domingo, 2 de fevereiro de 2014

O EVANGELHO SEGUNDO CAIO FÁBIO: UMA ANÁLISE DA SUA APOSTASIA E PERIGOS




A fronteira entre o que é ortodoxo e herético é muito complexa. Da mesma forma, a fronteira entre aquele que apostatou da fé e aquele que ainda se pode ter como uma pessoa cristã e bíblica é muito difícil de analisar. Primeiro, por que geralmente essas pessoas trazem uma certa fama e autoridade do que eles representaram um dia. Depois, é muito difícil falar de alguém que tem nos lábios o nome de Jesus e propaga com tanta ênfase.

Existem duas formas de um herege blindar suas heresias, ao mesmo tempo, essa blindagem servirá para identificação dos próprios hereges. A primeira é trazendo sobre si a autoridade de suas doutrinas. Para isso, é necessário demonstrar que todos os demais estão errados e ele é o único certo. Isso servirá para que os incautos que o seguirem terem em mente que ele seria o único que poderia dizer a verdade, já que os demais estão errados. Aqueles que o refutam são ensinados a chamarem os demais que refutarem de “religiosos” e que se baseiam na “Letra”.

A segunda forma de um herege blindar suas heresias é atacar a base e o fundamento de fé. Quando se ataca os fundamentos da fé, as pessoas não recorrem mais a esse fundamento, mas dependem somente do herege. Uma das formas de atacar é exatamente colocar defeitos nesse fundamento. O único fundamento de fé que se tem é a Bíblia, e ela mesma que é atacada de uma forma totalmente desonesta por esses hereges.

Na verdade, esse herege vai ter que fazer isso para minar os textos que o refutam e que ele mesmo vai estar desconfortável diante da clareza das Escrituras de algumas de suas tendências.

Também pode-se reconhecer um herege por duas formas:

A primeira é quando se tem que refutar doutrinas básicas da fé cristã. Há doutrinas que divergem no próprio evangelicalismo que se pode refutar sem que se tenha em mente que está refutando um herege. Por exemplo, doutrina do batismo, escatologia, a perda da salvação, apostolado etc. No entanto, quando se tem que refutar alguém com doutrinas básica da fé como a salvação pela graça, a divindade e humanidade de Cristo, a divindade do Espírito Santo, demonstra-se que esse mestre é um herege e que se deve ter todo cuidado com o que ele ensina.

A segunda forma de reconhecer um herege é que ele vai colocar como base moral a sua própria pessoa. Ou seja, ele é o centro de tudo embora que ele jure e chore emocionado falando de Jesus, mas, na prática, traz sobre si toda a autoridade das doutrinas como também a base moral. A conseqüência disso é que seus seguidores são completamente desprovidos de senso crítico. Eles não questionam, apenas aceitam, pois intuitivamente o líder se coloca como acima das Escrituras, já que ela tem erros. E se a Escritura tem erros e é julgada pelo próprio líder, ele é o único que dita as normas, inclusive, da própria base de fé.

Caio Fábio foi um dos pastores mais conceituados do Brasil. Dificilmente alguém não ouviu uma pregação sua. Levava multidões a estádios e representava o Evangelicalismo aonde ia. No entanto, Caio Fábio passou por um momento difícil em sua vida que o deixou afastado por um tempo. Depois, ele voltou com um programa “Vem e vê TV” pela manhã na internet onde responde a várias perguntas de pessoas que lhe pedem conselhos.

Nesses programas, Caio Fábio tem feito declarações perigosas à fé cristã que demonstram as características de uma pessoa que apostatou da fé tendo a necessidade de uma refutação. O motivo de escrever esse texto é exatamente devido à sua grande influência entre os incautos e por que as suas falácias podem ser perigosas quando não demonstradas pelo crivo da Palavra de Deus.

Depois, por que Caio Fábio está dentro das características que foram demonstradas acima. Ele tem blindado seus ensinamentos e tem se colocado como o único que agrada a Deus no Evangelho, pois ele tem colocado defeito em todos os demais seguimentos do Evangelho. Ele tem atacado a igreja de uma forma contundente demonstrando que ela está falida. Claro que não se está negando a caricatura de Evangelho que alguns grupos protestantes fazem, pois temos que admitir que alguns grupos nem merecem ser chamados de protestantes ou de evangélicos, pois agem como um comércio da fé e com heresias destruidoras. No entanto, Paulo e os apóstolos jamais agiram assim. Percebemos que Paulo e os apóstolos conheciam muito bem os problemas graves da igreja, mas jamais eles se colocaram à margem dela ou separados dela.

Paulo escreve a Timóteo acerca dos falsos mestres que estavam na igreja (2Co 12.11-15; Fp 3.2); ele sabe que na igreja tem lobos vorazes e perigosos (At 20.29-32); ele admite que na igreja tem “falsos irmãos” (Gl 2.4), mas jamais Paulo se colocou à margem da igreja ou generalizou como estando falida ou fazendo um grupo à parte. Ao contrário, ele criticou aqueles que estavam fazendo isso na igreja de Corinto.

Pedro agiu da mesma forma. Ele admite os falsos mestres e falsos profetas a ponto de renegarem o Senhor Jesus e que até farão comércio dos membros (2Pe 2.1-3). No entanto, jamais Pedro se colocou na posição de separado da igreja.

Da mesma forma João e Judas. Eles advertem que na igreja teriam falsos obreiros terríveis e falsos profetas (1Jo 4.1;4; Jd 1.4). No entanto, jamais os apóstolos se colocaram na posição de ficar à parte da igreja.

No caso de Caio Fábio, ele se coloca na posição de alguém como “o escolhido”, “a comunidade”. Para isso, ele generaliza os problemas da igreja e coloca a sua comunidade como sendo “a igreja”, ridicularizando tudo que a igreja faz.

Na verdade, Caio Fábio tem uma mente muito privilegiada e pensa muito rápido, mas quando fala da Palavra de Deus como base de suas doutrinas estranhas, torna-se completamente infantil e contraditório, sem nenhum uso da hermenêutica e da exegese. Para ele, como parte da infantilidade, não se precisa de Hermenêutica e exegese. Até que se pode entender isso, já que ele não fez seminário e nem curso de Letras, mas não se pode deixar de perceber como essa declaração é patética, já que qualquer texto se precisa de regras de interpretação (Hermenêutica) e análises sintática e morfológica, principalmente quando se está tratando de textos antigos escritos originalmente em hebraico, aramaico e grego.

Da mesma forma, Caio Fábio mina a base de fé e prática, a Bíblia. Para ele, a Bíblia é cheia de erros (veja o vídeo aqui), o apóstolo Paulo “surta” e que nós não podemos entender seus textos como inspirados (veja meu comentário sobre o que ele escreveu em 2007).

Sem querer aprofundar-me sobre a inerrância da Bíblia, Caio Fábio confunde inerrância com aproximação de dados de números, saltos genealógicos, como ele mesmo falou. No entanto, a Bíblia é inerrante no que diz respeito à veracidade das suas histórias e dos dados históricos que foram escritos. Se a Bíblia tiver erros, nada dela poderá ser confiável e cai por terra qualquer texto que provenha dela, inclusive os de Jesus. Quando ele admite que a Bíblia não é um livro científico e nem tem a intenção de ser um livro de estatística, significa que ela vai se acomodar à linguagem da época que na Hermenêutica se chama “visão fenomenológica”. Por exemplo, quando ela chama os morcegos de aves ou fala que Josué mandou o sol parar. Da mesma forma, não é erro quando a Bíblia fala que havia 5 mil homens fora crianças e que na verdade tenha tido uma quantidade maior de homens, pois os autores falam por aproximação, pois até hoje se faz isso.

No entanto, Caio Fábio precisa minar as Escrituras para que ele as interprete a seu bel prazer, pois, segundo ele, Jesus é a chave-hermenêutica, mas somente aos textos que ele achar que não tem erros e que não sejam um “texto religioso”. Na verdade, a chave-hermenêutica é apenas um pretexto para desviar a atenção dos princípios escritos que o deixam em uma situação desagradável e sem resposta.

Caio Fábio comete erros infantis de interpretação. Ele não entende que a interpretação do VT  deve ser feita com o NT. A chave hermenêutica deve ser toda a Bíblia e não Jesus, pois é o NT que fala de Jesus. Ele confunde o tema da Bíblia com o critério de interpretação, pois Cristo é o tema de toda a Bíblia, mas não o seu critério de interpretação. Existem informações de Cristo nas epístolas que não achamos nos Evangelhos, como também existem explicações das palavras de Cristo nas epístolas que não achamos nos Evangelhos e nem nos ensinamentos de Cristo que estão nos Evangelhos, como também somente entenderemos alguns ensinamentos de Cristo se analisarmos o VT. Caio Fábio dá a entender que a pessoa de Jesus se conhece por um entendimento subjetivo intrínseco separado das Escrituras. Não existe algo mais patético do que isso! Somente podemos saber algo de Cristo através do NT escrito ou através de toda a Bíblia.  O próprio Jesus ensinou que examinassem o VT para saber sobre ele como também disse aos seus discípulos que eles iriam continuar os seus ensinamentos:

Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. (Jo 5.39)

Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora; quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir. (Jo 16.12,13)

Portanto, uma declaração de que “não se pode obedecer a Bíblia toda”, mas somente o que Cristo afirma (Veja aqui), demonstra um perigo, pois dá a entender que a Bíblia tem partes que não se pode obedecer. No entanto, em toda a Bíblia existem princípios quando são bem interpretados diante de toda a Bíblia (VT e NT). Ele não percebe que o VT foi testificado pelo próprio Cristo e que os princípios do VT, sendo bem interpretados, devem ser observados (Jo 5.39; 1Co 10.1-11). Ele não percebe, pela sua ingenuidade hermenêutica, que Jesus trouxe a real interpretação do VT e enfatizou-o mais ainda. O Sermão da Montanha é um exemplo disso (Mt 5.31,32; MT 19.8-10).

Ele também não percebe, e chega a ser patético, em afirmar que não se pode depender das palavras em si da Bíblia, mas somente do Cristo encarnado como Palavra de Deus, do que ele chama do “espírito da Letra” (Veja aqui). Ele não percebe que o conhecimento do Cristo que todos conhecem vem das Palavras escritas.

Ele faz uma má interpretação do texto de Jo 6.63 que afirma:

João 6:63  63 O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida.

Jesus está comparando as suas palavras a um corpo que tem um espírito e que a carne sem esse espírito não tem proveito nenhum. Ou seja, Jesus está usando uma metáfora do corpo e espírito, enfatizando a importância da sua Palavra como Palavra de Deus e essas inteligíveis e objetivas (Mt 5.18,19). Portanto, Jesus está ensinando que o homem que não levar em conta as suas Palavras é como um corpo sem espírito. A palavra “espírito” aqui jamais quer dizer uma subjetividade ou um espírito vagando. Claro, esse erro de interpretação é próprio de pessoas que não tem noção de Hermenêutica, pois é muito simples quando se leva em conta o contexto do verso e a metáfora do corpo e espírito.

Caio Fábio chega ao ápice de sua confusão doutrinária quando afirma que vai encontrar-se com Chico Xavier na glória de Deus. Ele afirma:

Eu sou um cara que acredita que alguém é salvo exclusivamente pela graça de Jesus e não por causa de seus acertos doutrinários... Eu que sou um verme consigo olhar para o Chico com os olhos de misericórdia e piedade, quanto mais Deus... eu, que sou mau, consigo dar boas dádivas ao Chico Xavier, quanto mais o nosso Pai Celeste. (Veja aqui)

Caio Fábio, mais uma vez, por sua falta de conhecimento de Hermenêutica não percebe que o erro doutrinário é que afasta a pessoa de Deus. Jesus afirmou:

Mateus 22:29  29 Respondeu-lhes Jesus: Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus.

Jesus estava ensinando que os fariseus erravam por que eles não conheciam as Escrituras como deveriam, e, por isso, várias vezes falou em seus debates: “nunca lestes?” (Mt 21.16; 21.42; Mc 2.5). O próprio apóstolo Paulo afirmou que qualquer evangelho que seja pregado além do que foi pregado pelos apóstolos seja anátema e aquele que prega também deve ser considerado (Gl 1.8,9). Tudo isso implica doutrina.

Portanto, a salvação implica em uma luz da correta doutrina de Deus, pois Jesus mesmo falou que as suas ovelhas ouviam a sua voz e o seguiam, e ele lhes daria a vida eterna:

João 10:26-28  26 Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas.  27 As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem.  28 Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão.

Quando Jesus afirma “ouvir a minha voz” está demonstrando o que ele ensinou através de sua Palavra escrita e revelada. Tudo parte da luz da Palavra e de uma doutrina correta.

Portanto, Jesus e os apóstolos ensinaram que um erro doutrinário demonstra que uma pessoa não foi salva e não é cristã. É claro que o que salva uma pessoa em si não é a sua aquiescência doutrinária nem a sua ortodoxia, mas também sem uma ortodoxia doutrinária não se pode ser salvo, pois a fé inclui o real reconhecimento da pessoa de Jesus e de sua obra, assim como ele ensinou que suas ovelhas ouvem a sua voz e o seguem.

O apóstolo João ensina que os falsos mestres devem ser identificados por aquilo que eles creem como doutrina ou do que eles distorcem da doutrina de Cristo:

1 João 4:1-2  Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora.  2 Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus;

Os falsos profetas seriam reconhecidos quando eles ensinassem que Cristo não viria em carne. João estava alertando sobre a heresia do gnosticismo que negavam a encarnação de Cristo. Isso é totalmente doutrinário.

A declaração de Caio Fábio ultrapassa a fronteira da apostasia, pois na verdade ele demonstra que Deus leva em conta as obras e não a fé em Cristo como substituto expiatório para que satisfaça a justiça de Deus. Paulo ensinou:

Romanos 3:20-24  20 visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado.  21 Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas;  22 justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que crêem; porque não há distinção,  23 pois todos pecaram e carecem da glória de Deus,  24 sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus,


Gálatas 2:15-16  15 Nós, judeus por natureza e não pecadores dentre os gentios,  16 sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado.

O primeiro texto, Paulo ensina que por obras da Lei, incluindo toda prática que um homem possa fazer, não pode ser o meio de salvação e de justiça diante de Deus, pois todos são transgressores e precisam da redenção que há em Cristo Jesus. Todos os textos acima terminam demonstrando que a fé em Cristo como redentor deve ser essencial.

A graça nos salva, mas vem por intermédio da fé e isso não vem de vós (Ef 2.8,9). Ela não é generalizada como Caio Fábio afirmou que Chico Xavier teria sido visto por Deus com compaixão. Essa graça se manifesta pela fé no Cristo crucificado que é demonstrada através de uma confiança única em Cristo para a salvação. Algo que o espiritismo não adere, mas espera somente em suas obras.

Na verdade, Caio Fábio parte dele mesmo como base da salvação de Chico Xavier. Ele afirma que “se ele teria compaixão, quanto mais Deus”. Ele parte de si mesmo, embora que afirme que é “verme”, pois seria muita insolência não deixar claro a sua diferença diante de Deus. No entanto, a lógica demonstra que ele parte dele. Se ele tem compaixão, Deus muito mais. No entanto, ele deveria partir de Deus. Isso acontece examinando as Escrituras para ver o que Deus pensa para chegar até ele. Ele deveria dizer: se Deus é bom e misericordioso e abomina a consulta aos mortos (Lv 19.31), eu devo entender que Deus tem motivos para julgar aqueles que tais coisas praticam (Ap 21.8; 15).

Como uma característica acima citada, Caio Fábio traz sobre si a autoridade e razão até para a salvação de uma pessoa. Não é mais pela graça através da fé, mas é somente pela percepção de Caio Fábio que é um “verme da Amazônia”, segundo ele, achando que uma pessoa é salva, e como resultado, essa pessoa seria salva por Deus. Então, não é mais pela Palavra e nem pela “chave-hermenêutica de Cristo”, que ele defende tanto e entende mal sobre isso, mas a chave é o próprio Caio Fábio.

A sua lógica tem uma falácia bem perigosa, pois enfatiza que se alguns da igreja “adoram os seus pastores e apóstolos”, e se existem deslizes doutrinários e são tolerados por Deus, por que Deus não toleraria um espírita? Ele não percebe que a salvação não inclui perfeição, mas em quem colocamos a nossa confiança. Há muita diferença entre uma pessoa que confia em Cristo como Senhor da sua vida tendo deslizes doutrinários confessando seus pecados e uma pessoa que confia em si mesmo ou em suas obras sendo Cristo apenas um espírito elevado que passou aqui na terra. Podemos perceber que Paulo era consciente das graves faltas dos coríntios, dos gálatas e dos efésios, mas, ao escrever a eles, ele enfatiza a grandeza da salvação pela graça por intermédio da fé e que eles são santos e amados de Deus.

Várias heresias se podem perceber ainda nessa declaração. Primeiro pode-se perceber um certo Universalismo que afirma que todos podem ser salvos, já que Deus é bom e misericordioso. Ele não parte da Escritura e de Cristo, mas de obras e de uma misericórdia sem levar em conta a justiça e a ira de Deus.

O Universalismo, às vezes, tem a tendência de deixar por conta das obras. Ou seja, uma pessoa será salva se for piedosa e boa, estará perdida se for má conforme o conceito de Caio Fábio de bom e mau, claro, já que a Bíblia para ele é... apenas um detalhe que tem erros.

O mais grave disso é que se juntam a ele pessoas incautas, sem conhecimento da Bíblia, decepcionadas com suas igrejas, com suas famílias e passam a ter nele uma pessoa que lhes dá todo apoio. Isso é importante, mas o problema é que eles passam a ser discípulos de Caio Fábio e não de Cristo. Eu percebi isso ao confrontar alguns deles com textos bíblicos. Eles tinham apenas chavões aprendidos e nunca uma refutação com exegese inteligente. Por exemplo, afirmam: “você é religioso”; “você só sabe a letra”; “você não entendeu nada do Evangelho”; “você está cego”; “espero que Deus abra sua mente”. Notemos que são chavões de pessoas que fazem parte de uma seita. Eles não têm argumentos, um argumento bíblico como estou fazendo aqui, mas chavões aprendidos. Claro se o seu líder não conhece a Bíblia de uma forma sadia, como esperar de seus discípulos?

Quero concluir que não tenho nada pessoal contra a pessoa de Caio Fábio. Admiro-o como pessoa, mas a sua doutrina está longe do verdadeiro Evangelho.

Portanto, termino lamentando em escrever isso e alertando a igreja que o que ele ensina deve-se ter muito cuidado. Deve-se sentar com todos aqueles que afirmaram que o ouviram para demonstrar as suas falácias.


Também, com esse texto, não estou concordando com os absurdos e heresia das igrejas neo-pentecostais que ele critica tanto. Estou apenas dizendo, como demonstrei nesse texto, que ele está no mesmo nível ou pior afastando-se das doutrinas básicas da fé e que Paulo nos orienta a chamar isso de anátema.

sábado, 25 de janeiro de 2014

A HUMANIZAÇÃO DOS ANIMAIS: UMA TENDÊNCIA DO PENSAMENTO PÓS-MODERNO




No dia 23 de janeiro de 2014, nesta quinta, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, sancionou uma lei que proíbe o uso de animais em experiência de cosméticos. Isso veio como repercussão do que aconteceu ao Instituto Royal com cães da raça Beagle.

O laboratório Royal, com o objetivo de realizar testes pré-clínicos com vistas ao desenvolvimento de medicamentos para o tratamento de doenças como câncer, diabetes, hipertensão, epilepsia entre outros, foi obrigado a fechar as portas e encerrar todas as atividades por falta de segurança e de cobaias para esses testes. Mesmo estando dentro do mais alto nível de legalidade e que a causa fosse nobre e tão importante como a cura do câncer, diabete e hepatite que são doenças crônicas, o laboratório foi invadido por ativistas, tirando os animais e quebrando os objetos que lá estavam.

Na verdade, essa tendência faz parte do pensamento da pós-modernidade. Os valores divinos e humanos se equivalem aos dos animais cuja importância se iguala aos dos seres humanos. Para entendermos, precisamos pensar como esse pensamento chegou até nós atingindo a Europa e todo o mundo, influenciando, inclusive, os cristãos na atualidade.

Essa ideologia não é nova, mas começou com Aristóteles, discípulo de Platão. Ele foi o primeiro a chamar o homem de ζῳον λογικον, que quer dizer “animal racional, que pensa”. Aristóteles estudava os animais e achava que eles vinham por geração espontânea e, por isso, ele achava que havia um componente especial em todos os animais, incluindo o homem, chamado de πνευμα (pneuma) que se traduz “alma, vida”. Para Aristóteles, o homem era apenas um animal que raciocina e que faz juízos, mas todos têm a mesma essência que é o πνευμα.

Os demais povos também não diferenciavam os valores entre o ser humano e os animais. Podemos perceber isso com a mitologia grega do minotauro e outros seres mitológicos. Os deuses dos cananeus eram, geralmente, construídos de animais. Por exemplo, o deus dos filisteus, Dagon, uma espécie de homem-peixe. Enfim, os povos pagãos não tinham uma divisão de valores entre o homem e os animais. Até hoje pode-se ver lugares que animais são sagrados como a Índia (ratos, bois), Tailândia (elefantes, leopardos)

Moisés, sebendo que os povos da época tinham uma visão homogênea acerca dos valores entre o homem e os animais, escreve o Pentateuco pensando exatamente em revelar a forma correta de se ver os valores pelos quais Deus os criou.

Moisés demonstrou no livro de Gênesis que Deus criou o mundo em sete dias, sendo que Deus deixou como o ápice a sua criação principal – o homem. Deus criou todas as coisas em etapas como se fossem degraus de importância, pois ele poderia ter criado tudo de uma vez só. Deus criou o homem no sexto dia e deixou o sétimo dia para celebrar o seu término chamando de “descanso” ou shabath. Ele fez isso para enfatizar a sua importância acima de toda a sua criação.

Quando Deus criou os animais, ele apenas falou: faça-se e se fez:

Disse também Deus: Povoem- se as águas de enxames de seres viventes; e voem as aves sobre a terra, sob o firmamento dos céus. Criou, pois, Deus os grandes animais marinhos e todos os seres viventes que rastejam, os quais povoavam as águas, segundo as suas espécies; e todas as aves, segundo as suas espécies. E viu Deus que isso era bom. (Gn 1.20,21)

No entanto, quando Deus criou o homem, Deus fez de uma forma especial. Ele criou primeiramente Adão, dizendo na sua pluralidade: “façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1.26), depois, soprou nas suas narinas e ele se tornou alma vivente (Gn 2.7). Depois, Deus fez a sua companheira, Eva, e a trouxe como companhia (Gn 2.21,22). Fica mais que claro que Moisés queria demonstrar que o homem era muito especial, acima até dos animais e qualquer ser que não houvesse o fôlego vivente de Deus, a alma.

O homem, portanto, foi criado de uma forma especial como a imagem e semelhança de Deus. Essa imagem e semelhança no homem foi demonstrada exatamente pelas atribuições que Deus dera a ele, como governo, inteligência em nomear os animais, linguagem inteligente ao chamar sua companheira de “varoa”, como também em criar uma poesia e receber a responsabilidade por seus atos do bem e do mal. Nenhum animal recebeu esses atributos, exceto o ser humano que foi o ápice da sua criação. Esse homem dominaria sobre todos os animais e vida na face da terra para seu serviço demonstrando que o homem estava acima dos animais, pois eles foram criados para o serviço desse homem.

Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. (Gn 1.26)

O ápice dessa distinção na criação foi quando Deus faz a promessa da redenção. A promessa do descendente da mulher que feriria a cabeça da serpente, uma espécie de nome dado por Moisés a Satanás, foi dada somente ao homem (Gn 3.15; Rm 16.20). Mesmo assim, Deus dá vários sinais que o homem estava no ápice da sua criação. Primeiro, quando mata um animal para vestir a Adão:

Fez o SENHOR Deus vestimenta de peles para Adão e sua mulher e os vestiu. (Gn 3.21)

Depois, na aceitação do sacrifício de Abel quando ele matou um animal e deu-lhe da sua gordura como sacrifício, pois tudo isso representava a morte de Cristo (Gn 4.4; Hb 11.4).

Todos os animais, portanto, demonstravam que era para serviço do homem, como também para seu alimento.

Abençoou Deus a Noé e a seus filhos e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai- vos e enchei a terra. Pavor e medo de vós virão sobre todos os animais da terra e sobre todas as aves dos céus; tudo o que se move sobre a terra e todos os peixes do mar nas vossas mãos serão entregues. Tudo o que se move e vive ser-vos-á para alimento; como vos dei a erva verde, tudo vos dou agora (Gn 9.1-3)

Falou o SENHOR a Moisés e a Arão, dizendo- lhes: Dizei aos filhos de Israel: São estes os animais que comereis de todos os quadrúpedes que há sobre a terra: todo o que tem unhas fendidas, e o casco se divide em dois, e rumina, entre os animais, esse comereis. (Lv 11.1-3)

Portanto, Deus falou a Noé e a Moisés que os animais tinham o propósito de alimento ao homem e para seu serviço:

Não atarás a boca ao boi quando debulha. (Dt 25.4).

No NT, Paulo interpreta esse texto como Deus dando esse princípio para demonstrar um princípio para o homem e não para o animal em si.

Porque na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca ao boi, quando pisa o trigo. Acaso, é com bois que Deus se preocupa? Ou é, seguramente, por nós que ele o diz? Certo que é por nós que está escrito; pois o que lavra cumpre fazê- lo com esperança; o que pisa o trigo faça- o na esperança de receber a parte que lhe é devida. (1Co 9.9,10)

Nesse texto, Paulo demonstra claramente que o homem está acima dos animais, pois ele afirma que Deus não se preocupa com bois. O boi era o animal mais importante da época, pois eles que eram responsáveis por debulhar o trigo e fazer trabalhos na lavoura. Mas, mesmo assim, Paulo afirma que o ensinamento de Moisés era que o homem era mais importante que os animais.

Os animais do Ponto de Vista de Jesus e dos Apóstolos

Quando analisamos o NT, Jesus trata os animais simplesmente como animais e coloca o homem acima deles. Ele faz uma distinção bem clara entre seus valores:

Lucas 12:24  24 Observai os corvos, os quais não semeiam, nem ceifam, não têm despensa nem celeiros; todavia, Deus os sustenta. Quanto mais valeis do que as aves!

Jesus ensina a seus discípulos claramente que os homens têm mais valor que as aves, e isso vale para todos os demais.

Mateus 7:6  6 Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem.

Nesse texto, Jesus fala dos cães com total inferioridade em relação às pessoas. Da mesma forma que ele fala do jumento:

Lucas 13:15-16  15 Disse-lhe, porém, o Senhor: Hipócritas, cada um de vós não desprende da manjedoura, no sábado, o seu boi ou o seu jumento, para levá-lo a beber?  16 Por que motivo não se devia livrar deste cativeiro, em dia de sábado, esta filha de Abraão, a quem Satanás trazia presa há dezoito anos?

Jesus, nesse texto, coloca uma prática comum entre os judeus de dar de beber ao seu jumento em dia de sábado e ensina, com isso, que a cura do homem era superior a dar de beber a esses animais.

Também Jesus deixa claro que toda prática de altruísmo deve ser canalizada aos homens e não aos animais:

Mateus 25:39-40  39 E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar?  40 O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.

Quando analisamos o apóstolo Paulo, percebemos que ele faz essa distinção de valores de uma forma bem enfática. Paulo ensina que os homens pagãos deixaram os valores do Criador e tornaram-nos em uma forma homogênea com os animais:

Romanos 1:23   23 e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis.

Paulo ensina de uma forma bem didática essa distorção de valores, pois a ira de Deus vem sobre os homens que mudam a glória de Deus em semelhança da imagem do homem assemelhando-o, também, a animais como aves, quadrúpedes e répteis. Paulo está falando exatamente da tendência das outras nações de mesclarem as imagens de seus deuses com animais e confundirem o valor de Deus e do ser humano.

Os dois maiores mandamentos

Os dois maiores mandamentos demonstram que Deus colocou os valores Deus-homem-animal nessa ordem. O primeiro é amar a Deus de todo coração, o segundo é amar o próximo como a si mesmo (Dt 6.4,5; Lv 19.16-18), sem nenhum mandamento para os animais, já que eles seriam parte do restante da criação.

Isso é importante porque alguns incautos e desavisados afirmam que a expressão “próximo” inclui animais. No entanto, o contexto do texto deixa claro que era a pessoas que Moisés estava falando (Lv 19.16,17). Isso é testificado por Jesus quando fala desse mandamento a um escriba ensinando quem era o seu próximo. Jesus apontou para uma pessoa, um samaritano (Lc 10.29-37).

Portanto, o mandamento de amar o próximo é somente canalizado para pessoas e nunca para animais. Na parábola do grande trono branco Jesus afirma que fora ficarão aqueles que não fizeram nada às pessoas e não a animais (Mt 25.31-46).

Paulo e os demais apóstolos, quando ensinaram sobre o amor ao próximo, demonstraram que é somente a seres humanos e não a animais. Eles escreveram:

Romanos 13:8  8 A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama o próximo tem cumprido a lei.

Tiago 2:8-9   8 Se vós, contudo, observais a lei régia segundo a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo, fazeis bem;  9 se, todavia, fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, sendo argüidos pela lei como transgressores.

Nesses dois textos, tanto Paulo como Tiago demonstram claramente que se referem a seres humanos e nunca a animais. Isso significa que uma pessoa pode tratar muito bem seu cão, mas pecar terrivelmente contra o seu próximo em não ajudá-lo em sua necessidade.

Portanto, o Cristianismo trouxe até a idade Média a seguinte pirâmide de valores:




Deus no ápice da pirâmide; depois viria o homem como criação de Deus e que estava no centro da criação; depois, viriam os animais e outras criações. As pessoas do ocidente pensavam assim com a ajuda da propagação do cristianismo.

A partir do Renascimento, esse pensamento de valor Deus-homem-animal começou a ser golpeado, mas, mesmo assim, ainda se tinha a ideia que Deus estava acima de tudo e o homem como uma criação eminente. Leonardo da Vince retratou muito bem isso quando pintou “o homem Vitruviano”. Mesmo com esse valor sendo arranhado, o homem estava no centro de todo universo.

No entanto, a partir do iluminismo, esses valores foram, aos poucos, nivelando-se e voltando ao pensamento pagão homogênio de valores Deus-homem-animal. Deus começou a ser apenas uma invenção humana, nivelando-se ao humano e o homem passou a ser apenas uma extensão dos animais.

Um filósofo que ajudou a propagar essa ideia na modernidade foi o filósofo Spinoza (1632-1677). Segundo ele, Deus era apenas extensão da natureza e que ambos eram a mesma realidade e uma única substância, embora tendo nomes diferentes. Era o que ele chamava em latim de Deus sive nature (Deus ou natureza). Para Spinoza, os valores da pirâmide acima já não tinham mais sentido, pois ele adotava agora uma espécie de Panteísmo, influenciando a maioria dos pensadores iluministas que viriam.

O ápice dessa tendência foi exatamente a edição do livro do naturalista Charles Darwin em 1859. Para Darwin, o homem era apenas uma continuidade dos demais animais, já que ele viria de um ancestral comum, demonstrando, assim, em seu livro por um desenho de uma árvore.

Na verdade, Darwin estava apenas dando continuidade ao pensamento de Lamark quando lançou a sua obra Histoire Naturelle des Animaux sans Vertèbres em 1815 que afirmava “que todas as espécies, compreendendo o próprio homem, derivam de outras espécies” [Prefácio de DARWIN, Charles. A Origem das Espécies. Porto: Lello & Irmão – editores, 2003].

Aos poucos, Darwin eliminava os valores da pirâmide Deus-homem-animal. Ele tinha recebido uma educação teológica em Cambridge e em várias páginas Darwin ainda falava sobre criação. No entanto, em 1871, Darwin se desfaz por completo dos valores que aprendeu da Bíblia em Cambridge. Ele escreve em seu livro “A origem do homem e a seleção sexual” do qual afirma em sua introdução:

Parecia-me suficiente ter indicado na primeira edição da minha Origem das Espécies, que essa obra irradiaria luz sobre a origem do homem e sua história o que implica que o homem deve ser incluído com os demais seres viventes em qualquer conclusão geral que seja, no que tange ao modo do aparecimento sobre a terra. [DARWIN, Charles. A Origem do Homem e a Seleção Sexual. Curitiba: Hemus, 2002, p. 11]

Com essa declaração, Darwin se separava do modelo bíblico da Revelação Deus-homem-animal de uma forma definitiva.

O outro filósofo a cooperar para desfazer a pirâmide dos valores Deus-homem-animal foi Friedrich Nietzsche (1844-1900). Para Nietzsche, a pirâmide dos valores acima jamais poderia se sustentar. Ele faz a ousada declaração que “Deus está morto”. Ou seja, o homem, libertado de qualquer vínculo, é senhor de si mesmo e dos outros. Esse homem é desprezador de qualquer verdade estabelecida ou está apto para estabelecer ou para exprimir a vida, em todos os seus atos.

Para Nietzsche, Deus está morto no sentido que “o homem nasceu para viver na terra, e não existe nenhum outro mundo para ele fora este. A alma, que deveria ser o sujeito da existência ultramundana, é insubsistente; o homem é somente corpo: ‘eu sou corpo e nada mais’” [MONDIN, Batistta. Curso de Filosofia. São Paulo: Edições Paulinas, 1983, p.77]

A partir desse momento, o homem deixou completamente de levar em conta a pirâmide bíblica Deus-homem-animal. Deus estava morto, o homem é somente corpo e sem nada que seja mais excelente que os animais. O pensamento pós-moderno secular, portanto, coloca esses valores de uma forma monolítica sem nenhuma distinção. O homem é apenas uma extensão de Deus, ou Deus é apenas uma invenção humana e os animais estão no mesmo nível dos homens.

Esse pensamento pós-moderno é o que tem levado muitas pessoas a preocupar-se mais com baleias que com abortos ou mortalidade infantil. Jovens, como os do Green Peace, que deixam suas casas correndo perigo nos mares para coibirem a morte de baleias e outros animais. No entanto, esses mesmos jovens nunca levantaram suas vozes contra o aborto desenfreado em seus países ou contra a violência ou corrupção em países pobres e emergentes.

Esse mesmo pensamento é que tem levado a formar diversas ongs para salvar animais e negligenciado trabalhos com crianças de rua e necessitados. Com essa ideia que bilhões são gastos com acessórios desnecessários para cães e gatos, sendo que milhões de crianças esperam por um pedaço de pão em lixões nas grandes cidades.

Esse mesmo pensamento é que tem levado pessoas a preferirem salvar cães dos laboratórios a deixar para fazer pesquisas contra o câncer e outras doenças que salvarão muitas vidas. Quando foi aprovado a pesquisa com fetos para célula-tronco, ninguém se manifestou a respeito. Nenhum grupo se manifestou, exceto apenas alguns poucos que levantaram as suas vozes em seus blogs.


Qual a relação do cristão para com o animal?

A Bíblia nos dá princípios também para tratar bem os animais domesticados:

Provérbios 12:10  10 O justo atenta para a vida dos seus animais, mas o coração dos perversos é cruel.

O verbo hebraico yada’ traduzido para “atentar” quer dizer “dar atenção, observar cuidando”. O sentido é que o justo cuidará bem do seu animal. O cristão deve alimentar, não deve espancar nem levá-los a uma situação de dor sem necessidade (Dt 25.4). No entanto, jamais esse princípio dá base para os colocarmos acima dos homens ou que não os use para serviço do homem em vários aspectos, inclusive em experiências (como os judeus usavam para o sacrifício) ou para salvar vidas humanas. Entre uma experiência com um feto e um cão, um cristão que tenha a revelação da pirâmide bíblica não pensará duas vezes em escolher o cão. No entanto, um cristão com as ideias desse século ficará confuso.

CONCLUSÃO:

Longe de mim fazer uma apologia a uma atitude irresponsável para com os animais. No entanto, jamais devemos colocá-los acima do ser humano, ou tratá-los como tal. Os animais foram criados por Deus para que eles estejam ao nosso serviço (sacrifício, experiências, cargas), alimento e companhia. Portanto, jamais podemos acompanhar o espírito desse século, mas entender que Deus estará sempre acima do homem que estará sempre acima dos animais.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

MISSÃO INTEGRAL E O PROBLEMA DA SUPERVALORIZAÇÃO DO POBRE – UMA ANÁLISE BÍBLICA





A história tem demonstrado que toda heresia provém de uma distorção de algo correto ou perfeitamente aceitável na vida cristã. Às vezes, as intenções são perfeitas, começa-se com base nas Escrituras, mas por falta de um estudo mais aprofundado delas, a Igreja entra em uma distorção que pode ser prejudicial à sua vida. Por isso, a igreja precisa de pastores, mestres e doutores cujos dons foram dados por Jesus (Ef 4.7; 11).

Nesses últimos anos, tem-se falado muito em Missão Integral e o abandono da Igreja em influenciar varias áreas na sociedade. Devido a essa ênfase de congressos e livros escritos sobre o tema, muitos têm a tendência de associar Missão Integral com “idéias de esquerda”, “marxismo evangélico”, “Teologia da libertação evangélica”. Talvez, seja por causa de algumas interpretações que beiram às interpretações desses grupos e ideologias supra citados.

A Missão Integral, apesar de aparentar ser uma ideologia nova e recheada de marxismo ou liberalismo teológico, ela demonstra ser completamente bíblica e que suas reivindicações teológicas demonstram que ela, por essência, precisa ser integral, pois caso contrário, não se tem Missão da igreja, mas apenas uma caricatura do que chamam de Missão, pois é incompleta [veja o texto que escrevi sobre isso].

A Convenção Batista Nacional fez a sua “1a Consulta Nacional de Missão integral – daTeologia à prática”. Foram dias de muita reflexão, confrontos e de muita comunhão. Cada preletor demonstrava muita coerência entre a sua pregação e a sua prática. Na verdade, eu me senti como uma criancinha diante de tantos gigantes anônimos da CBN; pastores que se podia perceber Cristo em suas vidas, que viviam Cristo e que estão cumprindo a Missão da Igreja na plena expressão do seu significado.

No entanto, precisa-se pensar que a Missão da Igreja não se baseia somente em projetos Eclesiásticos ou paraeclesiásticos, mas na vivência da vida na sociedade influenciando em todas as áreas, já que a Missão foi dada à Igreja na sua individualidade. Seja na política, na universidade, na família, ou em qualquer área, a mensagem do Evangelho deve vir acompanhada de prática.

A 1a Consulta da CBN foi muito feliz em colocar como tema “da Teologia à prática”. É importante que a nossa prax seja baseada na nossa doxa. Ou seja, precisamos ter ortopraxia com base na nossa ortodoxia. A Teologia precisa ser o alicerce onde construímos a nossa prax. Por isso, precisamos analisar com coerência as Escrituras para que não caiamos nos erros dos liberais e católicos da Teologia da Libertação que fazem, de fato, porém, sem significado nenhum, pois essas obras se tornam um fim em si mesmo, transformando-se todo esforço em fumaça.

Um dos grandes perigos à visão da Missão Integral é a supervalorização dos pobres. Os que defendem essa ideia usam, principalmente, textos dos Evangelhos onde Jesus ensina e fala em advertência aos ricos ou ensinamentos aos pobres.

Pretendo analisar exegeticamente 3 textos, que, se não houver uma hermenêutica correta, ter-se-á a tendência de concluir que Jesus deu preferência aos pobres e que estes tinham um certo privilégio diante de Deus, afirmando, com isso, que a salvação de pessoas ricas e cultas é um grande milagre contingente, mas os pobres não é tanto um milagre, é algo natural que está na essência deles.

No entanto, o que as Escrituras afirmam sobre o pobre e o rico é exatamente isso? Será que Jesus deu preferência mais a pobres do que a ricos? Jesus somente deu “ais” aos ricos? Pretendo responder analisando exegeticamente 3 textos que foram citados na Consulta e analisá-lo de uma forma mais exegética.

1. Análise de Lucas 6.24,25

Lucas 6:24-25  24 Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação.  25 Ai de vós, os que estais agora fartos! Porque vireis a ter fome. Ai de vós, os que agora rides! Porque haveis de lamentar e chorar.

Uma regra Básica de Hermenêutica é analisar cada texto e cada sentença segundo o seu contexto imediato, do livro, de toda a Bíblia, e, muitas vezes, o contexto histórico. Para que se entenda a advertência contundente de Jesus aos ricos, precisa-se entender o contexto que os judeus entendiam essa expressão.

Havia em Israel uma classe social que os judeus chamavam de Am-ha-arez. Essa classe era constituída de pessoas bem pobres e a maioria habitava na região da Galileia, incluindo Cafarnaum, Corazim e Betsaida. A palavra Am-ha-arez quer dizer “o povo da terra”, mas depois de muito tempo significava uma grande variedade de grupos misturados na Palestina. Eram grupos e etnias que passaram a habitar na Palestina no Período do exílio da Babilônia. Esses povos se misturaram com os camponeses pobres. Dentre esses estavam samaritanos, arameus, filisteus e até mesopotâmicos. Os judeus, portanto, tinham grande desprezo por essas pessoas, principalmente por samaritanos.

Por causa disso, os judeus de outros lugares tinham desprezo por essas regiões e por essas pessoas. Havia no Talmude uma expressão do rabino Hillel que dizia: “não têm consciência e podem ser tudo, menos humanos”. Outro rabino chamado Jonathan “esperava que cada um desses miseráveis fossem cortados em dois como um peixe”. Ainda afirmou: “um judeu não deve casar-se com a filha de um Am-ha-erez, pois o livro sagrado de Deuteronômio dizia no capítulo vinte e sete: “maldito aquele que se ajuntar com animal”. [Para ver melhor sobre isso, DANIEL-ROPS, Henri. A vida diária nos tempos de Jesus. São Paulo: Vida Nova, 1988, p. 102.]

Para agravar mais a situação, havia uma má compreensão dos judeus de Dt  28.15-17

Deuteronômio 28:15-17  15 Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do SENHOR, teu Deus, não cuidando em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos que, hoje, te ordeno, então, virão todas estas maldições sobre ti e te alcançarão:  16 Maldito serás tu na cidade e maldito serás no campo.  17 Maldito o teu cesto e a tua amassadeira.

Para um judeu, alguém era pobre por que as maldições de Dt 28 estavam sobre essa pessoa e os ricos eram considerados abençoados, pois as bênçãos de Dt 28 estavam sobre eles.

Deuteronômio 28:3-6  3 Bendito serás tu na cidade e bendito serás no campo.  4 Bendito o fruto do teu ventre, e o fruto da tua terra, e o fruto dos teus animais, e as crias das tuas vacas e das tuas ovelhas.  5 Bendito o teu cesto e a tua amassadeira.  6 Bendito serás ao entrares e bendito, ao saíres.

No entanto, eles entenderam errado o texto, pois o texto queria demonstrar que essas bênçãos eram inatingíveis sem a graça de Deus, pois havia um mandamento que comprometia todos os demais:

Deuteronômio 28:58-59  58 Se não tiveres cuidado de guardar todas as palavras desta lei, escritas neste livro, para temeres este nome glorioso e terrível, o SENHOR, teu Deus,  59 então, o SENHOR fará terríveis as tuas pragas e as pragas de tua descendência, grandes e duradouras pragas, e enfermidades graves e duradouras;

Esse mandamento demonstrava que uma simples transgressão trazia todas as maldições sobre eles e que somente a expiação, Cristo, preparada antes da fundação do mundo poderia satisfazer a justiça de Deus. Nesse caso, todos estavam debaixo das maldições da Lei. Tantos ricos como pobres precisavam da graça, pois o texto não ensina que as riquezas viriam pela obediência, pois todos transgridem a Lei de Deus.

A razão da admiração dos discípulos quando Jesus afirmou que era impossível um rico entrar no Reino dos céus se devia exatamente a isso. Eles não entenderam o que Jesus afirmou que aqueles que poderiam ter a vida eterna, na mentalidade judaica, se colocavam numa situação de total impossibilidade e que somente Deus poderia fazer algo.

Mateus 19:24-26  24 E ainda vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.  25 Ouvindo isto, os discípulos ficaram grandemente maravilhados e disseram: Sendo assim, quem pode ser salvo?  26 Jesus, fitando neles o olhar, disse-lhes: Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível.

Portanto, os judeus acreditavam que os pobres eram malditos e dificilmente poderiam ganhar a vida eterna. Por outro lado, quem fosse rico, já tinha a vida eterna como garantia. Jesus estava exatamente indo contra essa ideia que o levou a falar vários “ais” a eles. A expressão rico, aqui, portanto, demonstrava pelo contexto geral alguém autosuficiente que se achava salvo pelas suas condições e cumpridores da Lei.

Porém, Jesus falou “ais” para pobres também. Talvez, mais contundentes que os que ele falou aos ricos:

Mateus 11:20-24  20 Passou, então, Jesus a increpar as cidades nas quais ele operara numerosos milagres, pelo fato de não se terem arrependido:  21 Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza.  22 E, contudo, vos digo: no Dia do Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras.  23 Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje.  24 Digo-vos, porém, que menos rigor haverá, no Dia do Juízo, para com a terra de Sodoma do que para contigo.

As cidades de Corazim, Betsaida e Cafarnaum eram cidades habitadas pelos Am-ha-erez; pessoas paupérrimas e totalmente desprezadas na sociedade. No entanto, Jesus increpou sobre eles “ais” contundentes demonstrando claramente que ele jamais deu privilégios a pobres. Quando ele falou “ais” aos ricos, ele percebe que a semântica da palavra tinha a ver com autossuficiência diante dos judeus que se consideravam abençoados por Deus e com garantia da salvação. Portanto, jamais se pode interpretar esses “ais” a ricos no sentido de finanças, mas a todos aqueles que se sentem seguros por seus próprios méritos e não são “pobres de espíritos” como afirma Mateus no sermão de Jesus (Mt 5.3).

2. Análise de Lucas 4.18

Lucas 4:18  18 O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos,

Aconteceu algo interessante nessa passagem. Jesus estava lendo o texto de Is 61.1 em hebraico, pois para a leitura da Lei, usava-se o hebraico com um interprete em aramaico ao lado. No entanto, Lucas usa a passagem da LXX (tradução do hebraico para o grego). Isso tem um significado bem interessante. Lucas entendeu que a passagem traduzida da LXX interpretava muito bem o texto em hebraico.

Isso quer dizer que os rabinos, escribas da LXX e Lucas reconheceram que a palavra πτωχος ptöchos – pobre traduziria muito bem o adjetivo hebraico ענו ‘anav que quer dizer “manso”, “humilde”. Dentro da cosmovisão da época, os ricos eram autossuficientes de salvação por se acharem dentro já das bênçãos da Lei mosaica. No entanto, Lucas faz questão de colocar o texto da LXX para demonstrar que Jesus veio buscar pessoas com uma motivação contrária do que eles se achavam – quebrantados e mansos.

Da mesma forma com a palavra τυφλοι “cegos”. Não há essa palavra no texto hebraico, mas os rabinos da LXX e Lucas entenderam que ela queria dizer muito bem para a época quando substituía a expressão שבוים “cativos” (verbo hebraico no particípio), pois eram como cegos espirituais.

Mediante isso, o texto não nos dá autorização para interpretá-lo de forma literal as palavra “pobres” e “cegos”, pois elas vêm substituindo as palavras “quebrantados” e “cativos”. Todas essas têm profundo significado espiritual. No próprio texto dá para se notar que o sentido que Jesus quer demonstrar é espiritual pelas expressões alternadas “libertação aos cativos” e “liberdade aos oprimidos”. Todas essas expressões demonstram ser no sentido espiritual e não literal. William Hendriksen, em análise dessa passagem de Lucas, afirma:

"O orador em Isaías estava pensando nos desamparados, naqueles que tinham consciência dessa condição. Isaías 66.2 fornece um bom comentário: 'o homem para quem olharei é este: o aflito e abatido de espírito e que treme da minha palavra'". [HENDRIKSEN, William. Comentários do Novo Testamento – Lucas Vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p.343.]

Portanto, quando Jesus cita o texto do profeta Isaías, ele quer demonstrar que ele foi ungido para proclamar aos quebrantados, mansos, que os rabinos da LXX chamavam de pobres. Lucas usou a mesma palavra para falar sobre os humildes e quebrantados de coração, pois os pobres esperavam somente na vinda do Messias que viria e restauraria todas as coisas, indo contra a ideologia dos religiosos e judeus da época.

Se esse texto dissesse conforme alguns interpretam, haveria profunda contradição quando os evangelistas enfatizam Jesus evangelizando Nicodemos, Zaqueu, o Jovem Rico, o centurião romano (pois ele tinha escravos). Esses homens eram profundamente ricos para a época. Enfim, Jesus gastou tempo evangelizando tanto ricos como pobres. Portanto, qualquer interpretação que privilegie pobres na evangelização e salvação é digna de que seja revista e que seja abandonada.

3. Análise de Marcos 10.25-27

Mark 10:25-27  25 É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.  26 Eles ficaram sobremodo maravilhados, dizendo entre si: Então, quem pode ser salvo?  27 Jesus, porém, fitando neles o olhar, disse: Para os homens é impossível; contudo, não para Deus, porque para Deus tudo é possível.

Essas palavras estão no contexto do diálogo entre Jesus e um jovem rico que o abordou perguntando o que faria para herdar a vida eterna. Notemos que a pergunta deste jovem era apenas retórica, pois era judeu, cumpridor da lei (aos seus olhos) e rico. Para ele, não faltava absolutamente nada.

Jesus, então, começa a desconstruir, primeiramente o conceito que ele tinha de Deus, depois, de si mesmo e da Lei. Jesus queria demonstrar aos seus discípulos que o homem mais honesto que possa ser e rico precisava de um milagre para ser salvo. Jesus jamais está privilegiando os pobres nesse texto, mas enfatizando diante da cosmovisão errada que tinham acerca dos ricos, que a salvação é um milagre.

O próprio Jesus também demonstrou profunda dificuldade para com judeus pobres que o seguiam, pois ele afirmou a esses judeus que tinham fome e que o seguiam simplesmente por causa da multiplicação dos pães (Jo 6.34):

John 6:42-44  42 E diziam: Não é este Jesus, o filho de José? Acaso, não lhe conhecemos o pai e a mãe? Como, pois, agora diz: Desci do céu?  43 Respondeu-lhes Jesus: Não murmureis entre vós.  44 Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia.

Notemos que eram judeus da Galileia, pois eles afirmam que eles conheciam os pais de Jesus. No entanto, Jesus demonstra profunda impossibilidade na salvação vinda deles mesmos, exceto, se o Pai os trouxesse. João usa um verbo grego muito forte ἑλκύω / helkuö que quer dizer “agarrar, puxar”. O Pai precisa trazer na força de sua soberania para que aqueles que eram pobres fossem salvos. Ou seja, era impossível para eles, mas completamente possível para Deus. Portanto, todos precisam de um milagre de Deus para serem salvos.

4. O cristão e os pobres

Precisamos ver os pobres e suas necessidades como um dos aspectos da obediência do amor ao próximo e não como um fim em si mesmo na Missão da Igreja de Cristo. Por exemplo, a igreja não pode ver somente a necessidade de pessoas pobres nas favelas, mas as necessidades de jovens e professores nas universidades que precisam da luz do Evangelho também, de artistas, políticos e atletas que precisam de um Evangelho contextualizado e inteligente.

Outra distorção e perigo daqueles que aderem à Missão Integral é achar que o estudo e a inteligência são incompatíveis no Reino de Deus. O apóstolo Paulo, dizem, é apenas uma exceção. Será? Novamente, esses que afirmam isso erram por problemas exatamente nos estudos. A maioria dos escritores do NT era erudito e com grande conhecimento do VT, hebraico, grego e do contexto da sua época. Tem-se Lucas, que era médico e um historiador, pois buscou fontes históricas e escreveu com um grego de alta erudição; tem-se Mateus, um publicano com conhecimento profundo do VT e do grego; Marcos; João, apesar de ser um pescador, era um profundo conhecedor do grego, traduzindo termos hebraicos do seu Evangelho para o grego; tem-se Paulo que dispensa qualquer comentário pela sua erudição em várias áreas; o autor aos Hebreus, um profundo conhecedor da Lei de Moisés, do grego e da literatura. Portanto, Deus usou homens com profundo conhecimento e erudição. Paulo não foi uma exceção.

Alguns usam a passagem que Jesus afirma:

Lucas 10:21  21 Naquela hora, exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado.

Quem eram os Sábios e instruídos que Jesus estava falando? Claro que falava dos escribas, fariseus e saduceus que eram instruídos na Lei, mas desprezavam completamente as palavras de Jesus. Jamais Jesus quis falar do conhecimento no sentido geral, da reflexão ou da necessidade de mais estudo.

Se o estudo fosse incompatível ao Reino de Deus, seria um absurdo Jesus dar à Igreja os Mestres. Paulo ensina que o presbítero precisa ser apto para ensinar (1Tm 3.2). A palavra grega διδακτικος / didaktikos significa habilidade ao ensinar e isso só se obtém com estudo e inteligência. Portanto, aos que ensinam que a Missão integral abrange somente os que não são inteligentes e sábios, devem estudar mais.

Os pobres devem ser vistos pela igreja da mesma forma que os universitários, os artistas, os jogadores, músicos etc. Muitos destes, muitas vezes, são ricos que precisarão de um evangelho contextualizado e de projetos que os alcancem. Assim como a Missão é tanto em Jerusalém, Judéia, Samaria até os confins da Terra, devemos pensar em todas as classes para que sejam alcançadas pela igreja.

 O apóstolo Paulo tinha essa visão:

Gálatas 2:9-10  9 e, quando conheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram reputados colunas, me estenderam, a mim e a Barnabé, a destra de comunhão, a fim de que nós fôssemos para os gentios, e eles, para a circuncisão;  10 recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer. [grifo meu]

Esse texto demonstra que a evangelização aos pobres não pode ser um fim em si mesmo ou única na Missão da Igreja. Paulo afirma que ele se esforçou, foi diligente para lembrar dos pobres. O verbo grego σπουδαζω / spoudazö significa “ser diligente”, “procurar fazer algo”. Isso significa que se Paulo se esforçou para fazer é porque ele tinha juntamente outros objetivos que até poderiam fazê-lo esquecer dos pobres.

Portanto, os pobres em si jamais podem ser a prioridade da igreja, mas, sim, todos os que precisam da luz de Cristo, sejam pobres, sejam ricos, sejam sábios, sejam ignorantes como Paulo afirmou:

Romanos 1:14  14 Pois sou devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes;

Paulo se sentia devedor de todas as pessoas e não somente de um grupo. Por isso, precisamos incluir todas as pessoas de todas as classes em suas necessidades. Devemos lembrar que o homem moribundo que o Bom Samaritano ajudou era um judeu, e se ele vinha de Jerusalém e foi roubado era por que ele tinha dinheiro (Lc 10.30). Portanto, não estava na classe dos Am-ha-erez, ou dos pobres.


Portanto, assim como se deve ver o homem no seu todo, precisa-se ver o homem em todas as suas classes, não preterindo nenhuma, pois o Evangelho é integral e a sua Missão também.