terça-feira, 22 de agosto de 2006

O DILEMA DO DIVÓRCIO

Falar sobre o divórcio não é fácil. A dificuldade está por que aqueles que querem buscar base nas Escrituras para esse tema, encontram padrões muito elevados, que aos olhos desta era pós-moderna, são difíceis e intransponíveis de serem realizados e colocados em prática. Depois, por parecer que aquele que fala está isento de algum problema ou como se falasse de um pedestal, esquecendo as feridas, as mágoas e a frustração de um rompimento matrimonial por aqueles que, até mesmo antes da conversão, passaram por esse problema; ou líderes que tiveram a infelicidade de passar por um segundo casamento, trazendo mais confusão às mentes que buscam base nas Palavras da Bíblia.
Os tempos estão difíceis. Há uma pressão para que a Igreja se conforme com o pensamento deste mundo, trazendo enganos e distorções doutrinárias para tentar aprovar o que a Bíblia condena e tentar condenar o que a Bíblia permite. O que se pode perceber, é que, como nunca, o número de divórcios tem acontecido em todo o mundo. Segundo o livro do Dr. John Stott “Grandes Questões sobre Sexo” (Editora Vinde. Niterói,1993) o número de divórcio no Reino Unido aumentou cerca de 600 por cento nos últimos vinte e cinco anos e que para cada 3 casamentos, 1 é desfeito. Nos EUA, mais de 1 em cada 2, segundo a pesquisa. Embora que a pesquisa seja de 1980 e que fale da Europa, o Brasil não deve estar muito atrás. Para agravar mais a situação, o número de divórcio entre pastores e líderes eclesiásticos é alarmante. Há em algumas denominações até uma tentativa de discutir o problema e chegar a uma conclusão de como se faria no caso de pastores que passaram ou que desejam se divorciar. Vários são os motivos para que o divórcio seja cada vez mais usado e aconteça entre pastores e líderes. Mais uma vez trar-se-á o que Dr. Stott ressaltou com muita propriedade no seu livro. Ele colocou várias razões que explicam o crescimento da taxa de divórcio; porém, ele destacou e chamou a maior de todas as razões “o declínio da fé cristã no Ocidente juntamente com a perda do comprometimento em relação à compreensão cristã da santidade e permanência do casamento” (STOTT, 1993, pág 66). Ele ainda fala do aumento da secularização trazendo influência à Igreja de todas as formas. Isso preocupa, pois desejar o divórcio, sem uma base bíblica é fazer como o Rev. Stott escreveu no seu mesmo livro: é “celebrar o fracasso como sucesso, a desintegração como crescimento e o desastre como vitória” (pág. 69).
O objetivo desse ensaio é demonstrar o que a Escritura fala sobre o divórcio, pois se ela é a única regra de fé e prática, a fonte de nossas respostas estará nela, mesmo que haja confrontação das dores e dos infortúnios. A Bíblia precisa ser lida contra si mesmo como falou Lutero, pois só assim ela trará efeitos poderosos naqueles que a lêem e estudam com sinceridade.

O VALOR DO CASAMENTO

Em Gênesis Deus começa revelando a sua vontade ao homem, feito à sua imagem e semelhança, mostrando o valor do casamento. Em Gn 2.23,24 Moisés revela a vontade de Deus ao criar o primeiro casal. Deus fez questão de tirar da costela de Adão sua companheira e lhe trouxe. Deus poderia ter criado Eva da mesma forma que Adão, mas Deus queria mostrar-lhe que a sua companheira era alguém de sua própria carne e, portanto, sua união era heterossexual (sexos diferentes) e indissolúvel. Adão entendeu o que Deus fizera, pois fez logo a primeira poesia falada: Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada (v.23). Moisés completa dizendo que os dois se tornarão uma só carne (v.24). O plano divino no início era que o casamento fosse indissolúvel e eterno, já que o homem e mulher foram criados sem pecado, e por isso, sem a conseqüência da morte física. O homem e mulher seriam uma só carne, um corpo onde ambos refletissem, juntos, o ápice da criação de Deus, pois foram criados à sua imagem e semelhança. O pecado afetou a eternidade de ambos, mas o conceito de algo indissolúvel, mesmo assim, ficou, pois foi autenticado por Jesus. Em Mateus 19.4-6 Jesus ratifica o que Moisés escreveu em Gênesis e amplia mais ainda o sentido quando diz que o Criador fez macho e fêmea e os dois se tornaram uma só carne, portanto, o que Deus ajuntou, não separe o homem (v.6). O verbo grego usado por Mateus é suzeugnumi que significa unir por jugo como a animais. O sentido é de uma profunda dependência e que ele é aquele que faz a união e nenhum homem pode separar.
Moisés também demonstra a importância do compromisso social e reconhecido pela sociedade, formando o casamento. A forma verbal hebraica hiphil vayebi'eha traduzida por “lha trouxe” parece algo feito em cerimônia, pois, logo depois, Moisés fala uma frase conhecida da sua época, já que Adão e Eva não tinham pais, mas foram criados diretamente por Deus: Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne (v.24). A mesma construção hebraica foi usada mais uma única vez em Gn 24.67 quando Isaque levou Rebeca até a tenda de sua mãe Sara. No final do verso Moisés explica: e esta lhe foi por mulher. Esse ato de deixar os pais era algo feito em cerimônia e reconhecido na época por um compromisso social, pagando um dote ao pai da noiva. Moisés deixou claro que essa união era solene, reconhecida pela sociedade e indissolúvel. Paulo interpreta esse uma só carne como algo indissolúvel e que exige fidelidade (1 Co 6.16). Ele demonstra, nessa expressão, a instituição do casamento quando fala aos Efésios que os maridos devem cuidar da sua própria esposa e por isso que deixaram pai e mãe e uniram-se à sua mulher (Ef 5.31.). Os judeus entenderam o mandamento de Moisés do casamento, que era uma instituição social e reconhecida na sociedade, pois seria impossível condenar ou julgar alguém de adultério se não houvesse uma instituição formal e social, regidas por leis (Lv 20.10). Deus quando inspirou Moisés do não adulterarás (Ex 20.14), o povo estava perfeitamente consciente da instituição do casamento que era um ato civil reconhecido por toda a sociedade da época. Paulo reconheceu isso quando escreveu aos romanos. Ele disse em Rm 7.2,3 que a mulher estaria ligada ao marido pela LEI. O que Paulo tenta evocar é exatamente o que em Gn 2.24 disse e que os judeus entenderam levando a exaltar a celebração do casamento. Jesus considerou digno de relevância, pois foi lá que fez seu primeiro milagre (Jo 2). Quando se vê o valor que Deus dá ao casamento e se percebe o seu plano inicial, pode-se ter a noção de quão destruidor é o divórcio. Não é à toa que Deus expressa o que pensa do divórcio através do profeta Malaquias dizendo que o odeia (Ml 2.16), pois torce o plano original para o qual o homem foi criado. Os valores do casamento e do divórcio são inversamente proporcionais. Se o valor ao casamento e à reconciliação forem dados devidamente, o divórcio será praticamente nulo nas mentes.

A CLÁUSULA EXCEPTIVA DE JESUS PARA O DIVÓRCIO

Esta parte é a mais polêmica, pois diz respeito à exceção que Jesus falou para que acontecesse o divórcio. A grande polêmica é se essa exceção dá permissão ao cônjuge traído a obter um segundo casamento ou não. O único que fala na cláusula exceptiva é Mateus: No sermão do Monte 5.32 e, em outra ocasião, nos questionamentos dos fariseus 19.9. A parte mais completa está em Mt 19.3-10.
Precisa-se saber de duas verdades iniciais do texto. A primeira é que Mateus registra que os fariseus estavam testando Jesus; a segunda, que a questão era os motivos do repudiar (Mt 19.3). Não era o divórcio em si, mas os motivos que poderiam levar ao divórcio. Portanto, Jesus estava tratando dos motivos que se poderia levar a uma ruptura do casamento.
O texto não deixa explícito como seria esse teste; mas tudo indica que eles queriam colocar Jesus contra os dois grandes rabinos e mestres da época, Shammai e Hillel. O teste era que qualquer resposta de Jesus seria como afrontar os ensinamentos desses rabinos que pensavam diferentes em relação ao divórcio. O rabino Hillel era mais liberal. Ele interpretava a expressão “coisa indecente” que está no texto de Dt 24.1 como qualquer motivo que o marido visse na sua esposa, incluindo até se o marido achasse outra mulher mais atraente e mais bonita para justificar o divórcio. O rabino Shammai era mais rígido interpretando esta expressão como uma ofensa apenas para o casamento, mas seria no sentido geral. Jesus não concordou com nenhum dos dois, pois deixou somente uma única exceção ao divórcio. O tiro saiu pela culatra, porque Jesus colocou um nível tão alto que os discípulos disseram que não convém casar, se fosse dessa forma (Mt 19.10). Primeiramente Jesus desfaz uma má interpretação dos fariseus de Dt 24.1-4. Segundo os rabinos da época, a interpretação desse texto era um mandamento ao divórcio. Por isso que eles disseram que Moisés mandou; mas Jesus mudou o verbo para permitir. Na verdade, Moisés não estava ordenando o divórcio, mas dificultando-o porque os versos 1 a 3 são partes de uma condição, chamada prótase. O que Moisés estava ensinando era que se um homem fosse casado e achasse coisa indecente e desse carta de divórcio à sua mulher e ela casasse com outro, ele não poderia voltar mais para ela, depois de ter falecido seu segundo esposo. O mandamento era para não tornar a desposá-la; não era um mandamento para o divórcio. Jesus explica que foi necessário Moisés colocar esse mandamento por causa da dureza do coração, pois a natureza humana pecaminosa necessita de dificuldades para que não possa propagar o mal. Era necessário ter esse mandamento para que o casamento não fosse banalizado, como estava sendo, porém o mesmo Moisés já tinha escrito em Gênesis sobre a permanência do casamento e repetido por Jesus (Gn 2.24; Mt 19.4,5).
Jesus passa falar com autoridade de Filho de Deus dizendo que qualquer que repudiar sua mulher casando com outra, não sendo por imoralidade, adultera e aquele que casar com a repudiada adultera também. As versões divergem na tradução da palavra grega porneia. Essa palavra é usada pelos apóstolos para todo tipo de imoralidade sexual, incluindo vários pecados nessa área (Rm 1.19; 1 Co 5.1; 6.13; 2 Co 12.21; Gl 5.19; Ef 5.3; Ap 19.2). A NVI traduziu muito bem o substantivo feminino porneia para imoralidade sexual nessa passagem, pois o seu significado diz respeito a todo tipo de perversão sexual (adultério, fornicação, homossexualismo e bestialidade). Jesus coloca a prática de imoralidade sexual (porneia) como uma única exceção para um divórcio. Mesmo assim não é um mandamento, mas uma concessão; ou seja, Jesus não está ordenando o divórcio imediatamente após uma traição ou após uma atitude de imoralidade sexual, mas dando uma concessão ao cônjuge traído de uma segunda chance conjugal, caso não tenha uma reconciliação plausível. É digno de nota que, no capítulo anterior, Mateus já tinha escrito sobre o perdão e mostrado a parábola do credor incompassivo (Mt 18.21-35). Portanto, Mateus tinha a intenção de mostrar à Igreja da época que o divórcio só pode ser tratado quando se estiver consciente sobre o perdão e conhecer plenamente o plano de Deus sobre o casamento.
Muitos advogam que a cláusula exceptiva de Jesus não tem base para um segundo casamento, mas apenas para o divórcio; porém, essa conclusão fica deficiente de base exegética e hermenêutica. O divórcio na época vinha acompanhado de um segundo casamento. No próprio texto pode-se perceber isso, pois a ênfase da pergunta dos fariseus era se podiam repudiar por qualquer motivo. Fica óbvio que seria para casar de novo, pois eles não tinham em mente o celibato depois do divórcio. Jesus confirma essa idéia quando fala aquele que casar com outra (Mt 19.9). Fica explícito que Jesus sabia que os fariseus entendiam que depois do divórcio vinha um casamento. No Sermão do Monte, Jesus exclui qualquer carta de divórcio se não pela cláusula exceptiva, a porneia (Mt 5.31,32). Para os fariseus, bastava dar uma carta de divórcio para justificar o segundo casamento, mas Jesus excluiu essa possibilidade, exceto se houvesse uma prática imoral, demonstrando que Jesus tinha a intenção de permitir o segundo casamento à parte traída.
O apóstolo Paulo, apesar de não tocar na exceção que Jesus ensinou, mas não significa que ele a desconhecia, nem mesmo deixou de levar em conta essa exceção. Quando Paulo fala em 1 Co 7.10,11 que a mulher ao se apartar de seu marido deve ficar sem casar agamos ou que se reconcilie com ele, Paulo deixou de fora a cláusula exceptiva de Jesus como motivo. O verbo choristhe está na voz passiva demonstrando que a situação não dependia muito da mulher que se separava (1 Co 7.11). O próprio contexto deixa claro que Paulo falava de um apartar por parte do marido ou esposa descrentes sem estar levando em conta o motivo do adultério porneia (1 Co 7.12-14). Em todo caso, Paulo falou da proibição no sentido geral, mas não implica dizer que Paulo não aceitava ou desfazia o que Jesus falou sobre a cláusula excetiva da porneia. O que falava era de uma separação por outros motivos que não fossem a cláusula exceptiva de Jesus.

REALIDADE PASTORAL

Sabe-se que a realidade pastoral em relação ao divórcio não é fácil. Muitos vêm às Igrejas divorciados, onde a reconciliação é impossível, já que o cônjuge constituiu outra família. O mais grave é que muitos pastores têm passado pelo divórcio e vem a pergunta que não se cala: O que fazer a esses irmãos que vêm às igrejas divorciados sem terem a cláusula exceptiva como motivo de seus divórcios e o que as convenções devem fazer a esses pastores que passaram por divórcio sem ter como motivo a cláusula de exceção de Jesus? Deve-se admitir que não é fácil, mas precisa-se valorizar a Escritura. Paulo disse àqueles que aspiram ao episcopado e que desejam ser pastor que precisam ser varão-de-uma-só-mulher / mias gynaikos andra (1 Tm 3.2). O sentido do genitivo demonstra uma característica qualitativa do homem. Que seja alguém que não fique se envolvendo com várias mulheres, mas que seja alguém moderado, equilibrado satisfazendo-se com sua mulher, se tiver; pois havia pastores que não eram casados. É muito estranho um pastor, líder de uma igreja, que é divorciado simplesmente por motivos lascivos ou paixões carnais com desculpa de incompatibilidade de gênio. No mesmo texto diz que o Pastor deve governar bem a sua casa, pois Paulo faz uma pergunta lógica, que se pode parafrasear para esse tema: como alguém que não soube segurar seu casamento, dirimir os problemas de sua casa e de sua esposa pode cuidar de uma igreja com toda a sua complexidade? (1 Tm 3.5). Portanto, para um pastor que se divorciou sem a exceção de Jesus, parece inviável permanecer no ministério pastoral segundo as Escrituras. Mesmo porque, o Pastor deve estar pronto para pregar todo o conselho de Deus, mas como pregar contra o divórcio quem já participou de um sem uma razão que Jesus deixou como única? Aos pastores que querem contrair um segundo casamento sem a razão de um adultério porneia, devem ser disciplinados, pois é adultério. Qualquer outro casamento sem o motivo dado por Jesus constitui-se uma violação do sétimo mandamento, não adulterarás. Quanto aos irmãos que são divorciados, devem ser evitados como diáconos (1 Tm 3.12), mas devem buscar outros ministérios, pois há vários na Igreja de Deus.
Desejou-se trazer um esclarecimento, não deixando de aceitar as dificuldades, as situações, as dores e os desencontros; mas não se pode anular a Verdade de Deus por causa da impossibilidade humana, mas deve-se exaltar a Verdade quando se buscam os ideais corretos apesar das impossibilidades, pois só assim, valorizar-se-á mais a Graça de Deus.

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