 12.10). O seu outro nome é chamado de diabolos, que quer dizer “aquele que lança em rosto ou aquele que acusa”. Éramos, antes, escravos das acusações de Satanás devido os nossos pecados e nossa natureza. Paulo ensina que fomos livres de toda acusação e condenação.

Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.  2 Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte. (Rm 8.1,2)

33 Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica.  34 Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós. (Rm 8.33,34)

4.3.Autoridade de expulsar os demônios

A vitória de Cristo nos deu autoridade de expulsar os demônios e enfrentá-los no poder do Espírito Santo. Jesus tinha dado essa autoridade aos seus discípulos:

19 Eis aí vos dei autoridade para pisardes serpentes e escorpiões e sobre todo o poder do inimigo, e nada, absolutamente, vos causará dano. (Lc 10.19)

Jesus deu autoridade aos seus discípulos que se estende à sua igreja, confirmado na sua subida aos céus:

17 Estes sinais hão de acompanhar aqueles que crêem: em meu nome, expelirão demônios; falarão novas línguas; (Mc 16.17)

Essa autoridade implica na vitória de Cristo na cruz que os despojou e os humilhou, dando-nos autoridade para expulsá-los e resisti-los em oração e jejum (Cl 2.14,15).

  1. O Já e o Ainda-não do Reino

A Igreja precisa entender e viver consciente dessa grande tensão entre o que Hoekema chamou de “a tensão entre o já e ao ainda-não”. Ele escreve em seu livro A Bíblia e o Futuro o seguinte:

Vimos que aquilo que caracteriza especificamente a escatologia do Novo Testamento é uma tensão subliminar entre o “já” e o “ainda-não”. O crente, assim ensina o Novo Testamento, já está na era da escatológica mencionada pelos profetas do Antigo Testamento, mas ainda não está no estado final. Ele já experimenta a presença do Espírito Santo em si, mas ainda espera por seu corpo ressurreto. Ele vive nos últimos dias, mas o último dia ainda não chegou.[5]

            Hoekema demonstra essa tensão entre o Reino que se manifestou e o Reino que se consumará na vinda de Jesus Cristo. Assim também, com respeito a Satanás. Ele já foi vencido uma vez por todas na cruz, mas ainda não consumou essa vitória totalmente. Ele ainda age com sagacidade, ferocidade e ardis. A Igreja precisa entender que o diabo ainda não foi destruído totalmente que acontecerá quando Jesus vier em sua glória e poder (2Ts 2.8).
            A tensão do Já e o Ainda-não precisa ser levada a sério, porque Satanás ainda pode nos abater e deixar-nos no chão, mesmo que já sejamos vitoriosos em relação à salvação. Podemos perceber isso nos ensinos de Paulo aos coríntios:

em nome do Senhor Jesus, reunidos vós e o meu espírito, com o poder de Jesus, nosso Senhor,  5 entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no Dia do Senhor Jesus. (1Co 5.4,5)

            A igreja ainda não tem Satanás debaixo dos seus pés, embora que ele já foi humilhado e derrotado por Cristo na cruz. A posição de Satanás é de linha de frente guerreando com toda a sua fúria para nos abater e frustrar os desígnios de Deus.

CONCLUSÃO

            A vitória de Cristo não nos exclui da batalha diária contra a força das trevas e dos demônios que tentam nos abater lançando suas setas inflamadas.
            Satanás não está ainda debaixo de nossos pés, embora que Jesus nos deus autoridade para expulsar os demônios, mas poderemos ser abatidos se dermos oportunidade topos ao diabo ou se estivermos numa situação de conflito maior com demônios como Antipas que foi morto num lugar que Jesus chamou “Trono de Satanás”.
            A consequência de não levarmos em conta isso é o descuido da vigilância e da batalha espiritual. Se Satanás está debaixo dos nossos pés, por que vigiar e cuidar para não ser abatido? Se ele está debaixo de nossos pés, resta-nos agora descansar, pois não temos o que temer ou vigiar.
            Jesus ainda não pisou a Satanás definitivamente, como foi mostrado. Isso acontecerá somente na ocasião da sua vinda em glória e poder.
            Portanto, a posição de Satanás não é debaixo de nossos pés, mas à nossa frente, pronto para nos derrubar ou como um leão pronto para nos atacar. Devemos vencê-los firmes na fé, conscientes que é maior aquele que está em nós do que aquele que está no mundo e o domínio está nas mãos do nosso Deus (1Jo 4.4; 1Pe 5.11).
           





[1] CALVIN, John. Commentary on Galatians and Ephesians. Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 1999, p. 202
[2] MASTERMAN, Howard B. The First Epistle of S. Peter (Greek text). New York: The Macmillan Company, 1900, p. 169.
[3] HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento: Efésios. São Paulo: Cultura Cristã, 1992, p. 130.
[4] HOEKEMA, Anthony. A Bíblia e o Futuro: A doutrina bíblica das últimas coisas. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 59.
[5] Ibid., p. 83.

O BRASIL ESTÁ REFÉM





O Brasil está refém da corrupção, do Sarney, do Lula porque o Brasil é um país de corruptos. Claro que há exceções como tudo na vida, mas essas são quase imperceptíveis diante da maioria esmagadora de corruptos brasileiros.
A prova é que, apesar de várias denúncias de corrupção desse governo, ainda tem 80% de popularidade. Os corruptos colocam como desculpa que todos os candidatos são corruptos e, por isso, continuam a votar no mesmo governo. Mas, não é verdade, sempre há um candidato que se pode, pelo menos, dar um voto de confiança até a próxima eleição, o problema é que esses corruptos querem uma desculpa para despejar suas barganhas e privilégios pessoais sem ver o todo da população.
O Brasil é um refém do tráfico das favelas, pois o governo não tem moral e nem capacidade para fazer nada, exceto colocar alguns policiais, pais de família só para fazer um “H”. Todos estão ilhados diante da tamanha corrupção que existe no país.
Os intelectuais do Brasil são ingênuos e de intelectualidade não tem nada. Intelectual é aquele que pensa, sabe discernir imparcialmente devido ao conhecimento filosófico e outros; mas o que nós vemos no Brasil são cantores e poetas, até inteligentes, que são verdadeiros patetas. São patetas porque, ao invés de darem exemplo de reflexão e discernimento, se conformam com o todo, achando que estão ainda em nome da esquerda. Que imbecilidade! Esses são patetas de fato.

O livro “Honorários Bandidos – um retrato do Brasil na era Sarney” de Palmério Dória é um retrato realmente do Brasil, pois o senador Sarney está lá porque foi votado, é presidente do senador porque foi votado, os governistas o absolveram de ser punido na comissão de ética do senador porque foi votado (embora que se saiba que a comissão de ética do senado é uma “Zorra Total”). Enfim, esse livro retrata a situação do Brasil.

Enquanto isso, os meios de comunicação somente passam o pré-sal e esquecem as pessoas morrendo nos hospitais, as escolas sem estruturas, professores e a educação falidos como afirmam vários especialistas e pesquisas na área.

O Brasil é um país corrupto e está refém do próprio povo que é corrupto. Por isso, merecem o País que tem, merecem o Maranhão que tem, pois o Maranhão está no comando do país no senado.